Feeds:
Posts
Comentários

Toda sala de aula tem um Golias. Um colega mais alto e mais forte, capaz de ameaçar e submeter os outros. Quando criança, conheci um que obrigava os colegas a fazerem as suas provas e, depois, curiosamente, sempre dava um jeito de exibir as boas notas aos professores. Em qualquer oportunidade, lá estava ele, boletim na mão, sorriso na cara, a imagem do êxito. Nunca soube se os professores descobriram a farsa – e, talvez, nem precise saber. Mas tenho certeza de que nenhum de nós, os colegas, esqueceria daquela cena.

Lembrei deste episódio esta semana, lendo um jornal onde Portugal estava divulgando uma votação para eleger as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo”, selecionando monumentos na América, Ásia e África. Uma estratégia para elevar a auto-estima lusitana e levá-los aos holofotes do primeiro mundo. Todos os concorrentes já eram considerados patrimônios da humanidade pela UNESCO e foram construídos durante o período colonial. Selecionados pelo voto popular através da internet e telefone,  os vencedores estão localizados nos seguintes países: China, Cabo Verde, Marrocos, Índia (com duas obras) e Brasil (também com duas obras). Uma delas na Bahia.

Trata-se do conjunto de edifícios do Convento de São Francisco de Assis, no Pelourinho. Uma construção de 1587 que os baianos conhecem pela beleza e opulência. Comemorando o resultado, Jeanine Pires, presidente da Embratur, declara que: “Este é um grande ganho para o nosso turismo”. Agências de viagem comemoram. Empresas de aviação comemoram. Baianos, desinformados, comemoram. Por que, na Bahia, a gente comemora até o que não entende direito.

Por sorte, há vida inteligente sobre a Terra. Historiadores de todo o mundo estão assinando uma carta aberta contra o fato do concurso português não citar uma única linha sobre a origem escravagista de algumas obras. A descrição dos monumentos é unicamente arquitetônica, inclusive a dos prédios que foram construídos para armazenar e comercializar escravos. “Será possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias?”, questiona o documento.

Imagino que os monumentos são erguidos para relembrar a história e não para ocultá-la. E, talvez por isso mesmo, seja constrangedor que o representante do concurso garanta que “esta visita ao patrimônio de origem portuguesa é feita com um sentimento de orgulho e de satisfação pelo legado histórico do nosso passado”. Que legado? A construção de suntuosos armazéns de escravos? De que maneira eles seriam motivo de ‘orgulho e satisfação’ para um país? Não sei. E também não sei por que Auschwitz não entra na lista das sete maravilhas alemãs pelo mundo.

Portugal foi responsável pela maior deportação da humanidade. Só da África Ocidental foram retiradas de 15 a 18 milhões de pessoas. Se levarmos em conta que, para cada escravo que chegou à America, cinco foram mortos, estamos falando de uma multidão de 90 milhões, número que ultrapassa em dez vezes a atual população lusitana. Uma transposição  que, na voz do promotor português Luís Segadães, ganha tons de heroísmo: “Sem dúvidas, a globalização começou em Portugal”. Realmente. Realmente foram eles que nos ofereceram este intercâmbio pioneiro entre escravizados e colonizados, uma herança absurda e criminosa que nós, inexplicavelmente, não reconhecemos. Ingratos.

Diante de tanta polêmica, de tanto dinheiro gasto em publicidade, de tanto desgaste diplomático ocasionado por este concurso besta, o que fazer? Até que a ciência prove o contrário, culpa não é herança genética, ou seja, os portugueses de hoje não teriam que se desculpar por crimes que não cometeram. Não podem mudar a história: nem para se retratarem, nem para distorcê-la em concursos patriotas. A verdade é que, se o mundo resolvesse penalizar estes monumentos, teria que penalizar a todos os outros: as pirâmides, o Coliseu, os Jardins da Babilônia e tudo que a humanidade já ergueu sob regimes de escravidão. Falar dos crimes do passado seria falar de todos os crimes. E quem ficaria de fora deste tribunal?

A questão é outra. Aliás, são outras. Estamos diante de nosso ex-colonizador que, trezentos anos depois, reaparece para mostrar ao mundo o legado que nos proporcionou: um convento erguido sobre solo baiano, por escravos baianos, forrado com ouro baiano, que o povo baiano tem restaurado e preservado desde então. Tudo isso sendo exibido como maravilha portuguesa? Ironia. Me desculpe, Golias, mas este mérito não é seu.

O Convento de São Francisco de Assis é nosso. Na sua arte e na sua história, em cada pedra selada com o sangue da gente. Se os lusitanos só lembram da arquitetura dele, é por que a vida é assim mesmo, quem bate sempre esquece que bateu. Acontece que o convento fica bem no Pelourinho, no centro da vida negreira, no palco do genocídio. Não dá pra esquecer. Portugal pode até reduzir a sua história a uma lista de monumentos alegóricos, mas não pode reduzir a nossa. Nossos bisavós não nos perdoariam. A gente lembra, cara pálida.

Baltazar

Inspirado em A Cabeça de Calcário, de Fernando Monteiro.

Era 2009. Fim de tarde, um dia banal, quarta, quinta-feira. Já havia uma cidade definhando – uma Lisboa de casarões abandonados e estatuas cobertas de limo, num luxo saudosista onde as casas envelheciam numa decadência adiada de quem ainda preferia pisar os trapos de veludo do tapete do que experimentar a realidade de um chão completamente nú. As guerras coloniais estavam perdidas, os navios já haviam voltado com seus combatentes mutilados e alguns ainda esperavam pela volta do salazarismo. Tudo era ausência à beira do Tejo. E foi num destes dias que eu conheci um homem chamado Baltazar.

Era um desses senhores portugueses de formação clássica, extremamente educados, que me pediu informações sobre as prateleiras do segundo andar da Biblioteca Municipal. Depois de duas ou três perguntas objetivas, abriu um dos livros que trazia, lendo com muita calma: “Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje, nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta” e sorriu, fechando a página. Eu sorri de volta. Ele se apresentou, muito sério, e disse: “Eu lamento pelas coisas que não existem mais”.

Estava procurando por publicações antigas. Buscava uma informação sobre os folhetins da década de 50 e explicou: preciso de um daqueles jornais velhos que vocês arquivam, daqueles que não usaram pra enrolar peixe um dia depois de publicados. Fisicamente, lembrava o velho Afonso – talvez por que todos os homens e mulheres cultos da península ibérica se pareçam um pouco com os descendentes perdidos da família Maia – e tinha a expressão grave de uma geração que viveu esta mudança de século acompanhando a chegada da modernidade com alguma distância e terror. Na ocasião, contou-me uma história – que talvez não tenha acontecido exatamente da maneira como iria narrar, alertou ele, garantindo que já se sentia traído pelo terreno movediço da memória, capaz de embelezar ou empalidecer os fatos ao sabor do tempo e da quilometragem – mas que, se não estava enganado, aconteceu no outono do ano de 1755.

Numa espécie de Atlas ilustrado, mostrou-me a reprodução do Grande Sismo, feita em óleo. Um mar pintado de azul escuro recuando numa onda gigante. O quadro lembrava-lhe o destino de todo lusitano, nascido com uma espada sobre a cabeça: o antigo terremoto, que foi sucedido pelo maremoto, que foi sucedido pelo incêndio – num elencar impressionante de desgraças ocorridas numa mesma manhã de novembro que alertava a todas as gerações portuguesas que, diante da força do inexorável, pesar nenhum era demais.

Disse que, depois da tragédia, a geologia da época – ciência nova, filha do pânico – garantiu que o terremoto se repetiria. Previsão que a ciência moderna confirma até hoje – e eles esperam há mais de 200 anos. Um dado histórico que influenciou profundamente a formação da cultura lusitana: dura, resignada, carregando o peso secular que alguns chamam de sina. Eles chamam de fado.

“Não existe mais nada, quase tudo desapareceu”, disse ele, fechando o livro de história do império. Falava sobre os anos de reinado, do qual nem foi contemporâneo. Um passado a que também os jovens lusitanos, hoje, preservam e enaltecem de maneira obsessiva, como alguém que herdasse, nos dias atuais, uma fortuna em moedas de Escudo – um tesouro do passado que, graças a um tropeço do tempo, já não vale mais nada. A nova geração, possuidora de muitos títulos e nenhum vintém, foi feita de um material inquebrantável – gente austera, indignada, que parece ter vivido toda uma era de vitórias e opulência que terminou para todo o sempre uns cinco minutos antes de você adentrar as fronteiras do país. Já nascem com esta melancolia vaga nos olhos – Fernões e Cabrais de farol, aguardando, aguardando – “Tudo era ausência à beira do Tejo”, ele disse, “ainda hoje é assim”.

Mas não era dos jovens que Baltazar falava. Não. Era daquela tristeza toda. Talvez fosse um mal do continente, plantado no trigo, bebido na água. Uma nostalgia crônica que aprisiona pessoas e nações aos seus dias de glória, marcados por um orgulho tardio, meio caduco. Como a nova Roma, que não enterra seus Cézares. Ou a Grécia, ensimesmada nas ruínas de sua antiguidade helênica, ou a França, estagnada até hoje no intervalo dourado da Art Nouveau – o fato é que quase todo homem europeu tem sua alma cativa a algum período áureo do seu passado, avessos às novas modas, músicas, invenções. Baltazar estava cativo daquele livro.

Na biblioteca, sentado com o Atlas nas mãos, sentia uma inquietação silenciosa, a claridade da janela rondando o gramofone, a mesa de madeira escura, os pratos pintados na parede e, agora, empurrando-o para a porta da rua, onde a luz era demais para os olhos e não se podia ver mais nada. Quase todos os objetos do segundo andar redesenhavam as sombras de um planeta extinto, quando a Índia e o Paquistão ainda não tinham feito a guerra, não havia Revolução Islâmica, os russos não haviam invadido o Afeganistão e, sobre o Oriente, pairava a mesma aura soturna de hoje, só que em preto e branco. O mundo pouco mudou, pensou. Assim, olhando bem, quase nada mudou – ele diria, convencido, pragmático, se não trouxesse aquele relógio fatal consigo, ali dentro, batendo, batendo.

Abandonou o Atlas e abriu outro livro, um de história. Numa das páginas, a imagem de um homem de pé, fardado. Era D. Sebastião, tinha certeza. Não era a pintura de um outro soldado que, regresso da guerra de Marrocos, fosse recebido e condecorado em seus trajes de combate. Nem era de um artista de circo que, de passagem pelas estradas empoeiradas do Minho, interpretasse um capitão heróico nos folhetins encenados do teatro de rua itinerante. Não era. Os ombros muito largos, dividindo o Oriente do Ocidente, eram de D. Sebastião, o herdeiro assassinado, início da dinastia dourada de um futuro que nunca veio. Do que poderia ter sido. Era jovem. E, mesmo Baltazar, em suas próprias fotografias, não era o velho de agora. Nos seus álbuns, eram evidentes os arranhões feitos pelo passar galopante dos anos – os amigos mortos, as cidades deixadas para trás e as oportunidades intactas desperdiçadas quando todos a sua volta tinham força, vigor e tempo – e não sabiam o que fazer com nada disso.

Quem era o jovem na gravura do livro? Talvez fosse de D. Afonso VI de Leão e Castela, varrendo a sombra espanhola do Condado Portucalense ou de algum rei católico ou algum guerreiro mouro filho de Alá. E, mesmo as páginas que ele folheava, de que parte do reino viriam? De que cedro, eucalipto, carvalho nascido sobre o chão verde da planície de que cemitério, onde pastavam as ovelhas alvas cobertas de lã, de onde teceriam as bandeiras, as fardas e as capas flexíveis de livros como aquele? A verdade é que o homem ilustre retratado sem identificação lembrava aos mortais leitores que tudo sobre a terra seria engolido pela onda branca e larga do esquecimento – “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” – e pesava sobre Baltazar a promessa do anonimato sem memória, foto perdida no baú mais antigo da última casa fechada numa vila abandonada. Para ele, tudo era abandono. Não importa o que fizesse, que méritos ou crimes acumulasse em seus dias de existência, não poderia salvar a sua própria imagem de ser encontrada, um dia, num desses livros de história sem legenda, ou no lixo, ou num dos tabuleiros da feira da Ladra, exposta aos colecionadores, ao lado de antiguidades, velharias inúteis e outras fotografias de gente morta.

Baltazar era um homem inviável. Exasperado por quê, para a vida, não havia um fim, a justiça de um fim sobre a coroa do reconhecimento dos outros, mas apenas um desaparecer vulgar que não distingue o sepulcro digno da vala comum da existência ordinária – e seus anos não passariam de um intervalo ligeiro na história de uma cidade dentro de um país dentro de um planeta girando no espaço prestes a ser engolido pelo vácuo do nada. Morrer era desaparecer. Ele não estava preparado. Ocidental, racional, apalpava no escuro os caminhos para a transcendência, essa busca secular e tão humana de tentar ultrapassar os limites da mortalidade, não importa que nome lhe damos – Deus, Brahma, Nirvana – esta experiência que arrebata tanto os sentidos, como quando estamos diante de uma música extraordinária, de uma paisagem fabulosa ou da visão do sagrado. E caminhar para a biblioteca, guardar fotografias, falar sobre o império, tudo era uma busca ancestral pela perenidade roubada, o mito universal do paraíso perdido – ventre materno abandonado, terra prometida, alma gêmea, Éden, Meca – desde o princípio a humanidade tenta voltar. Mas, para aonde?

Do lado de fora da janela, a luz da tarde amarela fazia chegar-lhe à mente os dias em que ele era muito jovem e não existiam as marcas, essas marcas deixadas pelos que desistiram, fugiram, enlouqueceram, morreram – enquanto dentro da alma dele alguma coisa também ia desistindo, fugindo, enlouquecendo e morrendo. O futuro ainda tinha alguma importância. Ler os grandes autores era conversar com homens mortos, os vivos não lhe interessavam. As prateleiras, o silêncio das poltronas, a paz daquela sala sem pessoas enquanto a vida explodia em fomes, crimes e dores do outro lado do muro – viver não é preciso. Fechem um pouco mais as cortinas.

E ele baixou os olhos, voltou a ler. Eu continuei sentada na janela. Lá fora, a chuva começava a cair fina, cortante, alfinetando o asfalto. O centro da cidade, os carros, cimento, descargas, monóxido de carbono, o velho Palacete do Campo Pequeno, o telhado vermelho no meio do cinza. Ilhado. E foi, então, que eu entendi. Do segundo andar da biblioteca, olhando para o Palacete, para o Baltazar e até para mim mesma, ali, parada na janela: tudo aquilo era Portugal. Portugal de 2009: assustado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão e saudade. Guardando na estante mais alta a fragilidade da própria história, resistindo ao palpitar dos relógios que corrói os calcanhares dos monumentos e arrasta tudo de volta ao pó. E eu senti um amor imenso por tudo aquilo. Como num ritual de fé, fui fechando as cortinas, acendendo as luzes e entregando a ele os últimos livros.  Tudo vale a pena, se a alma… quanta bobagem. Não havia saída para Baltazar. O peso dos anos, aquela saudade, tudo nele queria voltar. E, ainda que não fosse ele, mas um outro, sem ancoras tão submersas naquele chão, ainda que conhecesse outros povos, nações maiores, mais ricas e cheias de vida e o mundo inteiro se abrisse numa explosão interminável de novidades, não importa onde estivesse, mesmo que o passar do tempo ganhasse sentidos diferentes e as lembranças do Tejo e do Campo Pequeno se tornassem cada vez mais vagas, haveria ainda nele – no ato banal de fechar cortinas, no gesto involuntário de suspirar fundo sem motivo ou de olhar para o mar como quem divaga – sempre nítida, como uma marca, como uma cicatriz na cara, a sentença irrevogável, o fado de todo lusitano – de estar sempre voltando pra casa.

SDC12070

 Sujeito à multa.

Nostalgia

 

Carne vermelha, Nescau, feijão, frango assado, farofa, aipim, mamão, abóbora, quiabo, beterraba, banana da terra, açaí, cupuaçu, pinha, Leite Moça, moqueca, bolinho de estudante, mousse de maracujá, dendê, requeijão, tapioca, Sonho de Valsa, manga, abará, paçoca, cuscuz, leite de côco, bolo de milho, biscoito Bono.
 
Ai, que saudades eu tenho da Bahia.

 

Semana passada fui fazer uma matéria na Praça de Santa Clara. Cheguei cedinho, sentei e esperei o movimento. Primeiro achei que a praça ia receber um circo: lonas e arquibancadas sendo montadas por uma multidão. Depois pressenti que estava diante do recomeço triunfal da Torre de Babel – cada grupo falando uma língua numa confusão só e a obra crescendo para cima. Por fim, me convenci de que aquilo era mesmo a Feira da Ladra: uma mistura de brechó e mercado que acontece semanalmente em Lisboa desde 1272. Velharias e artesanatos espalhados por quase 100 barracas aonde se encontra de tudo: castiçais dos tempos do império, um gramofone de manivela, o primeiro vinil de Roberto Carlos, postais de 1930, fitas cassetes de bolero, vestidos de noiva à moda renascentista e outras relíquias. Ou seja, todos os seus sonhos de consumo das três últimas encarnações num só lugar. Por preços irrisórios! Antes tarde do que nunca.

Na hora de escolher o meu primeiro entrevistado, o critério foi simples: alguém que falasse português. Quando me aproximei, o vendedor de ferragens explicou: “A feira tem esse nome por que se iniciou na região da Labra. E o trocadilho ficou. Não é por essa razão que todos imaginam”. Mas a dona da barraca ao lado entregou: “Não invente histórias, rapaz! A feira se chama assim por que era aqui que os ladrões vendiam seus roubos. Ora pois, gajo! O primeiro ladrão da feira foi você!”, todos riram. Menos eu. Como assim ladrões? Que medo.

Pois a feira havia sido reduto de piratas. Para falar mais sobre o assunto, levaram-me ao Manoel Monteiro, dono de um tabuleiro de livros, que possuía um exemplar da publicação: A História da Feira da Ladra. Não estava à venda. Argumentei, conversei, tentei negociar e, quando me dei conta, já estava sentada na calçada ouvindo uma história que, certamente, era melhor que a do livro.

Manoel Monteiro, 60 anos, vendendor de livros, português de Trás os Montes, um senhor que, quando fala, parece reunir em torno de si as atenções públicas – um jeito de quem está acostumado a microfones, câmeras e platéias. Mesmo enquanto vende os títulos, o faz com a propriedade de quem conhece cada página. Um fenômeno explicável: Manoel já foi líder revolucionário, deputado na Assembéia da República, autarca na Câmara, foi enviado à Angola durante a Gerra Colonial, viajou para a Albânia durante congressos marxistas, tornou-se referência na luta contra o fascismo e tem dois livros publicados. Desde que sua cooperativa pediu falência, ele passou a vender os exemplares de sua biblioteca pessoal na feira. Duas vezes por semana, lá está ele, acessível e bem-humorado. Sorte minha.

Como a pauta do dia era sobre a feira em si, tive que me dispersar e fazer outras entrevistas. Mas, na semana seguinte, com uma pauta de perfil na mão, não tive dúvidas: voltei ao tabuleiro de livros, onde sr. Manoel me recebeu com um cumprimento manso: “sabia que você voltaria”. Sentada na mesma calçada, copiei dezenas de páginas enquanto ele ia contando detalhes sobre as ditaduras ibéricas, os anos na África, as imigrações, os fuzilamentos, um passado sombrio que os portugueses  ainda narram com os verbos no tempo presente.

Quando nos despedimos, deixei meus contatos, um abraço agradecido e fui pensando em como trazer as lições deste passado próximo para mais perto. E também com uma sensação de ter chegado no fim da festa: às vezes penso que todas as mobilizações sociais relevantes da história se encerraram na década de 70. E que só sobrou um salão vazio para a gente varrer. Chego em casa e encontro na caixa de e-mails uma mensagem do sr. Manoel passando o link do blog dele. Uau! Uma página política atualizadíssima. Lendo um pouco e pensando melhor: ainda há muita cereja sobre o bolo.

Para quem gosta do tema, vai a bibliografia. E, para quem também acha que ainda estão rolando os dados, vai uma dica do autor: “somos tantos, porque não tomamos em nossas mãos o destino?”.
Livros Publicados:
Perder a Esperança Porquê? – Editora Centelha – Coimbra – 1982
Todas as Margens – Editora Hugin – 2003

Livros que aguardam publicação:
Os Deuses da Revolução são um tanto Obscuros – em apreciação no Círculo dos Leitores
Sei onde mora o Herberto Helder – em processo de finalização

Blog:
http://m-monteiro.blogspot.com/

Uma moradora de rua, empurrando um carrinho de sucatas:
– Que estás a fazer aqui tão cedo?
– Esperando o ônibus.
– A passar, a passar. E acaso vais pegar o auto-carro para quê?
– Estou indo estudar.
– E estudas oquê?
– Jornalismo.
– Deixa-me ver se tenho algo para ti – falou remexendo o carrinho até achar dois jornais usados – Toma, para estudares. Para ficares esperta, gaja, e ao menos saberes que nesta rua não passa auto-carro!
– Ah… obrigada…

 

19.05.09 Feira da Ladra 2 007

19.05.09 Feira da Ladra 2 008

Mas eles estão lá … e eu estou aqui!
(Bukowski)

Quando a gente está se preparando para uma viagem, pensa em tudo: nos lugares que vai visitar, nas pessoas que vai conhecer, no mundo novo que vai se descortinar para nós. E só. Você nem imagina que, enquanto você vai, uma cidade que ficou para trás não pára pra te esperar. Tudo continua. Sem você.

E o Orkut é o inferno de toda pessoa que não estava lá. Seja por que viajou, se mudou, adoeceu ou por que não quis ir mesmo, não importa, o fato é que você não estava lá. Entro na internet e vejo as fotos do encontro onde todos os meus amigos se divertiram – sem mim. O aniversário do meu primo, a família toda reunida – sem mim. Meus colegas de sala num passeio de barco pelo Forte – sem mim. Casamentos, formaturas, encontros onde todo mundo se viu dançou, brindou – sem mim. E nem adianta me olhar com essa cara por que eu sei que você também foi aquela festinha ótima onde todos estavam – menos eu.

Pois é, nada como um orkut na vida de um viajante para dar a ele uma dimensão exata de quão dispensável é a sua existência sobre a Terra.

Nada contra o programa em si, ou quase nada. Enquanto estrutura, considero o Orkut uma espécie de vitrine da alma, um currículo inteligente dividido em 4 campos: o que você diz sobre você, o que seus amigos dizem sobre você, sobre o que você se interessa e quem te interessa. Em alguns casos, há também vídeos caseiros, fotos em trajes de banho, diploma scaneado, exames de raio-x, tudo o que uma pessoa quiser mostrar sobre si mesma. Pensando sobre este curioso invento, uma primeira questão é que me ocorre: a profissão de escritor biógrafo está com seus dias contados. Segunda questão: por quê razão infame a gente precisa de um programa assim?

Por que ficou impossível fazer sem ele amigos. Por exemplo: você conheceu um zé mané qualquer, bateu um papo e simpatizou. Pronto, no dia seguinte é só procurar uma criatura no Orkut, adicionar, dar uma lida sobre a vida do indivíduo para ver se aquela primeira impressão estava de acordo com uma realidade, saber aonde mora, o que faz, do que gosta, copiar o endereço de e-mail da criança e escrever marcando para assistir um filme que curte ele, no horário que ele pode, no cimena perto da casa dele. E, se for o caso, aproveitar para convidar os amigos que vocês têm em comum para irem junto. Fácil, né?

Acontece que os europeus não tem Orkut. E, cada vez que conheço alguém por aqui, me vejo na obrigação de fazer perguntas, sondar gostos, descobrir passados, anotar telefones e tomar outras iniciativas intuitivas e ultrapassadas  que dependem inteiramente da minha sensibilidade e percepção para acontecer. Ou seja: um desastre. Estamos no século XXI, o homem já foi à Lua, criou uma tv de plasma e desintegrou o átomo em milhões de infinitas micropartículas, por que raios esse povo não faz Orkut e acaba com essa vida social pré-histórica? A tecnologia nunca está aonde se precisa dela.

Pois é, uma iluminação nunca vem para todos. E se você também não conhece o programa, vai uma dica: o melhor dele não é a descrição dos perfis, são as comunidades. Não há forma conhecer melhor as preferências de alguém. Hoje, se eu fosse criar uma comunidade, ela seria assim:

Nome: Orkuteiros Anti-Sociais
Descrição: Se você entra no Orkut, responde seus scraps, sai do Orkut e volta aos seus afazeres sem nenhuma curiosidade pelas páginas alheias, se você não quer saber da vida dos outros, se você ignora solenemente os álbuns que publicam seus amigos, aqui é o seu lugar!

Esta comunidade, é claro, estaria inaugurando o meu novo comportamento virtual e seria recomendada também a todos os viajantes que tenham o mínimo de amor próprio. Unidos, teríamos um acordo de solidariedade mútua. A comunidade poderia até marcar um encontro entre os viajantes solidários em algum lugar do mundo. Todos juntos! Seria divertido. E tiraríamos ótimas fotos para publicar no Orkut.

SDC11781

Comprei sem ler o rótulo. Lá ele…

 

Domingo de sol, todo mundo na praia e eu aqui cozinhando. Quem diria, hein? Você não achou que viveria o suficiente para presenciar esta cena? Nem eu.

Fato de conhecimento público: como dona de casa eu sempre fui uma ótima amiga. Por aqui, não foi diferente. Abro as janelas, coloco para tocar um rock’in roll ótimo e sirvo biscoitos enquanto alguém lava os pratos. Levanto os sapatos e o controle remoto enquanto alguém varre o chão. Amarro o cabelo com pregador de roupa, a cintura com um avental da Marilyn Monroe, tiro fotos do povo fazendo a faxina em posições desconcertantes e ameaço publicá-las no orkut. Se o dia for chato, programo o relógio do fogão para tocar no meio da noite. Enfim, tomo iniciativas diárias para que não tenhamos uma vivência doméstica entediante. Não sei o que seria desta casa sem mim.

Mas, apesar do meu empenho em promover a boa ambiência do lar, ontem determinaram que eu teria que colaborar (mais?) com as tarefas domésticas. E que ficaria sob minha responsabilidade fazer as compras de mercado. Uma exploração, eu sei. Mas, se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, o que é que eu posso fazer?

Pego a listinha de compras e me dirijo ao Lidl, estabelecimento conhecido por seus preços populares e atendimento duvidoso. Não é exatamente um lugar bonito, não tem exatamente um público bonito, não é exatamente o lugar que eu gosto de frequentar aos sábados, mas é barato. É barato e pronto, lá vou eu para o Lidl.

Para poder usar o carrinho de compras, deposite uma moeda de um euro. Para poder utilizar sacos plásticos para as compras, deposite outra moeda de um euro. Para poder entrar com sua mochila, permita-nos revistar seus pertences. Favor manter as crianças sob controle durante as compras. Não aceitamos cartões, não aceitamos cheques, não fazemos trocas, favor não insistir. É permitida a entrada de cães e gatos no mercado – hum???

Minha listinha era sucinta: sabão, alface, morango e iogurte. Logo que saí de casa, uma observação: a primeira letra dos ítens da minha lista, se colocados em outra ordem – morango, alface, iogurte e sabão – formariam a palavra MAIS. E é claro que isso não representa nenhuma evidência lógica, além do fato de trata-se de uma mente dislexa a ler uma lista de compras. E como toda mente dislexa enxerga mensagens onde não há mensagens, a interpretação foi essa: eu deveria levar mais comida pra casa. Correto? Correto. Na verdade, outro fator também contribuiu para esta conclusão: o Lidl só vende tudo em atacado. Embalagens enomes a preços irrisórios que deixam qualquer novo cliente ficar assim, digamos: atacado.

Ataquei primeiro a prateleira dos morangos. Um caixote de dois quilos que jamais conseguiríamos consumir por inteiro, mas que estava com um preço ótimo. Depois uma caixa de cinco quilos de sabão em pó. Em seguida, um saco enorme com folhas verdes de alface e um tonel de iogurte. Na emoção do momento, somei ao carrinho outras bagatelas igualmente atrativas. Concluí que estava fazendo um excelente negócio, uma redução de custos que certamente faria diferença no orçamento doméstico. O pessoal ficaria orgulhoso. No caixa, comprei sacos plásticos para embalar as compras e ainda sobrou dinheiro – meu nome é economia! Eu sempre soube que tinha jeito para finanças e talvez fosse este o meu talento – como num time onde o cara que joga mal é mandado para o gol e acaba revelando-se um ótimo goleiro. Ponto para mim.

Depois de receber o troco, o último desafio. Ali, aos quarenta e cinco do segundo tempo, eu, a revelação doméstica do momento, tinha um último impasse, uma última questão que, até aquele exato instante, não havia passado pela minha cabeça: como chegar em casa com aqueles 15 quilos de compras para carregar se eu estava a pé?

Na trave. Tive que pegar um taxi e gastei uma fortuna. De noite, durante a prestação de contas, o sermão coletivo discorreu sobre três motes distintos:

1 – Eu havia gasto todo o dinheiro das compras do mês naquele taxi desnecessário.
2 – Ainda que partilhássemos aquela comida entre os vizinhos do prédio, do quarteirão e do bairro, ela não seria consumida em tempo hábil e iria para o lixo.
3 – Aquele saco enorme de folhas verdes continha dez repolhos e nenhuma alface.

Bem, meu único argumento era que o sabão em pó não era perecível e poderia ser aproveitado nos meses seguintes. Digno. Mas não adiantou. E já que desde ontem ninguém em casa quer falar comigo, decidi apressar a minha redenção promovendo um jantar surpresa. Sim. E do que você está rindo?

Pois foi exatamente isso que aconteceu. Passei a tarde de hoje investindo numa receita ótima: escolhi uma massa de macarrão, cobri com creme de leite, milho e outras cozitas encontradas na geladeira. Para a sobremesa, sorvete coberto com mais calda de chocolate do que a lei permite. Comprei coca-cola também. E, pronto, agora é só esperar o povo chegar. Já coloquei a massa no forno, o sorvete no congelador, a vergonha na cara e vim para a internet queimar meus poucos neurônios em sites de culinária. Isso é que é dedicação ao lar! Viva Orfélia! Amélia é que era mulher de verdade.

E por falar em queimar…

 

– E aqui, ao lado da maquete do Sistema Solar, vocês têm acesso a telescópios de grande alcance.
– E dá pra enxergar alguma coisa mesmo sendo de dia?
– Sim. Os astros não são trabalhadores que operam por turno, estão lá o tempo todo. Podem olhar, se quiserem.
– Isso é uma constelação?
– Sim.
– Ah…
– Qual a maior?
– Quantas iguais a esta existem?
– Jovens, se me permitem dizer, constelações não existem de fato. O que existe é um emaranhado de astros boiando no escuro. Nós, por uma necessidade de racionalizar a realidade, é que tratamos de dividir as estrelas em sistemas, criando linhas imaginárias para lotear o infinito. Da mesma forma que dividimos a Terra em países e continentes, mesmo sabendo que estas divisões não existem concretamente. Entendam, não estamos desabonando as ciências – a astronomia, a geografia – pois estas foram criadas numa tentativa de compreender o espaço à nossa volta. Mas, enquanto conhecimento, as ciências humanas são limitadas. Visto que os próprios seres humanos classificam-se e hierarquizam-se por etnia, origem, gênero, mérito, renda e critérios diversos que não têm significado concreto. Compreendem? Enquanto essência, as estrelas também são todas iguais. São só esse emaranhado de astros boiando no escuro.