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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas (…)
Não, não creio em mim
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! (…)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta (…)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu (…)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim, não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.”

.
(Fernando Pessoa / Tabacaria)

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“Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo, outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome.”

(Mia Couto / Raiz de Orvalho)

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“A humanidade está vivendo uma situação de apocalipse, entendendo a palavra apocalipse como revelação. Há algo desmoronando e há também algo que está nascendo. Nós escutamos o barulho do carvalho que cai, mas não escutamos o barulho da floresta que brota. Ouvimos o ruído das torres desmoronando, mas não escutamos a consciência que desperta. Em geral, falamos das coisas que fazem ruído, mas o importante é aquilo que não se ouve. É preciso prestar atenção às sementes que estão brotando.”

(Jean-Yves Leloup / A Arte da Atenção)

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“A humanidade não progride lentamente, de combate em combate, até uma reciprocidade universal, em que as regras substituiriam para sempre a guerra. Ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras e prossegue assim de dominação em dominação.” (69)

“Temos diante dos olhos cidades em ruínas e monumentos enigmáticos. Detemo-nos diante das muralhas abertas, perguntamo-nos que deuses puderam habitar aqueles templos vazios. As grandes épocas não tinham tais curiosidades nem tão grandes respeitos, elas não reconheciam predecessores: o classicismo ignorava Shakespeare.” (79)

“Por que não é com ideias que se faz avançar a história, mas com uma força material, a do povo que se reunifica nas ruas.” (115)

“A lição é a velha ideia de Marx: o novo nasce a partir do antigo.” (119)

“No primeiro estágio da revolução ideológica, sou pela pilhagem, sou pelos excessos. É preciso inverter a dominação, não se pode destruir um mundo delicadamente.” (123)

“Nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro e é preciso prática para atravessar o muro.” (130)

“Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante… É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. (…) É curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e, se eles não lhe servem, consigam outros, consigam vocês mesmos seus instrumentos, que é forçosamente um instrumento de combate.” (132)

“É preciso ouvir a exclamação de Reich: não, as massas não foram enganadas, em determinado momento elas desejaram o fascismo!” (140)

“No exército do século XVII, os indivíduos estavam amontoados. O exército era um aglomerado de pessoas com as mais fortes e mais hábeis na frente, nos lados e, no meio, as que não sabiam lutar, eram covardes, tinham vontade de fugir. A força de um corpo de tropa era o efeito da densidade dessa massa.” (180)

“No fundo da Prática Científica existe um discurso que diz: nem tudo é verdadeiro, mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar.” (190)

“A característica destas instituições (escola, usina, hospital) é uma separação decidida entre aqueles que têm o poder e aqueles que não o têm.” (206)

“Convêm desvencilhar as cronologias e as sucessões históricas de qualquer perspectiva de sucesso.” (228)

“A partir do momento em que se atinge o poder, deixa-se de saber: o poder enlouquece, os que governam estão cegos. E somente aqueles que estão à distância, que não estão em nada ligados à tirania, fechados em suas estufas, em seus quartos, em suas meditações, podem descobrir a verdade.” (230)

“Parafraseando Astruc, que dizia: ‘o cinema americano, este pleonasmo’, poderíamos dizer: o historiador marxista, este pleonasmo.” (232)

“Na realidade, a impressão de que o poder vacila é falsa, porque ele pode recuar, se deslocar, investir em outros lugares… e a batalha continua.” (235)

“A política é a guerra prolongada por outros meios.” (275)

(Microfísica do Poder / Michel Foucaut)

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“Olhando para ele na praia até você poderia entender a graça dele para as moças: era bonito, mas logo ficaria feio. Isso o deixava ainda mais bonito. Era muito branco e trazia a pele acabada de sol e álcool e privação de sono, a cara sempre meio inchada de ressaca. Tinha sardas nos ombros e pele já fina e flácida logo abaixo do pescoço, de um jeito que poucos têm aos trinta. Tinha rugas ao redor dos olhos, também muito antes da idade, e uma espinha ou outra. Tudo nele era deslocado. Parecia além e aquém de seus anos, feio e bonito. Parecia mal tratado, uma pessoa que não se preservava. Enquanto todos se guardavam numa mesquinharia sem fim, ele se gastava. Era uma beleza que seria arruinada em cinco anos, você queria estar ali para ver.”

(Juliana Cunha / Reação no Mundo)

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“Denominamos afins aquelas naturezas que, ao se unirem, rapidamente se prendem e se identificam umas com as outras. Os álcalis e os ácidos antagonizam-se, mas apesar disso, ou talvez por isso mesmo, procuram-se avidamente e se apegam, modificando-se, e formam um novo corpo, revelando sua afinidade de maneira suficientemente clara. Pensemos na cal, que revela grande inclinação por todos os ácidos, uma verdadeira compulsão à união. Do mesmo modo, podem nascer amizades realmente significativas entre os humanos, pois qualidades opostas propiciam uma união mais estreita.” (Pág. 56)

“Nunca fui acusado diretamente, mas pelas costas diziam: eu era um incompetente. Em quase tudo, agia como um amador. Pode ser. Eu ainda não havia encontrado a matéria em que pudesse me revelar um mestre. Quero ver agora quem há de me superar na arte do amor.” (Pág. 151)

“Ouvimos falar de um curioso costume da marinha inglesa. Todas as cordas da armada real, da mais resistente à mais débil, trazem um fio vermelho que as atravessa de uma ponta a outra e ele não pode ser retirado sem que elas se desfaçam completamente. Deste modo, até o cordão mais insignificante ostenta sua pertença à Coroa.” (Pág. 169)

“É deveras agradável a sensação de nos ocuparmos de um assunto que não conhecemos bem, pois ninguém tem o direito de censurar o diletante quando ele se aventura numa arte que jamais dominará por inteiro.” (Pág. 172)

“Nada assinala melhor o caráter das pessoas do que as coisas que consideram ridículas.” (Pág. 188)

“Neste mundo, tomamos uma pessoa pelo que ela se faz passar. E, de toda maneira, ela tem de se fazer passar por algo. Toleramos mais os indivíduos incômodos que os insignificantes.” (Pág. 201)

“Certa fraqueza torna os grandes homens reféns de sua época. (…) Acreditamos que agimos com autonomia, escolhendo nossos afazeres e divertimentos, mas, se pensarmos bem, somos levados tão somente a agir de acordo com os planos e inclinações do nosso tempo.” (Pág. 203 – 225)

“O mais autêntico objeto de estudo da humanidade é o homem.” (Pág. 224)

“O destino contempla os nossos desejos, mas faz isso a seu modo, a fim de nos oferecer algo que está acima deles.” (Pág. 238)

“Foi enorme a alegria do reencontro. As amizades de juventude, assim como a afinidade consanguínea, possuem a grande vantagem de não serem abaladas definitivamente por nenhum equívoco. (…) Esses sentimentos acompanharam-me, sustentaram-me diante de todos os perigos. Agora sinto-me na posição de alguém que atingiu o alvo, que superou todos os obstáculos, que nada mais depara em seu caminho.” (Pág. 259 – 260)

(As Afinidades Eletivas / Goethe, 1809)

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“No último parágrafo de Bartleby, O Escrivão, o narrador menciona um boato que lhe havia chegado aos ouvidos a respeito da vida que levava aquele personagem antes de chegar ao escritório em Nova York. Teria sido ele um funcionário subalterno na Repartição de Cartas Mortas, local para onde eram encaminhadas as cartas extraviadas. Estas cartas estavam condenadas a desaparecer pelas mãos de um destinatário imprevisto: é Bartleby quem, na sua solidão, teria a tarefa de prepará-las para as chamas, que faz arder aquela multidão de páginas dobradas, colocando um fim à sua errância. A atividade não poderia deixar de ser um aprendizado intolerável: enquanto as manuseava, lia a possibilidade de encontros que teria acontecido, mas que não se deram. (…) Entre o remetente e o destinatário há a desmedida das distâncias, não é raro que as cartas, desfazendo as restrições do seu destino, passem a vaguear ao acaso pelo tempo e pela geografia. Podem ser encontradas por alguém, restar no fundo das gavetas, perder-se antes que alguém as tenha lido, desaparecer ou persistir em tantos outros rumos imprevisíveis – seu caminho passa sempre pela interrupção, pelo intervalo. Até chegarem a Bartleby, o derradeiro destino das palavras extraviadas.”

(Maria Carolina Fenati / Gratuita, pág. 12)

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mais do que a própria guerra

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jose luis peixoto, a criança em ruínas

(José Luis Peixoto / A Criança em Ruínas)

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