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(E fica a pergunta: até quando eu vou ficar publicando figurinhas aleatórias?)
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A verdade é que tá rolando um certo constrangimento. Agora que eu estou em Salvador, está complicado atualizar isso aqui por quê os protagonistas das histórias mais insólitas, por uma questão de probabilidade, podem saber da existência desse blog. Maledicência censurada, pronto, fiquei sem assunto.
E eu poderia citar outro implicante para esta pausa: o excesso de trabalho. O que me faz pensar naquelas teorias sobre a obra de Sócrates, de que a produção intelectual só acontece mediante o ócio humano – o que justificaria o fato da filosofia ter se desenvolvido na Grécia Antiga, quando o cidadão comum delegava o trabalho aos escravos e dispunha todo o seu tempo para acumular conhecimento. Um teoria que faria sentido. E que eu levaria muito a sério se todos os seres humanos ociosos que eu conheci na vida fossem pessoas inteligentíssimas. E não, nem sempre é o caso.
Voltamos à primeira hipótese: a do constrangimento. Especialmente nos meios onde a sociedade talvez ainda me considere uma pessoa razoável. Não dá mais pra contar tudo na internet. E eu poderia até, sei lá, dizer aqui que uma amiga minha ontem estava em casa com as chaves na mão e uns guardanapos usados na outra e que ela guardou os guardanapos no bolso, jogou as chaves no lixo e saiu de casa pra trabalhar e que ela, a insana, só se deu conta do ocorrido de noite, quando ficou trancada do lado de fora e achou pertinente abordar pessoas desconhecidas e solicitar ajuda para remexer o lixo dos postes do quarteirão inteiro até achar as chaves perdidas, mas, né? Deixa pra lá.
Muito difícil isso de decidir entre a escrava e a louca.
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A sua loja não ficava no meu caminho. Quer dizer, durante aquele primeiro mês, a verdade é que eu não tinha bem um caminho. Eu tinha um punhado de horas vagas entre o trabalho e o estudo com o qual eu não sabia exatamente o que fazer – a cidade nova, a falta de amizades estabelecidas, família ou assuntos a resolver tornavam-se fatais ao fim de trinta dias – por quê um mês é tempo suficiente para você deixar de se sentir como um turista e tempo insuficiente para você passar a se sentir como qualquer outra coisa. Entrei numa rua ao acaso onde havia um bar vazio, um estacionamento e a sua loja. Nesta ordem de importância.
Era inverno. E eu me lembro disso por causa da praça do outro lado da rua: os pinheiros iluminados, os casais patinando no gelo e aqueles grupos de crianças em corais cantando nos tablados, tudo atraente o suficiente para me levar intuitivamente para o lado de lá da calçada, mas eu continuei indo em frente, onde havia a sua vitrine. Era a vitrine de uma loja minúscula. Chapéus antigos, peças de brechó, artigos para colecionadores e uma infinidade de esquisitices que me transportaram para uma dimensão interessantíssima. Eu abri a porta devagar. E ali, dentro de um colete dourado e um par de sapatos roxos, eu descobri que você era uma velhinha.
Não sei quanto tempo durou aquela visita entre cabides de fantasias orientais, pôsters de desenhos animados, postais em preto e branco e vinis que você colocou para tocar e estavam impecáveis. A conversa fluía tão animada que levei algum tempo para perceber que você não falava português, nem eu falava chinês. E toda a comunicação acontecia entre apontar de objetos, risadinhas e interjeições aleatórias, você me mostrando uma miniatura de roda-gigante – ohhhh! – depois, um dragão fosforescente – uauuu! – e uma série de produtos improváveis que pareciam o cenário de uma ficção. Às vezes, quando eu queria saber para que servia determinado objeto, você erguia os ombros com a expressão impagável de “eu não tenho a menor idéia!”, tinha um acesso de riso e era preciso ligar para os filhos em casa, descrever a peça e perguntar o que se fazia com aquilo. Sempre acenando com os olhos puxados e com um sorriso largo de quem gosta sinceramente das coisas, até de uma estranha que entrou pela porta da loja e nem parecia querer comprar nada. Antes que eu fosse embora, você acenou algo como “volte sempre”. E eu voltei.
Várias vezes. E você me recebia com exclamações de palavras incompreensíveis, abria caixas e apontava as novidades, rindo o tempo todo. E eu me sentia menos deslocada no mundo. Meses depois, no dia em que eu fui me despedir avisando que ia embora para longe, muito longe, você fez uma pausa, foi até os fundos e me trouxe um latinha pequena, contendo algo que parecia ser chocolate. E fez uns gestos com a mão que interpretei como “isso é bom!”. E eu acreditei. Viajei com o embrulho, guardei aqui comigo e o tempo passou. E agora, tão distante, às vezes eu me tranco no quarto, abro sorrateiramente a latinha de metal e, mesmo sem ter idéia do que estou mastigando, guardo esse gosto na boca toda vez em que tudo dá errado. Cada vez em que o acaso falha, cada vez em que as pessoas se desencontram por razões idiotas e definha um pouco mais a minha crença na humanidade. Cada vez em que eu deixo de supor que o universo conspire mesmo ao meu favor, eu lembro que a sua loja nem ficava no meu caminho. Nem os seus sapatinhos roxos, nem as rodas-gigantes, nem os dragões fosforescentes, nem o conto infantil de onde você certamente saiu. E eu me sinto melhor.
Achei que você gostaria de saber, Mrs. Wei.
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Tirem as crianças da sala diz (11:43): aff, odeio esses sites com musequeeeenha
Mariana Miranda diz (11:43): é site que fala de q?
Tirem as crianças da sala diz (11:43): Bacon
Mariana Miranda diz (11:44): obaaaaaaaa toucinho, torresmo, bacon empanadooooo
Mariana Miranda diz (11:44): algo me diz que você vai fazer um churrasco, garota, meu grilo tá me soprando isso
Mariana Miranda diz (11:44): ME CHAMA, ME CHAMA, ME CHAMAAAAA
Tirem as crianças da sala diz (11:45): é Francis Bacon, mariana, o filósofo
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Acho que o cara que dirige filmes como 21 Gramas (2003), Babel (2206) e, agora, lança Biutiful (2011) devia parar de fazer cinema e procurar um psicólogo. Sério. Não, os filmes não são maus, eles são até muito bons, mas, céus, Alejandro González Iñárritu precisa de ajuda. Salvem o Alejandro, gente.
Esse último longa se passa em Barcelona e aborda imigração e morte. E acho que eu não passaria indiferente pela história por quê 1) há um mês que eu voltei de Barcelona, 2) sim, há pessoas falando com os mortos nos lugares e tal e 3) dentro das devidas proporções, aquele cenário de subemprego + imigrantes + colchão no chão = algo ligeiramente familiar.
Mas isso é detalhe. O que arraza mesmo qualquer espectador é a mesma fórmula de Babel: o caos. Não há um vilão, cada um está certo dentro da sua ótica e o grande culpado de tudo é… sei lá, a vida, a sociedade, a natureza humana, qualquer destes substantivos abstrados e inevitáveis. Enfim, não vou fazer uma resenha da história, é só um apelo. Por que existem filmes tristes, existem filmes dramáticos, mas os roteiros deste diretor são di.la.ce.ran.tes. São sempre apocalípticos, claustrofóbicos, profundos, transtornados, meu Deus, façam alguma coisa: esse homem precisa procurar ajuda psicológica!
Sempre saio dos filmes dele pensando nisso. Ou pensando em fazer o mesmo.
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“Quando penso desse jeito, nesta cidade daqui, Dudu, você nem sabe como me dá uma vontade doida, doida de voltar. Mas não vou voltar. Mais do que ninguém, você sabe perfeitamente que eu nunca mais posso voltar. Pensei isso com tanta certeza que cheguei a ficar meio tonto, a mão escorregou e fez esse borrão aí do lado, desculpe. Eu apertei as duas mãos contra a folha de papel, como se quisesse me segurar nela. Como se não houvesse nada embaixo dos meus pés.
Você não sabe, mas acontece assim quando você sai de uma cidadezinha que já deixou de ser sua e vai morar noutra cidade, que ainda não começou a ser sua. Você sempre fica meio tonto quando pensa que não quer ficar, e que também não quer – ou não pode – voltar. Você fica igualzinho a um daqueles caras de circo que andam no arame e de repente o arame plac! ó, arrebenta, daí você fica lá, suspenso no ar, o vazio embaixo dos pés. Sem nenhum lugar no mundo, dá para entender?
Ando tão só, Dudu.”
(Caio F. / Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira da Sanga)
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E aí que estava eu passando pelo shopping disposta a comprar um celular por que o meu aparelho lusitano foi acometido de banzo e mooooorreu. Minha única exigência era que o novo tivesse toque polifônico (e até fui informada que este meu sonho de consumo está defasado, a moda é ter toque com mp3). Entro numa loja e pergunto o preço de um aparelho aleatório. O vendedor responde educadamente. Depois, com muita discrição, ele se aproxima e fala baixinho:
– Leve isso não.
– Hum?
– Não presta, leve não.
Tá, né? Continuo de bobeira no shopping até o horário da minha consulta com o oftamologista. Sim, eu tô ficando cega, não enxergo nada, vou morrer. O médico me atende, ouve as minhas lamúrias, me examina e, no lugar da receita, ele escreve num papelzinho: pegue seu dinheiro de volta com a secretária.
– Como assim, doutor?
– Sua visão é perfeita. Pegue seu dinheiro de volta e pague um psicólogo.
Ok. Depois de ser chamada de louca pelo meu médico, eu até fiquei feliz de reembolsar 200 reais e voltei para o shopping para comprar meu celular. E reencontro uma conhecida que também havia passado um tempo fora da cidade e quis saber tudo o que aconteceu nos últimos anos: quem formou, quem casou, quem morreu, quem comprou uma bicicleta. E quis saber de mim também:
– E como está sendo a readaptação?
– Bacana. Só é difícil essa sensação de ter que reconstruir tudo, de começar do zero.
– Mas reconstruir oquê? Você não tinha nada, né?
Fato.
Vale dizer que esse encontro levou uma meia hora, tempo em que o shopping fechou, não comprei o celular, não curei a minha cegueira e voltei pra casa com essa cara aqui:
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Yehhhh.
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(Barcelona, 01/01/2011, 03 graus)
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Imagens do primeiro dia do ano. Só pra lembrar que 2011 está sendo apenas perfeito.
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