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O retorno de Saturno

O trem elétrico fechou as portas um minuto antes que chegasse à estação e foi partindo sem ela – bem, paciência, não tinha mesmo pressa naquela tarde. Parou de correr, deixou que a máquina seguisse, tudo bem, pensou ofegante suando dentro do casaco, a maquiagem desmanchando sobre o rosto quente. Nos últimos dias, diante do imponderável, aceitava. E aceitar era fácil, quase divina aquela conformação plácida de quem compreende e tolera todas as coisas – ainda é cedo, ainda há sol, mentalizava sem maldizer o atraso, a distância, a inconstância do tempo num esquenta-esfria o dia inteiro, o fato de estar outra vez voltando pra casa a pé e pressentindo aquele blush barato desmanchando na cara feito tinta guache, o trem partindo, os ombros curvados, tudo bem.

– Olha só você! – era uma voz conhecida, ela virou-se – você não mudou nada! – meu Deus, não acredito! – como você está? – estou bem! – ah, quanto tempo! por onde você andou? – mas que saudade – foram atropelando cumprimentos, frases tão típicas de quem não se vê a algum tempo ou mesmo a muito tempo e não sabe exatamente o que dizer, um abraço apertado, meio desajeitado, que deixou uma das luvas de lã com o fio preso no zíper do casaco do outro – pronto, agora a gente não se desgruda mais, ah, pois é, nunca mais – risos. E, depois, um certo silêncio, o ruído de um novo trem se aproximando, a hesitação entre chamar o rapaz pra tomar alguma coisa em algum lugar ou dizer sorridente qualquer frase de fuga, vamos-marcar-qualquer-coisa-um-dia-desses-beijos-me-liga e sumir num daqueles vagões que abririam-se em minutos, um adeus da janela, adorei te encontrar, eu também, não some, se cuida, sim, o melhor era sumir no próximo vagão – quem diria você aqui, hein? – foi falando com o intuito de começar uma despedida, resolvida a não remexer naquilo, mas, num minuto, nem sabia dizer como, já estavam sentados na mesa de um café antigo, toalhas brancas, cortinas de renda, um cardápio na mão e a sensação de que já era tarde demais para escapar.

Quando o garçom trouxe as duas xícaras ele contava sobre um projeto, quase dois anos para concluir, mas concluído, um edifício de galerias desenhado por ele, primeiro trabalho de peso – meu primeiro filho já nasceu com trinta metros! Quero o teste de DNA – riram, ele orgulhoso e ingênuo, gesticulando muito e um pouco engraçado naquele casaco onde lhe sobravam ombreiras, tentando resumir os últimos anos em historietas com muitos personagens, enredo impossível de acompanhar. E aquela descontração teria durado mais tempo se, de repente, ele não perguntasse pela vida dela, no que fizera desde que deixaram de trabalhar juntos, e ela dissesse que havia mudado de ramo, que tudo havia mudado um pouco, mas que até tinha saudades do escritório, dos projetos que faziam, do grafite zero oito que ele pegou e nunca devolveu – epa, isso não é verdade, ele interviu, eu ganhei  quando você perdeu a aposta. Sim, você mesma, quem mais apostaria comigo algo tão besta quanto a origem dos Beatles? Ela baixou os olhos achando graça, nossa, isso faz tanto tempo, pois é, mas eu lembro, você lá da mesa seis gritando (e nessa hora ele gracejava com voz feminina, exagerando nos “as”) olhaaaaa, pois foi em Londres, eu aaaaposto. Os dois riram, ela negando, olha, eu não falo assim, ele insistindo, está vendo aí, você acabou de dizer olhaaa, e então ele tirou do bolso uma caneta, rabiscou num guardanapo e ela reparou que já não usava a Bic azul, original e costumeira, mas uma outra, tipo Parker, desenhou no guardanapo um esboço da mesa de trabalho deles, os adesivos no armário, os ímãs no frigobar, o brasão do Super-Homem que ela havia colado no mural de cortiça, você viu o último filme? Não, nem o último, nem nenhum, ah, não me diga que você ainda curte esses heróis de gibi, ele ironizou, ela disse que sim, que ainda gostava, que no último filme havia uma cena ótima, um piano afundando no mar, ele interrompeu dizendo que não, que não fazia sentido que ninguém desconfiasse daquele personagem com um disfarce tão bobo, só um óculos e ninguém reconhece o cara? História mais doida, foi falando implicante, só me falta agora você me dizer que também continua rasgando papéis por aí, sim, eu ainda rasgo folhas de papel em mil quadrados iguais! Picotes que, às vezes, ele catava no fim do expediente e montava um desenho qualquer sobre a mesa, um pássaro, uma casa, uma frase: salve as árvores! Huahuahua! Olha, você não mudou nada.

Nessa hora o garçom chegou com as torradas, nenhum dos dois lembrava mais das torradas, esperou que o garçom saísse e continuou: outro dia eu voltei lá no restaurante do Pina, lembra dele? Ainda tinha o disco que sempre tocava, por que o Pina era meio tosco, só tinha dois ou três discos, todo dia na hora do almoço as mesmas músicas arranhadas, “é uma índia com um colar” e a faixa sempre engasgava na mesma parte “colar, colar, colar”, você lembra? Pois é, depois até comprei um CD igual pra poder ouvir a música inteira, ele foi dizendo com ironia e ela ficou sem saber se era verdade ou não, mas não importava. Foi então que ele passou a mão na testa como quem busca algo na memória e ela comentou, ei, seu cabelo está caindo, e ele disse, é, eu sei, vinte e nove este ano, ano que vem é trinta, e passou a mão na testa outra vez e ela cantarolou “aos vinte e nove, com o retorno de Saturno” tamborilhando com a colher na borda da xícara, mas calou em seguida, os dois olhando para o bule em cima da mesa, silêncio. Até que voltaram a falar e falaram muito sobre qualquer coisa assim, vaga, e ele perguntou se um dia ela voltaria ao escritório e ela disse, não, eu acho que não, e ele abanou a cabeça com os olhos na mesa, desenhando rabiscos com a caneta Parker: nem pra apostar outra zero oito? Ela riu e acenou sem responder. Depois falou assim, lenta: nossa, olha como é tarde… já anoiteceu lá fora. E ele disse, é mesmo. Quanto tempo se passou? Eu também não sei.

Saíram do café e, em dois ou três minutos, estavam novamente na parada, aproximava-se um elétrico cheio, o chão da estação trepidava. A despedida foi rápida, adorei te encontrar, eu também, não some, se cuida e já dentro do vagão, acenando da janela, ela foi cantarolando “é uma índia com um colar, a tarde linda que não quer se pôr…” e depois foi lembrando do piano no fundo do mar e de outras cenas que quase ninguém viu, ou que ninguém reparou, e de repente, lembrando daquela cena, por um instante, pensando melhor, ela concordou e também achou que todos os personagens do filme eram mesmo uns idiotas por não perceberem que Clark Kent era o Super-Homem.

03

Praça da Baixa, Lisboa, 5:31 a.p., 14 graus.


Mas há também o que nos mate aos poucos, lentamente, feito ferrugem consumindo os dedos das estátuas. A gente sabe que está morrendo um pouco mais e se conforma. E se entrega. Abandona-se como num banho de chuva envenenada, deixando-se encharcar por todos os poros, pressentindo o mal infiltrando-se no corpo inteiro. Para, um dia, deixá-lo escapar assim, de repente, pelo canto dos olhos.

(Trecho de um textinho antigo do blog)

Aula II

– Epa, estou a precisar de uma imagem para este editorial. Algo poluído, denso, algo porreiro. Em preto e branco. Acaso, dúvidas?

– Bem … eu tenho, quer dizer… fotografar em PB é como pedir um músico para compor com duas notas, é jogar com duas peças de xadrez. Talvez a gente esteja empobrecendo o que poderia ser rico e…

– Olha, gaja, pois que somos pobres. Só dois olhos, só duas pernas. Pareço incompleto sem um terceiro braço? Duas cores. E não se está a falar mais nisso.

Limítrofes

– Professor, há como indicar uma bibliografia para este assunto dado?
– Sim meu caro, mas, infelizmente, apenas em idioma estrangeiro. Há problema?
– Não.
– O rapaz prefere em francês, italiano ou alemão?
– Tanto faz.

Diálogos como estes no fim da aula me dão a medida exata do abismo intelectual entre eu e os meus colegas. E me fazem crer fervorosamente que as minhas boas notas devem-se a mais autêntica evidência da generosidade divina. Amém.

Como prova de uma fé inabalável no poder do milagre, este semestre a mobral aqui matriculou-se em dois cursos, ou seja, pega mais matérias do que qualquer aluno normal. É que uma pessoa andava sem muitos problemas na vida e resolveu encomendá-los em atacado. Metade das matérias são em Jornalismo, metade em Edição de Texto – em edição de quê? – Edição de Texto, aquele curso direcionado a quem não foi cético-capitalista o suficiente pra cursar Publicidade, nem hippie-romântico o suficiente pra cursar Artes. Pra quem quer ser editor – aquele cara que recebe pilhas de material artístico todo dia, lê, analisa, separa o joio do trigo e publica o joio.

Hoje foi o segundo dia de aula. Curioso estudar numa classe limítrofe. Notei que meus colegas, além dos óculos de acetato e do casaco Adidas, possuem outra coisa em comum: um projeto na gaveta. Um projeto de filme, de livro, de exposição, de bomba nitrogenada, de qualquer coisa que continua lá, na eminência. Se esses projetos tivessem sido tirados da gaveta para a vida real, esses alunos estariam cursando Cinema, Literatura, Artes. Se tivessem sido tirados da gaveta para o lixo, estariam cursando Direito, Engenharia, Medicina. Mas se a pessoa insiste em deixar um projeto na gaveta, não tem jeito: é colocar os óculos, vestir o casaco e fazer uma matricula lá.

Quando sobrar uma vaga.

Burocratas

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
(Drummond de Andrade / Confidência do Itabirano)


É nessas horas que dá vontade de voltar. Pelo menos por uns cinco minutos. Depois de uma discussão de meia hora com seu professor por motivo acadêmico-burocrático-idiota, onde você nem ele resolvem nada, você sai com a sensação de que, além de não resolver nada, ganhou um inimigo e vai ter que rebolar pra passar na matéria. Massa. Você precisa desabafar. Desce as escadas, vai para o pátio enfurecida e encontra os colegas. Todos norte-europeus. Todos educados, arianos que não falam nomes feios, não usam hipérboles desabonadoras e nem dizem que vão matar o professor, amordaçar os funcionários, quebrar as salas de aula e destruir a faculdade toda até o prédio virar arte moderna. Não, essa gente não me entende.

Para não bancar a subdesenvolvida primata urrando na jaula, não digo nada. Volto pra casa com isso entalado. Aliás, sempre volto com alguma coisa entalada, uma grande alegria ou uma grande tristeza, por que essa avalanche diária de sentimentos extremados é herança latina maledita, não têm lugar nestas terras civilizadas. Onde o povo é sóbrio e ponderado. Onde faz frio por fora e por dentro, nas mãos e na alma.

A burocracia é isso: quando as palavras precisam passar por triagem antes de vir à boca. E espontaneidade é anarquia involuntária. Todo dia, carimbo e autentico minhas frases mais bobinhas. E nunca pensei que bater numa mesa para emendar uns dez palavrões pudesse fazer tanta falta.

Sexta-feira:

– Bom dia, a lavanderia fecha aos domingos, senhor?
– Não.

Domingo:

Eu carregando quilos de roupas e a droga da lavanderia fechada.

Segunda-feira:

– Meu caro, estive aqui em vão ontem. O senhor não disse que a lavanderia não fechava aos domingos?
– Pois. Se nem chego a abrir, por que haveria de fechar?

O substitutivo

Rosa era costureira e dona de casa, tinha 42 anos e andava de ônibus. Uma mulher comum, dessas que a gente encontra todos os dias na rua, no supermercado, na fila do banco. Rosa era negra. E, uma dia, viajando de ônibus, recusou-se a levantar do seu assento – reservado para negros – para dar lugar a um homem branco.  É que os assentos para brancos estavam ocupados. Acusada de pertubar a ordem pública, foi detida no Alabama, em 1955, voltando os holofotes da mídia para um tema delicado: a segregação racial em veículos públicos.

Era o início. Em resposta à prisão de Rosa Parks, um pastor até então desconhecido chamado Martin Luther King dirigiu protestos às autoridades, fomentando uma onda de reivindicações contra o preconceito e a discriminação. Quando o caso de Rosa Parks chegou ao Supremo Tribunal, a segregação racial em transportes públicos foi considerada inconstitucional – mas já estava desencadeada aquela que seria a maior revolução dos Direitos Civis nos Estados Unidos.

Foi neste cenário, onde os negros não podiam beber água em bebedoro de branco, onde os negros não podiam entrar em banheiro de branco que, no Havaí, nascia uma criança de nome estranho. Obama.

Não faz muito tempo. Faz menos de cinquenta anos. Uma sucessão de fatos que levanta uma questão intrigante para nós, aqui do andar de baixo: como os  Estados Unidos, uma nação reconhecidamente racista e conservadora, consegue, em tão pouco tempo, driblar o preconceito e eleger um homem negro para a presidência? Em outras palavras: com quantas Rosas Parks se faz um Barack Obama?

Desde que o IBGE publicou uma pesquisa recente que comprova que o Brasil é um país de maioria negra, o assunto não sai de pauta. É que, nos EUA, eles são apenas 13%. Durante uma entrevista em Londres, o presidente Lula disse que Obama parece um de nós: “Se você encontrar o Obama no Rio de Janeiro, você pensa que ele é carioca. Se encontra na Bahia, pensa que é baiano”, brincou. E fez o convite: “Obama precisa conhecer Salvador, a maior cidade negra fora da África. Ele vai se sentir em casa”, garantiu. Os brasileiros concordaram. Os baianos festejaram. E, mesmo sem promessas, os mais de 2 milhões de afro-descendentes de Salvador já se preparam para receber por aqui um grande líder negro. Importado.

As diferenças históricas explicam. Enquanto os EUA desgastavam-se em políticas de reparação, criação de cotas e campanhas de conscientização, tivemos o privilégio de nascer no Brasil: num oásis de democracia racial que orgulha o povo, encanta o mundo e nos enche de alegria e preguiça. Terra miscigenada e tolerante, abençoada por Deus e bonita por natureza. Mas sem nenhum candidato a presidente negro. Sem nenhum governador negro. Apenas um diplomata negro. Tudo isso por que… porque mesmo?

Acredito que o maior desafio dos ativistas sociais de hoje é vencer a inevitável acusação de que são os negros que estão inventando o racismo na Brasil. Por exemplo, neste mês de setembro, tivemos a aprovação do substitutivo do projeto de lei que cria o Estatuto da Igualdade Racial. Do substitutivo? Pois é. É que o projeto original incluía cotas para a educação, para a aparição de negros na tv e no cinema, para ocupação de empregos públicos e a regularização de terras quilombolas. Medidas que a Câmara considerou desnecessárias. Segundo o deputado Índio da Costa (DEM-RJ), “Buscou-se entendimento retirando todos os excessos do texto. Todas essas aberrações saíram”. Ah, bom. E a gente achando que aberração era o fato da tv brasileira ter mais apresentadores brancos que a tv européia. Bom trabalho, deputado.

A aprovação de um estatuto esvaziado é motivo de festa no Brasil, enquanto, nos EUA, políticas reparatórias consistentes vigoram desde a década de 60 do século passado. Pensando bem, é muito tempo. Tempo suficiente para colocar um homem negro na Casa Branca. O que me faz pensar que, se Rosa Parkes tivesse nascido do lado de cá do Equador, ela não seria detida por lutar contra o racismo. Aqui nada é tão sério, nada é tão grave. Num gesto simples, ela seria considerada desnecessária. E riscada da pauta política junto com “todas essas aberrações que saíram”.

Existem muitas formas de abafar uma crise e manter o sistema vigente, uma delas é o descrédito. Ignorar os protestos e fazer o povo acreditar que já vive de maneira igualitária, sem distinção. Que qualquer um pode estar jantando num restaurante caro ou servindo a mesa, passando fome ou dando banquete, sambando na pista ou no camarote. Que a cor da pele não faz diferença.

Até que chegam as campanhas eleitorais para lembrar a nós, brasileiros distraídos, que a cor da pele faz, sim, muita diferença.

Puma e Adidas

adidas_pumaÉ o avesso do sentimento:
Oceano sem água.
(C. Veloso / Queixa)

 

Esta semana soube de uma notícia terrível – a Puma e a Adidas fizeram as pazes. Fiquei chocada. Pra quem não sabe, a história é a seguinte: na década de 20, na Alemanha, uma empresa de calçados desportivos foi fundada na lavanderia da casa dos irmãos Adolf e Rudolf Dassler. Um dia, os dois irmãos brigaram, desfizeram a sociedade e cada um montou a sua fábrica: uma se chamava Puma, a outra se chamava Adidas. Cada uma de um lado do rio, dividindo também os moradores locais, que tinham que ser fiéis a um ou a outro empregador. Por despeito, por competição, por mágoa, o fato é que as duas empresas chegaram ao topo das marcas mundiais. Juntas.

Um história famosa, intrigante e bilionária que me faz pensar sobre a inimizade nossa de cada dia. Não, não esperem deste espírito elevado nenhum discuso pacifista por que, como todos sabem, eu gosto é do estrago. Afinal, amizade pode desgastar, afeto pode esfriar, consideração pode virar esquecimento – só inimizade é pra sempre. 

Minha teoria é a seguinte: inimigo é aquele cara que tinha tudo pra ser seu amigo mas, por algum motivo, não é. Por que te traiu, arranhou seu carro, bagunçou seu cabelo. Alguém que você conhece bem, que você até adimira, mas, por qualquer razão, a coisa descambou – e, provavelmente, ficou muito mais interessante. Para isso, é necessária certa equivalência entre as partes – se você não gosta de alguém e se sente muito superior à criatura, o que você sente é desprezo, antipatia. A torcida de futebol do Brasil compra brigas com a da Argentina, não com a torcida da seleção de Feira de Santana, se é que existe.

Por exemplo: graças ao ódio entre os Montecchio e os Capuleto, ambas famílias ricas, respeitadas e ex-aliadas, o romance de Romeu e Julieta virou um clássico. Os Capuleto não resolveram brigar com os Da Silva, entende? E mais: se os dois clãs vivessem às boas, reunindo-se em churrascos aos domingos, aquele seria um namorico de playground, sem ódio, sem lugar nas prateleiras da posteridade. Sem o glamour da maledicência.

Pessoalmente, acho que sou uma ótima inimiga. Do tipo que dá o tapa, bate a porta e depois liga pra perguntar se doeu. Do tipo entra sem convite na festa de aniversário e, de preferência, com um vestido idêntico. Daquelas que quebra o vidro, arromba a janela, amordaça o poodle e rouba o CD do Chico. Dessas que não negocia. Se o rival não tem defeitos, a gente inventa. Se o rival não tem problemas, a gente providencia. E a medida da maldade é sempre a medida do afeto extinto – inversamente e milimetricamente proporcional.

Repare: inimigos são sempre íntimos. Natural que Darth Vader seja pai de Luke Skywalker, natural que Lex Luthor seja amigo de infância de Clark Kent, que Caim seja irmão de Abel, que a mãe de Hitler seja judia, que a maçã tenha sido envenenada pela madrasta da Branca de Neve e não por uma bruxa qualquer que antipatizou com a coitada sem melanina. A verdade é que eu não acredito em rancor à primeira vista. Talvez por isso ignore tão solenemente quem me ofende de graça – nem virou meu amigo e já quer ser promovido a desafeto? Gentalha, gentalha.

Inimizades não acontecem todo dia. E é aí que está o problema: depois que seus antigos rivais resolvem despencar dois (dez) degraus no quesito vida interessante, passam a postar coisas bizarras na internet e desafiar todos os limites da mediocridade, a pessoa fica sem parâmetro, sem espelho, sem meta na vida! Não sei o que fazer. Tenho conhecido muita gente inteligente, emotiva e feladaputa, gente que ainda vai me render ótimos barracos futuros, mas ainda coloco fé nas velhas rivalidades. Amigos vão e vem, mas inimigos se acumulam. Um dia eles saem da sargeta da vida banal, voltam à atividade cognitiva e recuperam o prestígio dos meus instintos homicidas. Desafetos desaparecidos, favor reaparecerem. A Puma não seria quem é sem a Adidas.

Cassino

As pessoas não nascem grandes. Os vícios também não. Primeiro, um amigo pede pra você parar. Depois, outro diz que isso pode te prejudicar, que pode terminar mal, mas você já começou e não quer ouvir mais ninguém. Quando se dá conta, você já está morando ao lado do cassino, passando noites loucas à frente da roleta, frequentando aquele ambiente aonde o uso de qualquer equipamento eletrônico pode ocasionar multa e\ou detenção. Tudo conspira contra, mas você não desiste. E continua fotografando por lá assim mesmo.

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Num dos restaurantes, o chão é móvel como um disco de vinil. Os círculos de mesas giram em sentidos contrários.

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Um dos andares de jogos eletrônicos, onde há exposições, bares, shows e mais de cem máquinas.

Extravagância é isso: o povo fumando sobre o chão de carpete, garçom acendendo vela com nota de um dólar e uma enorme escada rolante que vai direto do térreo à cobertura – uma ascensão rápida e sem etapas que deixa os clientes, literalmente, nas alturas. Extravagância é o chão ir se iluminando dois metros à sua frente quando você anda e, mesmo assim, você não andar olhando para o chão. É jantar debaixo de um lustre do tamanho de um carro e, mesmo assim, não comer olhando para o teto. É comprar fichas, fazer apostas e ir embora antes da primeira rodada. E entrar no táxi argumentando que o melhor do cassino é aquele antepasto de gengibre e funghi. Puro glamour.

Síndrome de Diógenes

Subst. Fem. (grego sundrome, -es, reunião) Significa uma tendência ao acúmulo voluntário de grandes quantidades de materiais inúteis em determinado local.

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Exemplo: mudar de país com apenas uma mala e, em pouco tempo, acumular o suficiente para preencher uma pick-up.

Especialistas garantem: há cura.