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Posts Tagged ‘mariana miranda’

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra.
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas andanças ensimesmadas
Se era rubi, se era esmeralda
Tanto faz, era uma pedra
Era só uma maldita pedra
Para mim, para Drummond
E pra nossas retinas fatigadas.

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Subi um segundo antes do motorista arrancar e ainda senti o sopro da porta fechando nas minhas costas, o cobrador olhando, eu estendendo uma nota amassada de dois reais. Pensei que ele diria algo, e ele disse, mas eu estava com fones de ouvido, só havia o Renato Russo com sua voz pesada, mudaram as estações, nada mudou. Sentei no último banco, o cobrador ainda perguntando algo, qualquer coisa do tipo alguém troca dez reais ou alguém tem horas aí ou alguém perdeu um chaveiro, um burburinho vai se formando nos bancos da frente, meus olhos de paisagem acompanhando a tudo como num cinema mudo, o Renato insistindo, está tudo assim, tão diferente. Encosto a cabeça na vidraça, suor, calor, poeira, vento na cara. Abraçado à mochila vou lembrando, esse lugar, qual foi mesmo a última vez em que estive aqui? Quando chegar em casa vou fazer um suco e tomar um banho e abrir as janelas, esse verão abafado – fui pensando assim, dispersivo, calado, inconclusivo, rastejando os olhos por aquelas ruas de latas de lixo viradas, calçadas gastas, muros riscados, o ônibus sacolejando e o cobrador entregando o tal chaveiro a um dos passageiros enquanto um senhor de barba branca, tipo um Papai Noel magrinho, começa um discurso no corredor, fico quieto, olhando pra ele, talvez seja um evangélico citando trechos terríveis do Apocalipse ou seja alguém que pede esmola para os treze netinhos carentes que moram lá em Itapetinga ou um hare krishna vendendo incensos e balas de gengibre, eu não posso escutar, mas, agora, olhando bem – olhando bem, meu Deus, ele está cantando.
A canção dele também é triste, todos baixam os olhos. Sem ouvir, imagino rimas, adivinho versos, o pra sempre sempre acaba. A mochila contra o peito, o sol na cabeça, confiro o celular, nenhuma chamada perdida. E é nessa hora, dobrando a última avenida, num calor amazônico de 35 graus que eu passo os dedos sobre o teclado do telefone como um cego procurando a luz em braile e penso e sofro e mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, por pouco, por muito pouco, não digito o seu número de repente e ligo pra perguntar qualquer coisa boba, besta, banal, qualquer coisa do tipo – tudo bem ou como vai você?

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“Não haverá mais morte, nem tristeza,
nem choro, nem dor.”
(Ap 21:4)

 

Apesar de tudo, existe a cura. Não esta cura que nós conhecemos, contra os males do corpo ou da alma, mas uma outra, remédio para estes dias de fúria consumidos por buzinas, sirenes, mentiras, britadeiras e solidão dentro da multidão perdida. Mesmo que a fé e a vontade tateiem desorientadas dentro do lixo urbano e que Salvador também te pareça a cidade mais suja do país mais pobre do planeta mais desassistido. Estamos tristes e cansados, eu sei. Mas ainda é necessário falar sobre ela – sobre a cura.

A nós, povo enganado pelos reis, pelos búzios e pelos astros, resta a cura. Há cura para aquele pedestre passando sobre a passarela do transbordo. Para a moça vendendo flores num balde de plástico e para o religioso pregando aos gritos na estação da Lapa. Há salvação para as crianças que fogem de casa, para os loucos falando sozinhos nas ruas, para os torcedores de futebol e para os palhaços tirando e recolocando a maquiagem todos os dias no Picolino.

Desde antes, já havia cura. Para Dulce e para a quadrilha de ciganos roubando ouro na Parafuso, para a saudade, para Maria Quitéria, para os maratonistas de 1970. E, mesmo hoje, ainda há chance para o artista amador que não tem a quem mostrar as suas criações e para os namorados que usam os adjetivos no diminutivo. Alguém avise àquele garçom que resiste acordado até o último cliente do Pub´s, ele não sabe, ele precisa tanto saber. E também à professora do supletivo voltando em pé no circular, aos médicos plantonistas em Cajazeiras, às damas da noite, aos garis. Avisem a eles que há cura, antes que eles esqueçam, antes que todos esqueçam, inclusive nós mesmos.

Digam aos idosos jogando baralho na Penha e aos jovens rodando nos shoppings por vício e por tédio. Ao retirante recém-chegado que não sabe aonde ir, às baianas de acarajé, às famílias racistas da Pituba e aos peixes do dique. Antes da embriaguez do carnaval, antes do fervor das novenas, esta paz virá sobre a Baía de Todos os Santos, mesmo que eles já nem sejam tantos. Mística. Plena.

Pense na cura mesmo enquanto a capital enlouquece – enquanto há caos no tráfego das seis, enquanto corre sangue nas pedras do Pelourinho e o Governo inventa novos impostos. Enquanto os meninos pedem nas sinaleiras, tão escravos quanto antes. Enquanto crescem os degraus entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

Pense na cura e reze baixinho por todos nós que aqui vivemos. Ou até procure nos céus um sinal – ele pode ser uma estrela, uma luz, qualquer coisa. Se ele estiver lá, agradeça muito a Deus: é a cura que descerá qualquer dia sobre todos nós livrando-nos do mal, da miséria e da corrupção, é a salvação prometida que chegará a qualquer hora, a qualquer momento e para todos.

Mas, se ele não estiver lá, agradeça ainda mais. Foi a cura que, enfim, desceu do alto sobre Salvador pouco antes de você observar. Num milagre absurdo. Como quase tudo que acontece por aqui.

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Ali, sentados, eram como estranhos. Mas já sabiam-se demais parecidos – os mesmos gestos ávidos, almas de hidrogênio: livres, concêntricos, explosivos, inviáveis. A impetuosidade gêmea no abrir e fechar de portas, aves cientes da própria rapina, talvez prisioneiros do mesmo esforço vão em não rasgar-se em súplicas e lágrimas.
Antes da despedida, olhavam-se mudos. No café do aeroporto, as malas dela esperavam. Frente a frente, calados, evitavam o drama, quanto tempo ainda tinham? Não era o suficiente.
A tarde suspensa, nenhuma palavra – o garçom, as cadeiras, tudo era silêncio. Dois cubos de açúcar boiando em cada xícara – icebergs derretendo sobre o líquido quente feito rochas cedendo à força bruta do mar. Por que, você sabe, icebergs são isso: pedras de água doce sobre oceanos salgados, são a resistência simbólica à força das maiorias – Che, Olga, Zumbi, Gandhi – entregavam-se, diluíam-se, vencidos, de volta ao pó.
Faria diferença se, naquele momento, ele dissesse o que precisava dizer? Talvez a história mudasse de rumo como quem embaralha as cartas ou, talvez, não mudasse nada, bandeira fincada sobre o chão da Lua. E baixou a xícara, cuidadoso – fósforo atirado contra o último bote. Foi levantando os olhos até os olhos dela. E respirou fundo antes de falar.
Minutos depois, a última chamada. As nuvens abrindo passagem no céu. Suspensas no ar, as turbinas ruflavam e a aeronave partia. Sem ela.

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– Alô! É da operadora?
– Bem-vindo ao nosso serviço de auto-atendimento digital.
– Bom dia, eu queria…
– A Operadora de Telefonia agradece o seu contato. Para adquirir um plano, disque 1. Para informações sobre promoções, disque 2. Para consulta sobre seu saldo, disque 0…
– Putz…
– Para solicitação de planos econômicos, disque 90-90. Para solicitação de planos ainda mais econômicos, disque 0800. Para denunciar irregularidades, disque 171…
– É esse. Pronto.
– Agradecemos a sua escolha. Para denúncias de roubo, disque 007. Para denúncias de linhas cruzadas, disque 69. Para denúncias sobre ligações obscuras, disque 666…
– Alguém me atenda, por favor!
– Para falar com um de nossos atendentes, disque 6368424987…
– Hã?
– Retornando ao menu principal…
– Não! Drogaaaaa…
– Serviço de atendimento ao cliente, Ana Maria, bom dia.
– Opa! Alôôô!
– Em que posso ajudar?
– Ana Maria, bom dia, querida. Meu celular foi roubado. Preciso bloquear a minha linha.
– Pois não, senhor. O senhor pode estar nos informando se foi um caso de roubo ou de furto?
– Como assim?
– O celular do senhor foi roubado ou furtado?
– Eu não sei. Só preciso bloquear minha linha com urgência. É possível?
– O senhor pode estar nos informando se a linha é de pessoa física ou se faz parte do pacote Super-Exclusivo-Plano-Empresa?
– A linha é da empresa, Ana Maria, mas não cobre interurbanos. Se o ladrão estiver fazendo uma ligação para Singapura neste momento, quem paga a conta sou eu! Sou eu!
– A linha do senhor foi adquirida em uma de nossas agências em Singapura?
– Não! Esquece Singapura, Ana Maria. O que eu preciso fazer para cancelar meu celular?
– O senhor pode estar nos informando o CNPJ e pode estar enviando por fax os documentos da empresa?
– Posso, sim. Amanhã. Hoje é domingo, Ana Maria.
– Sinto muito, senhor, estas são as normas da companhia.
– Eu só quero cancelar a minha linha!
– Eu vou estar repassando a sua ligação para o setor de Planos Empresariais. Obrigada pela sua ligação.
– Ana Maria!!! Alôôô…
(Sua ligação é muito importante para nós. A Operadora de Telefonia tem um plano que cabe exatamente no seu bolso, não deixe de consultar o nosso site para saber das últimas promoções. Ninguém presta atenção nestas frases ditas pelas gravações, então elas poderiam dizer qualquer coisa – esta empresa é uma droga e você deveria procurar uma concorrente, continue aguardando seu palhaço, um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais…)
– O Setor de Planos Empresariais agradece o seu contato.
– Eu gostaria…
– Um momento, por favor…
(No momento todas as nossas linhas estão ocupadas. Aguarde atendimento. Sua ligação é muito importante para nós. A Operadora de Telefonia tem um plano que cabe exatamente…)
– Setor de Planos Empresariais, José Aureliano, bom dia.
– José Aureliano, escute: meu celular foi roubado. Eu só preciso bloquear minha linha.
– Pois não, senhor. Estarei transferindo a sua ligação para o Serviço de Atendimento ao Cliente. Aguarde um momento.
– Mas foram eles que me transferiram para…
(Sua ligação é muito importante para nós. A Operadora de Telefonia tem um plano que cabe exatamente…)
– Serviço de Atendimento ao Cliente, Ana Maria, bom dia.
– Ana Maria, sou eu de novo!
– Senhor, em que posso ajudar?
– Eu preciso cancelar a minha linha!
– A linha telefônica adquirida em Singapura?
– Não! Quer dizer, sim! Tanto faz, você vai me ajudar ou não?
– Pois não, senhor. O senhor está de posse da sua senha pessoal?
– Que senha?
– A senha que está disposta no interior do aparelho adquirido.
– Meu celular foi roubado, Ana Maria!
– Neste caso, senhor, tenho que estar solicitando alguns dados pessoais para sua segurança.
– Vamos lá.
– O senhor pode, por favor, estar informando seu nome completo, estado civil, número de celular, número residencial, número comercial, número do RG, número do CPF, número do calçado, número do cartão de vacinação, número do seu signo chinês e número de vezes que o senhor caiu da bicicleta no veraneio de 1972?
– Hã?
– Estas informações são necessárias para a sua segurança, senhor.
– Ca-ra-lhooo!!! Vocês só precisam bloquear meu telefone, não precisam escrever a minha biografia!!!
– Para a sua segurança, esta ligação está sendo gravada, senhor.
– Me desculpe, Ana Maria, me desculpe. Acho que eu estou ficando ligeiramente alterado. Vamos começar novamente, ok? Acho que eu não estou conseguindo ser claro na minha solicitação.
– Pois não, senhor. Em que posso ajudar?
– É o seguinte: o meu celular foi roubado. Compreende? Hoje é domingo, eu estou na rua, falando de um orelhão, não tenho mais aparelho celular, portanto, não tenho mais senha pessoal. Se não tenho uma coisa nem outra, eu estou com problemas, não é Ana Maria?
– Suponho que sim, senhor.
– Eu não tenho mais celular. Então, nesse caso, o que você pode fazer por mim, Ana Maria?
– Estarei transferindo a sua ligação para o setor de compras a partir do menu inicial, senhor. A Operadora de Telefonia agradece o seu contato, tenha um bom dia.
– Nãããooo!!! Alôôôô!!!
– Bem-vindo ao nosso serviço de auto-atendimento digital. Para adquirir um plano, disque 1. Se você tem um plano B, disque…

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Mudança

A mobília foi sendo retirada aos poucos. Cuidado com os cristais – este lado para cima. Posts sobre arte no Qualquer Semelhança, demais posts no Hello, Stranger.

Vá entrando, não repare na bagunça. Pode abrir a geladeira, deitar no sofá, a casa é sua. Se quiser, pode até rabiscar na parede um recadinho.

www.qualquersemelhanca.wordpress.com

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Aderindo à campanha por posts musicais sugerida por Pantoja…
 
Há nele algum tipo de dor. Reconheço por que só canta em italiano quem arde um pouco. E ele arde. No seu caminho vagando de madrugada ou nas minhas madrugadas vagando sobre seu caminho, a canção é esta: Il Mondo Degli Altri. Eu posso ouvir. Pelas avenidas noturnas onde ele dirige cego na contra-mão de si, debaixo da minha janela, tão fora do meu mundo. Il Mondo Degli Altri segue confuso sem saber da minha escolta. Segue por anúncios luminosos, por ruas desertas, não repara nas calçadas onde a sorte, o azar e o perigo pedem carona – já passou, já passou, ele nem viu. E a noite continua. Eu sou tudo que Il Mondo Degli Altri ignora ao passar.
 
Acelera. E toda velocidade é placebo para uma vida que não anda. Corre sem entender nada sobre distância, esta palavra que pode estar a dois mil quilômetros, que pode estar a dois palmos. Pequeno Príncipe sobre seu planeta particular, Il Mondo Degli Altri não me vê, ele não me sabe e eu sofro um pouco o assistindo nel mondo degli altri che mi chiude fuori. Da minha janela, o acompanho doendo-me a cada esquina, mexo meu café na lenta rotação dos movimentos dele, Il Mondo Degli Altri, do que você precisa? De um relógio, de um foguete, de um café, de um abrigo? Fica. E me conta a sua dor. Todos os tijolos da minha casa reorganizam-se numa nova arquitetura de mil portas abertas. Civilizações antigas reescrevem a História nas cavernas, reinventam o fogo, a roda, recomeçam em novas cidades com ruas desenhadas só para te guiarem até mim, mas você passa sem me ver, sem me ver, você segue per un sogno che non si avvera até onde? É um trabalho solitário este de não-pedir. De não me jogar na frente dos seus caminhos e te dizer: não fujas. De não te seguir como um cachorro sem dono até o último quarteirão do universo, de não tentar mudar os teus rumos para sempre. Você passa e não deixa nenhuma migalha de pão pela estrada – nenhuma pista da sua dor, dessa dor tão gêmea da minha. Ah, Il Mondo Degli Altri, eu te observo tanto. Aqui, da minha janela, eu te observo. E ardo um pouco, também.
 

Título: Il Mondo Degli Altri (O Mundo dos Outros)
Composição: F. Palmieri/A. Civai
Intérprete: Renato Russo

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Sempre desencontravam. Era ela entrar numa festa para ficar sabendo: ele acabou de sair e havia perguntado por ela. Era combinarem um encontro para que um, cansado de esperar, fosse embora um minuto antes do outro chegar atrasado, esbaforido. Um telefone chamava, ninguém atendia. O outro telefone chamava e a linha estava ocupada. Os acasos não favoreciam – nenhuma fila de banco em comum, nenhuma coincidência de esquinas, nenhum encontro banal pela rua. Só havia a vontade. E ela não bastava.

Até que foram desistindo. Um por cansaço, outro por desesperança. Desesperança pelo gran finale que não veio. Cansaço por que descontruir o próprio castelo todos os dias dá um trabalho danado mesmo. Derrotados pelo acaso. É, a vida é uma piada sem graça, às vezes.

Janeiros passaram-se. Ela trocou de emprego, ele adotou um cão. Ele filiou-se a um partido político, ela conheceu a Grécia, ele aprendeu a tocar gaita, ela quase bateu o carro. Ambos mudaram um pouco, músicas novas já eram cantaroladas com intimidade e quem os conhecia não encontraria neles nenhum traço de melancolia no olhar distraído. Só um pouco de dispersão mesmo.

E, um dia, numa manhã de muita chuva, entraram na mesma loja de conveniências, ensopados. Em frente ao freezer de sorvete, ao lado do expositor de revistas, lá estavam eles, enfim. Em cumprimentos atabalhoados, os dois riram-se muito – pois é, quanto tempo! – e havia tanto o que dizer. Nem sabiam por onde começar. Ou recomeçar.

Mas, exatamente naquela manhã, por algum motivo, ele trazia um buquê de flores na mão. E, exatamente naquela manhã, por algum motivo, ela protegia-se da chuva com um paletó masculino sobre a cabeça. Baixaram os olhos, resignados. Fazia muito tempo mesmo.

A despedida foi breve, sem graça, com uma promessa vaga de reencontro qualquer dia desses, qualquer dia desses. Partiram sob a chuva mesmo. E, se aquelas flores eram para alguma homenagem na firma ou se aquele paletó era do manobrista do estacionamento, já não fazia sentido pensar no assunto, fazia tanto tempo. A cidade é grande o suficiente para que duas pessoas se percam para sempre, pensaram – um por cansaço, outro por desesperança. Janeiros passaram-se. E, agora, quem os conhecia encontraria neles algum traço de melancolia no olhar distraído. E cada vez mais disperso.

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Não que fosse consumista. Muito pelo contrário: a família do interior nunca lhe incutira devaneios econômicos, só um pouco distinção no vestir e pronto.  “Por que uma aparência bem cuidada é sinal de respeito”, diziam. Nunca esquecera. Sapatos limpos, meias alvas, unhas curtas, tudo nela era tão natural que tinha sua graça, o charme tímido da cara lavada sem malícia. E era fácil ser assim, simples. Até conhecer o vestido da vitrine.

Um luxo. Um luxo antes só imaginado, por que, naquela época, roupas assim não circulavam na cidade de onde veio, só existiam em ilustrações de contos infantis. Cinderela, talvez. Traje de gala dourado, longo, suntuoso, exuberante demais para a vida real. Ou para a vida dela. Aquela peça era seu oposto extremo, seu antônimo, seu convexo. Era a outra metade.

Reinando sozinho na vitrine, devia ser caríssimo, pensou. E era. Quanto do seu ordenado? Calculou só por curiosidade: metade do aluguel ou metade da mensalidade ou o custo das compras de supermercado e da conta de energia somados. Tudo por um vestido? Absurdo, absurdo, resmungou baixinho, quem daria isso tudo por uma roupa? Absurdo. Refez o cálculo, afinal, ele tinha saias sobrepostas, majestoso em tudo. Onde usaria um traje desses? Como ela mesma, sua rotina era simples. Não precisava de tanto. Ou precisava? Talvez fosse um caro possível, poderia dividir o pagamento – relativizou sem segurança, procurando outros parâmetros. Sim, poderia fazer aquela compra, com algum sacrifício. Mas, a troco de quê? Era custo demais por um vestido esplendoroso demais. Tudo nele era demais para aquela mulher sem excessos. Encolheu-se, resignada. Deixou a loja, tomou a rua.  Dissipou-se.

Na volta pra casa, a chuva rala de um inverno urbano, cinza, cinza. O guarda-chuva preto, as botas de borracha. O asfalto, o cimento, os edifícios de concreto, o cair da noite escura. Um mundo opaco – como nunca havia notado. Da janela, ruminou sozinha pensamentos dispersos: seu quarto apagado. Depois, o desbotado do quarto ofuscado pelo dourado do vestido. Depois, tudo mais que ele traria consigo: o vermelho do batom, o brilho dos anéis, a pérola dos brincos, pingentes, pulseiras, unhas escarlate, o colorido das festividades que poderia vir a freqüentar só para merecê-lo. Sim, precisava merecê-lo. Precisava de salões amplos, escadarias, lustres barrocos. Precisava de valsa. Orquestra, violino, essas coisas. E também de um cavalheiro de fraque para acompanhá-la na dança, as anáguas balançariam lentas, perfeitas, foram feitas para isso. Eles deslizariam entre os casais e já era possível imaginar o reflexo dos dois multiplicando-se nos espelhos emoldurados, nas taças de cristal, na prata dos castiçais. Dentro de um vestido dourado mulher nenhuma é despretensiosa, riu-se involuntária, irônica – todo grande sonho beira mesmo o ridículo. Descobriu-se perplexa. Riu-se novamente. Abriu os olhos, o quarto escuro à sua volta, impassível. Já não pertencia àquele lugar.

Anda, anda, anda. A manhã fria na cidade louca e a velha bolsa apertada contra o corpo, ela atravessando as ruas apressada, a loja a três quarteirões. As folhas de cheque num envelope pardo, era muito, era demais e sua fome pedia enormidades. Ofegava. Na contra-mão do mar de pedestres sonolentos, ela abria caminho. Eram os primeiros passos na direção contrária das coisas. Sabia que iniciara algo irreversível e corria, corria, por que, às vezes, não há mais volta e só nos resta mesmo seguir em frente até o fim. Ela estava pronta.

Enfim, a rua. A loja, a vitrine, o vestido sozinho em seu reinado, em sua espera. Sob a luz do sol tudo era mais belo e mesmo o manequim de madeira perecia lhe sorrir estático. Sorriu também. O reflexo da própria imagem no vidro sobreposto à do tecido, visão da sua pele matizada em seda dourada. Era o princípio das cores. Aproximou-se com a cerimônia dos grandes encontros e, então, reconheceu nele um detalhe novo. Uma etiqueta discreta: vendido.

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