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Feira das Nações

Eu não espero pelo dia
em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas
possíveis sem juízo final.
(Caetano Veloso / Fora da Ordem)


(Polar Bear / Coleção National Geographic Kids)

(Polar Bear / Coleção National Geographic)

 

A nova coleção de bichinhos de pelúcia da National Geographic é o máximo. O conceito é o seguinte: produzir brinquedos que tenham semelhança com a realidade. Afinal, como a gente sabe, o Snoopy não se parece com um cachorro, o Garfield não se parece com um gato e, se você apresentar aos seus filhos o Zé Colméia, eles jamais vão reconhecer um urso no zoológico. Os personagens humanóides são ótimos, mas deixam as crianças confusas. E com referências fantasiosas, estereotipadas, distantes da realidade.

E crescer é isso: chegar mais perto da realidade. Por exemplo, há seis meses atrás, concluí que o meu entendimento sobre certa espécie exótica – a espécie humana – estava a quilômetros da realidade. Talvez estacionado no degrau Feira das Nações. Lembra daquele evento da escola onde cada classe representava um país, montava uma barraquinha com comidas típicas e dançava uma música do lugar? Pois é. A turma da Rússia usando gorro, a turma do México dançando com maracas e o povo da China oferecendo rolinhos primavera. Minha curta compreensão sobre a diversidade humana estava neste estágio até hoje – no evento que os colégios promovem para aumentar a nossa cultura geral e nos lembrar que o mundo não se encerra no quarteirão da nossa casa. Só que o tempo passa, a gente sai da escola, vira adulto e nada muda. Nosso mundo continua se encerrando no quarteirão da nossa casa.

Até o dia em que a pessoa vai morar em Ameixoeira. Um bairro recém-construído para abrigar uma multidão de imigrantes recém-chegados – de onde? – de qualquer lugar. Você chega do trabalho e tem um vizinho queniano acendendo uma fogueira na calçada, um grupo de romenos armando uma tenda mais à frente, chilenos comprando mantas, mulheres de burca estacionando seus Mercedes e uns primos barburdos do Bin Laden trazendo seus 352 filhinhos para brincar no parque. Meu prédio fica exatamente entre o condomínio angolano e o cigano, uma zona de fronteira. Fica em frente a uma praça infantil – que parece um vídeo-clipe da UNICEF – e ao lado de um café – que não deve nada aos anúncios da Benneton. Aonde está o Toscani que não vê isso?

E, no meio de tanta diversidade, uma brasileira. E ninguém entende mais de imigração e diversidade do que os brasileiros, certo? Errado. A gente não sabe nada sobre isso. Quem sabia eram os nossos bisavós! Quando a gente nasceu, as raças já estavam misturadas, todo mundo já falava a mesma língua, usava garfo, faca e calça jeans. Já eram todos da mesma nação. Daí por que  hoje você senta, pede uma esfiha, uma Coca-Cola e um petit-gâteau sem achar que está fazendo uma grande absurdo gastronômico. Um momento histórico 300 anos à frente de quem acabou de sair de sua tribo/cidade, ainda fala o seu dialeto/idioma e parece não ter nenhuma intenção de flexibilizar seus costumes. Ainda. Os indianos com seus véus, os quenianos com seus torços, as polacas com seus coques, como se toda pessoa que nascesse em Salvador saísse pra trabalhar vestido de capoerista ou baiana de acarajé. Culturas genuínas. Uma injeção de realidade que faz as minhas referências anteriores parecerem com os bichinhos de pelúcia bem-intencionados.

Adoro morar em Ameixoeira. Adoro ver o mapa mundi ficar pequeno debaixo da minha janela. E adoraria dizer que esse ambiente de multiplicidade cultural me faz acreditar na tolerância, na justiça e na integração planetária ao som de We are the world, mas não é bem assim. Os grupos humanos – essa espécie de origem primata – encontra-se em lento processo de evolução. Em outras palavras: a paz ligou e mandou um abraço. Mesmo em nações desenvolvidas, o contato direto entre povos diferentes segue o padrão ancestral: incluindo a delimitação de territórios, a criação de lideranças, a troca de manufaturas e – eventualmente – as guerras. Uma prática antiga e inútil que o homo sapiens preserva consigo, assim como o cóccix, o apêndice e o dente do siso.

Assim caminha a humanidade. Não temos petróleo, não temos ogivas e, mesmo assim, uma miniatura de guerra mundial vem esquentando o clima por aqui. Por religião, por política, por espaço, por dinheiro. Por desavenças milenares que amarelam nos livros história, por heranças de ódio, revanche e separatismo. Não importa. Depois dos ciganos fazerem arrastão pelo mercado (comigo dentro), dos colombianos quebrarem as lojas (comigo dentro) e dos nigerianos apedrejarem os ônibus (comigo dentro!!!), achei que era hora de cair fora. Comuniquei à vizinhança e todos compreenderam sem alarde. É que emigrar para fugir de uma guerra não é novidade para ninguém por aqui.

Hora de arrumar as malas. Outra vez. Por que a Feira das Nações de gente grande é diferente. Hora de pesquisar outros bairros, outra vizinhança, outro modo de vida. Quando se precisa entender a cultura do outro para sobreviver é que a gente aprende de vez a olhar mais adiante. E o mundo não se encerra mais no quarteirão da nossa casa.

Dano culposo

Mesmo que você segure com as duas mãos, o coração se parte. Acontece assim, numa tarde de terça-feira, sem nenhum movimento brusco. Os olhos vidrados na janela onde cai a chuva, as mãos vazias sobre a mesa num canto da sala. As almofadas quietas, cada planta em seu lugar. Atrás da porta fechada onde os móveis transpiram pó, algo cai de si mesmo sozinho e, no chão, se despedaça.

Você compra o pão, vai ao cinema, volta pra casa e ele pode se partir. Na sonolência das sete horas, no calor do meio-dia, no azul de três da tarde. Antes da Ave-Maria, no meio da madrugada, quando menos se espera, tudo está por um fio. Uma mensagem que chega depois do tempo e o coração se parte. Uma mensagem que chega antes do tempo e o coração se parte. A palavra na hora errada, o silêncio na hora errada, a hora errada se repetindo a cada minuto de todos os dias. Um gesto sem intenção e o coração se parte. Uma carta mal escrita, um ato por distração. Todas as relações, as recentes e as antigas, pontes de porcelana, tudo pode se quebrar.

Mesmo que você segure com as duas mãos. O coração se parte.

SMS

Diálogo de SMS durante o expediente de hoje:

– Olá, colega!
– Fala, colega. Como estão as coisas?
– Isso aqui hoje está um Big Brother. Tem fiscal do RD em todo lado. Pedro Bial que me acuda!
– O povo do RD? Quero que essa gente queime a cara no chão até o beiço virar bacon…
– Uia! Huahua! The boss in the hell!!!
– And the book is on the table…
– Ah, bem, eu quis dizer, tipo, que essa gente devia sumir…
– Ok, all right. E o diretor deles veio?
– Não, mas mandou um coordenador. Quando o diabo não aparece, manda os agregados. E você, tá fazendo oque?
– Dando outra volta no primeiro piso.
– Com emoção ou sem emoção?
– Vejamos: a Hennas mudou as peças da vitrine, os seguranças trocaram de turno e o povo da limpeza recolheu o lixo. Fortes emoções.
– Eu tô aqui no stand com a cara de proteção de tela número seis: aquela em que a logo do windows fica subindo e descendo…
– A gente devia ir embora daqui.
– Hoje?
– Não, hoje é quarta. E quarta-feira não é dia de nada…
– Epa! Quarta-feira é dia de Feirão Verde na sessão de hortifrut, tudo fresquinho e selecionado especialmente para você!
– Pare que tá feio. Isso está dominando a sua mente.
– Tudo bem, a gente se demite na sexta e faz o quê depois?
– A gente vem de mochila, pede as contas e vai para o Porto, está tendo festival de vôos acrobáticos. Acampava lá uns dias, depois ia pra Óbidos, Algarve, sei lá.
– Delícia, delícia.
– É só trazer na mochila a comida, a roupa e o lança-chamas pra queimar esse shopping inteiro antes de ir.
– Então estamos de aviso-prévio. Posso levar um frango?
– Não, chega de farofa. Traz uns biscoitos, uns sanduíches…
– Ok, entendi. Sexta-feira, tá marcado.
– Beleza, marcado.
– E quer saber do que mais?
– Diga.
– Amei essa sua idéia.
– Dos sanduíches?
– Não, a de antes…
– Da demissão?
– Não. A do beiço do povo virar bacon. Adorei, adorei.

Tudo o que é verdadeiro,
tudo o que é respeitável,
tudo o que é justo, tudo o que é puro,
tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama,
se alguma virtude há e se algum louvor existe,
seja isso o que ocupe o vosso pensamento.
(Filipenses 4:8)

Se houve uma coisa que me marcou neste semestre no mestrado foi uma frase de Perelman, na aula de Retórica: “Mais importante do que saber quais são as suas prioridades, é saber em que ordem você as coloca”. Sim, porque, graças à criatividade humana, as pessoas têm muitas prioridades. Por exemplo, em toda virada de ano a gente promete muitas coisas: parar de fumar, ler mais livros, fazer uma atividade física, ganhar mais dinheiro, iniciar novas amizades, resgatar as antigas, visitar a Grécia, fazer coleta seletiva, plantar uma árvore, rezar pelas baleias – tudo bem, tudo bem, são todos desejos sinceros. Mas, o que vem primeiro?

Num jornal também é assim. Para conhecer a filosofia de uma editoria, nem é prioritário analisar que matérias compõe a edição – de maneira geral, todos publicam os mesmos assuntos. Importante é saber em que ordem as notícias entram na página. A gradação de assuntos é decisiva, é o caminho que alguém utiliza para chegar a determinado lugar. Sim, os jornais sabem aonde querem chegar. E a gente? Nem sempre. Enumerar prioridades é uma tarefa que exige um elemento precioso da nossa cognição: foco. Clareza de objetivo, meta, alvo. E a falta deste mesmo elemento precioso também pode ter muitos sinônimos, sendo que um deles leva a alcunha de: Síndrome do Eu Mereço.

Identifiquei os primeiros sintomas desse mal epidêmico num colega meu. Certa vez ele arranjou um emprego muito ruim por um salário muito bom. Ele não gostava da atividade, não gostava do lugar, não gostava dos colegas, mas a remuneração era excelente e ele foi ficando. A idéia era fazer uma poupança, comprar um carro ou algo assim. Ficou lá por dois anos e saiu sem um tostão no bolso. O motivo? Sindrome do Eu Mereço.

Era assim: ele labutava muito e, no fim de semana, era hora de compensar. Oferecer a si mesmo mimos e extravagâncias que ele, certamente, não precisaria se estivesse feliz no trabalho. Se voltava exausto na sexta-feira à noite e, no caminho de casa, tropeçava numa vitrine qualquer, o estrago estava feito: perfume importado em promoção? Bem, eu trabalho num lugar que eu odeio, então, eu mereço. Computador Mac Duo Core? Eu dou duro para isso, ora, eu mereço. Celular que filma, fotografa, toca música, acessa internet, passa fax, faz suco de laranja e até telefona? Depois de tanto sacrifício, ah, nada mais justo. Daí o contrato se encerrou e me liga ele lamentando os dois anos desperdiçados num lugar que ele não gostava, fazendo o que não gostava, com pessoas que ele não gostava. Pois é, o tempo não volta. E o fato dele estar me ligando de um celular caríssimo, convenhamos, não muda nada neste contexto.

Nenhuma apologia a uma vida franciscana, nenhuma campanha contra pequenos arroubos financeiros – nada melhor para a saúde do que uma boa dose de irresponsabilidade em aplicações homeopáticas:  fazer toda semana algo ótimo que possa resultar em consequências péssimas. Recomendo.

A questão nem é essa. É a falta de foco. É quando a falta de objetividade faz a pessoa negociar a própria felicidade por outra coisa, trocar seus dias por outro benefício qualquer. É selar um contrato de risco com o único cidadão que não aceita contratos, não faz trocas e nem sabe negociar: o tempo. Ninguém ensinou contabilidade para este cara.

Não importa o quanto a nossa vida esteja sendo dura: a Síndrome do Eu Mereço só acontece quando a gente perde o foco. E deixa de enumerar o que é importante, quem é importante e qual o degrau de importância de cada coisa. Atualmente, tarefa difícil para quem é geminiano, tem poucos recursos e muitas decisões a tomar. E não pode colocar prioridades no fim da fila. Não pode selar tratados com o tempo. Quando o sócio não é de confiança, o jeito é ficar de olho aberto. A gente nunca sabe quando ele pode encerrar o contrato.

O telefone tocou. Desespero. E nem deu tempo de correr. O meu novo trabalho é o seguinte: circulo num shopping fardada e maquiada para promover os serviços telefônicos de uma holding. Só isso. Eu não posso vender celulares aos clientes, eu não posso vender créditos aos clientes, aliás, eu não posso nem informar as horas aos clientes por que qualquer atividade de cunho mental me é vetada. Tenho que sorrir e pronto. Além de circular, às vezes eu vou ao stand, que fica em frente a um supermercado. Zona perigosa. É que, por algum motivo, o povo daqui acha que t-o-d-a-s as pessoas que andam fardadas num raio de 1 km de distância de um supermercado trabalham só e unicamente para o supermercado. E te puxam pelo braço fazendo perguntas, bradando pelos direitos do consumidor, te acusando de propaganda enganosa, te arrastando para a prateleira tal para mostrar não sei o que que está pelo preço não sei qual enquanto eu sorrio desesperada tentando fugir e levantando uma legenda enorme onde está escrito: 1-eu não trabalho para o mercado; 2-eu não sei onde fica a sessão de laticínios; 3-eu não sou a moça do cartaz. Sim, por que, além de tudo, só uma mente insana poderia enxergar alguma semelhança entre mim e a garota propaganda do supermercado. E o problema é justamente este: o mundo está repleto de mentes insanas.

Em alguns minutos, sou resgatada do stand e enviada de volta aos corredores. Sã e salva, fico posando de outdoor ambulante a tarde inteira e, no fim do dia, depois de percorrer a São Silvestre em círculos, calculo que, daqui para setembro, já terei dado a volta ao mundo.

E é aí que a pessoa compreende por que o ordenado para este trabalho acéfalo é uma pequena fortuna: por que ele é muito chato!!! E uma criatura que topa um sacrifício desses (sorrindo!) merece mesmo grandes recompensas. Em dinheiro. Euros portugueses, por favor.

O fato é que o salário de agosto poderia financiar o pagamento de contas, a aquisição de bens supérfulos e a visita da cucaracha ao seu habitat natural. E passar o Natal em casa seria ótimo. Tudo se eu sobreviver a um mês de rímel, blush e simpatia andando em volta de um mesmo ponto feito irrigação de jardim. E conseguir voltar ao normal depois disso.

Há gente que sofre quando o time não ganha. Há gente que sofre quando perde o emprego. Mas só os meus amigos são capazes de sofrer por coisas absolutamente intangíveis. Por fatos que não são um problema, que talvez nunca cheguem a ser um problema, mas que tiram o sono dos coitados. Como o caso de uma amiga minha que lamentava profundamente não ter feito balé na infância. Para virar bailarina, ela teria que ter começado cedo, feito muitos anos de treino, mas a questão nem era esta, até por que ela odiava balé. O problema era a impossibilidade. Era tocar uma música clássica em qualquer lugar e lá estava ela chorando pitangas por não ter tido a oportunidade de seguir a tal carreira que ela não pretendia mesmo seguir. Um tragédia. Compreende? Eu compreendo.

E não só compreendo como formulei uma teoria sobre o assunto. Observando comportamentos diversos, concluí que a humanidade divide-se entre pessoas planas e pessoas esféricas. Planas são criaturas que possuem uma forma de pensar lógica, como uma superfície linear: você olha e compreeende a extensão dela. Gente que não sofre por problemas imaginários, vive uma vida concreta e é feliz. Gente normal.

Mas, se um círculo tem uma dimensão, uma bola tem três. Pessoas e objetos esféricos também: pra você os compreender, tem que olhar de mais de um ângulo, pois elas não se mostram completas na superfície. Para conhecer a bola por dentro, tem que abrir ela no meio. E as pessoas? Bem, não dá pra abrir as pessoas ao meio. E o jeito vai ser ficar a vida inteira sondando o que elas levam por dentro.

Por exemplo, digamos que o seu carro quebrou. Se você liga pedindo ajuda para o seu amigo plano, ele vai chegar trazendo o reboque e te aconselhando a trocar a lata-velha por um automóvel de verdade. Já o seu amigo esférico vai chegar sozinho, sentar no meio-fio ao seu lado, perguntar como você está se sentindo, oferecer o ombro e a solidariedade, questionar por que os carros quebram, por que os motores enguiçam e por que tudo atrapalha a rotina de quem já teve um dia inteiro de trabalho, procurar uma explicação pra tanto infortúnio no seu mapa astral, nos búzios, na Bíblia, tanto azar não é justo, não é certo, é um absurdo, vamos fazer uma passeata.

Um quer resolver, o outro quer participar. E os meus amigos adoram participar. Chorar junto por tudo que a gente desejou e não aconteceu e, principalmente, por tudo que a gente não desejou por que não sabia que existia. Digno. Até por que, graças ao cinema e aos romances, todos nós, os mortais, somos obrigados a reconhecer o quanto a nossa medíocre existência é desinteressante. Nos anos 80, o Marty fazia viagens através do tempo e modificava o curso da história em De Volta Para o Futuro enquanto eu ia para escola. Nos anos 90, outra afortunada conversava com Sócrates e visitava a Antiguidade em O Mundo de Sophia enquanto eu ainda ia para escola. Depois do ano 2000, além da surpresa decepcionante do mundo não ter se acabado, Peter Parker pulava dos edifícios heroicamente em O Homem-Aranha enquanto eu… fazia oque? Eu nem tinha mais escola pra frequentar! E ainda me perguntam por que a gente sofre. Motivos não faltam, meu caro, você nem pode imaginar.

Mas viver num mundo sem nenhum tipo de abstração nem é o pior. O pior é sofrer e não ter ninguém pra te dar um tapinha nas costas. Sempre saio e converso com pessoas simpáticas, modernas, bem-resolvidas e que possuem a profundidade psicológica de um personagem de Maurício de Souza. Sinto falta deles, dos meus amigos esféricos e complicados. Dos seus impasses machadianos. De como conseguiam enxergar em cada escolha banal um número incontável de variáveis possíveis, de como tornavam a vida sobre a Terra muito mais interessante. Não vejo a hora de reencontrá-los. Vai ser uma festa. Ou um drama.

E, a cada julho,
não sei se suportarei o próximo agosto.
(Caio F.)

Tem gente que acha que decadência acontece quando a pessoa perde a grana, quando perde o poder ou deixa de ser famosa. Bobagem. Acho que ela só acontece quando o cidadão, por qualquer motivo, tem que abandonar o senso do ridículo. Por exemplo: digamos que uma criatura passe a vida inteira trabalhando de maneira séria, para empresas sérias, que lapide um currículo de três páginas e, na sua atual entrevista de emprego, ela precise dar uma voltinha. Isso mesmo: que a empresa empregadora peça para a pessoa dar uma voltinha na sala para avaliação visual. Pronto, isso é decadência.

Meu amigo, minha amiga: se você chegou a este estágio da sua existência profissional, alerta máximo – depois disso, você nunca sabe o que mais eles podem pedir. Dar três pulinhos? Imitar um bicho? Não arrisque. Na dúvida, apresse a sua aposentadoria.

Ontem saí da entrevista lembrando de uma conversa antiga com uma colega jornalista que, certa vez, caiu do Caderno de Cultura para o Populares. O mundo se acabando, o mar pegando fogo e ela dizendo – não faz mal, amiga, eu vou me adaptar. Isso não é decadência, é versatilidade.

Concordo. E acrescento: versatilidade é passar o julho inteiro desfilando no mais alto dos saltos pela Europa Oriental e terminar o mês dando uma voltinha na entrevista de emprego. Claro. Isso é versatilidade. Isso é flexibilidade, é capacidade de reformular perspectivas e adaptar-se a novos ambientes. Gosto disso. E o meu nome é Poliana.

Acho que a única coisa que me falta acontecer agora é eu passar na tal seleção. Sim, eu sou o único ser humano do universo que faz entrevista de emprego e, muitas vezes, torce para o telefone não tocar. Sabe quando você precisa perguntar algo desagradável a alguém, faz a pergunta por obrigação e tem vontade de sair correndo na hora da resposta? Pois é. Eu deveria ter corrido ao invés de dar a voltinha.

CV

Sol no céu, dia lindo e eu aqui imprimindo currículo de novo. Chato. Coloca papel, digita enter, retira a página, grampeia, coloca papel, digita enter, Tempos Modernos for ever. As dificuldades para me fixar num emprego variam: a) por que eu não me agrado da atividade ou b) por que eu não me agrado do salário ou c) por que eu não me agrado do chefe ou d) todas as alternativas anteriores. Bem, ninguém disse que seria fácil.

Daí, volta e meia recomeça a panfletagem de currículos e o agendamento de entrevistas que, depois de um tempo, parecem todas iguais. Você chega lá com cara de conteúdo, uma figura te recebe e oferece um café, depois o/a dono/a da bola aparece para fazer as perguntas: experiências anteriores, documentação, formação acadêmica… sono. No dia seguinte, o telefone toca – ou não. Daí vem a proposta financeira e é a sua vez de dizer que sim ou de dizer que, infelizmente, não será possível aceitar a remuneração oferecida por que você recebeu uma proposta irrecusável da empresa concorrente. Mesmo que isso não seja verdade.

Depois é voltar para a impressora e gastar mais uma resma de papel. Por que quem trabalha de graça é relógio e quem trabalha quase de graça é besta. Aliás, toda vez que recebo uma destas propostas de trabalho indecorosas, penso na importância da criação de um mecanismo que nos permitisse eletrocutar a pessoa do outro lado da linha. Nada violento, apenas uma descarga educativa que ensinasse o indivíduo a pensar com mais cautela antes de requisitar um profissional por salários irônicos. Mas a tecnologia nunca está onde se precisa dela.

Na falta deste importante equipamento pedagógico, basto-me em dizer não. Não, obrigada. Princesa Isabel mandou lembranças.

Agora senta e escuta porque que hoje eu resolvi despejar minha rabugice na internet e vou contar mais uma: a dos classificados de emprego. Anúncio número um: precisa-se profissional de nacionalidade européia capacitado para trabalhar sob pressão, executar multiatividades e atender a prazos mínimos. Ou seja, o indivíduo passa por assepsia étnica, assédio moral e acúmulo de funções antes mesmo de se candidatar! Isso é que é agilidade coorporativa. O anúncio seguinte parece menos taylorista: precisa-se de jovens de 20 a 30 anos para loja de perfumaria, favor enviar currículo com foto de rosto, perfil e corpo inteiro. Esse até é razoável. Para uma casa de meretrício, claro. E nem pediram pra mostrar os dentes.

O último se superava: precisa-se de rapaz entre os 25 e 35 anos, com boa aparência, não-fumante, simpático, trabalhador, educado, com conhecimentos sobre comércio e atualidades para trabalhar em empresa de equipamentos hospitalares. Ah, bom. Eu já estava achando que era pra relacionamento-sério-com-moça-de-família.

Os anúncios portugueses são uma piada. A gente ganha pouco, ou nem ganha nada, mas se diverte.

Veja bem, meu bem

Um chefe meu dizia que jamais deveríamos começar uma conversa dando explicações. Não importa o quanto estivéssemos errados, atrasados, enrolados, o melhor era sorrir com dignidade e puxar qualquer outro assunto banal antes de falar sobre o que interessa. Aprendi rápido – até por que, no meu caso, estar errada-atrasada-e/ou-enrolada faz parte do perfil – e cá estou eu agora falando sobre meu ex-chefe ao invés de dizer logo a razão do meu sumiço…

Veja bem, meu bem: meus sumiços da rede nunca acontecem por razões usuais. Este ano, por exemplo, passei o mês de maio inteiro desaparecida por falta de… (internet? energia? computador?)… por falta de mesa. Quando se mora num lugar sem móveis, acessar a internet significa sentar no chão para teclar num notebook também no chão. Pois é, as costas doem. E isso de ter a coluna vertebral num ângulo de 45 graus só é prática popular lá pelas bandas de Notridame.

Daí eu sumi. E achei que este problema seria o bastante. Mas agora há outro: falta de espaço… (na agenda? na memória? no HD?)… falta de espaço no chão. A casa está lotada. Atualmente somos 9 e, quando Gal chegar, seremos 10. Numa casa de 50 metros quadrados, cada um tem direito a 5 metros quadrados, ainda que isso inclua a cozinha e o banheiro. Ou seja: não estique o braço para não acertar ninguém.

Cada um trouxe consigo três malas, um colchonete e, ocasionalmente, violões, pranchas de surf, gaiolas, cavaletes de pintura e outras cozitas que não calculo por que tenho dificuldade de trabalhar com valores altos. Nenhum problema quanto ao fato do apartamento ser pequeno, haver objetos demais e as pessoas ficarem grudadas umas nas outras. O problema é as pessoas ficarem grudadas em mim! Atualmente, a compra de pasta de dente da casa se dá aos litros e a produção de lixo equivale à da Mc Donalds. Socorro!

Entre residentes e visitantes, quatro chegaram da Irlanda, uma da França, dois do Brasil e o resto já estava morando por cá (Portugal), mesmo nenhum sendo português. E você entende que está vivendo numa comunidade cosmopolita quando cada shampoo do seu banheiro tem o rótulo num idioma diferente. Enquanto representante da ONU num perímetro repleto de conflitos culturais, tento promover a paz mundial: cardápio para o almoço de domingo? Não há consenso. Disco pra tocar no som da sala? Não há consenso. Filme para assistir no fim da noite? Há consenso. Mas cada um quer a legenda no seu idioma. Nova votação…

Sim, claro, por que, como em toda democracia, as decisões são votadas. Mas visitantes não votam, só residentes. Não gostou? Arrume as malas. A lavagem de pratos, chão e roupas é rotativa e todos devem participar. Não gostou? Já sabe. Ninguém, em hipótese alguma, deve mexer na comida do outro. Não gostou? Vá buscar a sua mala lá no térreo. Pulou sozinha, coitada.

Enfim, a razão do meu sumiço é essa: quem vive por aqui não tem muita chance de teclar – tranquilidade ligou e mandou um abraço. Principalmente numa república onde é necessário convocar um plebicito internacional para decidir qualquer bobagem,  os tratados de paz não duram 24 horas e vigoram interpretações pouco ortodoxas sobre as leias da física – podendo dois (dez) corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço.

Pois é, a vida na Faixa de Gaza não é facil. Não gostou? Hã? Ah, bom.

How can I go on?

A mala de volta é sempre assim, cheia, por que a gente sempre volta com mais bagagem do que trouxe. Dessa vez, tô levando uma coisa pra você. Um conselho. Senta aí e escuta, por que este é de graça e porque conselhos, às vezes, podem beliscar a gente como certos toureiros beliscam o touro. E o touro reage.

Nada contra o cafezinho, nada contra o escritório, nada contra mergulhar neste concreto de secagem lenta. O problema é Barcelona. Você acorda de manhã, vai dormir de noite e, entre uma coisa e outra, do outro lado do planeta acontece Barcelona. Todos os dias. Mesmo que as pessoas não entendam o que é viver, o que é ir levando e nem por que deveriam marcar um xzinho na primeira opção. O problema é estar ocupado demais pra notar que o mundo tem porta de emergência – se tudo mais der errado, ainda há Barcelona.

Eu só aprendi depois cheguei. Nos labirintos de pedra do Gótico, nas casas de açúcar do Guel, bolo confeitado de cimento e cal. No povo descendo outro miradouro, outra noite quente, outra multidão, fontes luminosas, marcha caribenha, tinta e purpurina, fumaça e neon, me perco e me encontro pela Catalunya, centro da acrópole inpiradora, quadros de Dalí, torres de Gaudí, formas de Miró, cores de Almodóvar. Depois, toda noite, trazendo a mochila, dormindo pesado no chão do aeroporto, chorando no pé da Sagrada Família e rindo de novo da Novia del Mar. Desfilo nas Hamblas de chale e chapéu, saio com os amigos para conversar – em inglês com os espanhóis e em espanhol com os portugueses e em português com os indianos só pra complicar a Babel barulhenta, trinta e dois graus, hoje é quarta ou quinta? Eu também não sei, mas faz um sol de domingo, então tanto faz.

Eu subo a Ronda com as mãos no bolso, vejo tanta gente pelos calçadões, grupos marroquinos, ciclistas pelados, estátuas humanas, surfistas de trem, tudo acontecendo entre os prédios azuis, amarelos, vermelhos, estranhos, perfeitos, glace derretendo em doce de gesso, castelo de areia em tamanho real, a forma disforme dos arranha-céus na arquitetura dos loucos de pedra, eu olho pra cima de outro edifícil, vela derretida sobre o castiçal. À noite, o veludo dos anfiteatros, flamenco e ópera nos festivais, a dança inflamável dos casais ciganos, duelo de cores, briga de pavão. Alta madrugada na beira da praia, os pés ancorados na ponta do cais – o Mediterrâneo é um mar fechado, feito pra quem não quer mesmo embarcar.

Sair de Barcelona é sempre sair no melhor da festa: a gente nunca está pronto, a mala nunca fecha e a gente acaba indo embora tendo que deixar uma parte nossa. E já que eu não planto árvores, não uso embalagens bio-degradáveis e preciso fazer algo pela humanidade, vou te deixar um conselho: não esqueça de Barcelona. Se você vier pra cá, lembre que o tempo passa voando e a viagem é sempre curta. Curta. E se você nunca na vida vier pra cá? Também.