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Homem

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Jukebox

Numa dessas jukeboxs dos EUA, encontrei uma música em português e coloquei para tocar. Vi do outro lado uma moça dançando e fui até lá, feliz, para puxar assunto. Notei que ela usava fones de ouvido e dançava outra música, uma música que só ela escutava. Voltei para minha mesa.

Encontros são raros. É uma sorte isso de se encontrar.

Apenas

belchior socorro

“Denominamos afins aquelas naturezas que, ao se unirem, rapidamente se prendem e se identificam umas com as outras. Os álcalis e os ácidos antagonizam-se, mas apesar disso, ou talvez por isso mesmo, procuram-se avidamente e se apegam, modificando-se, e formam um novo corpo, revelando sua afinidade de maneira suficientemente clara. Pensemos na cal, que revela grande inclinação por todos os ácidos, uma verdadeira compulsão à união. Do mesmo modo, podem nascer amizades realmente significativas entre os humanos, pois qualidades opostas propiciam uma união mais estreita.” (Pág. 56)

“Nunca fui acusado diretamente, mas pelas costas diziam: eu era um incompetente. Em quase tudo, agia como um amador. Pode ser. Eu ainda não havia encontrado a matéria em que pudesse me revelar um mestre. Quero ver agora quem há de me superar na arte do amor.” (Pág. 151)

“Ouvimos falar de um curioso costume da marinha inglesa. Todas as cordas da armada real, da mais resistente à mais débil, trazem um fio vermelho que as atravessa de uma ponta a outra e ele não pode ser retirado sem que elas se desfaçam completamente. Deste modo, até o cordão mais insignificante ostenta sua pertença à Coroa.” (Pág. 169)

“É deveras agradável a sensação de nos ocuparmos de um assunto que não conhecemos bem, pois ninguém tem o direito de censurar o diletante quando ele se aventura numa arte que jamais dominará por inteiro.” (Pág. 172)

“Nada assinala melhor o caráter das pessoas do que as coisas que consideram ridículas.” (Pág. 188)

“Neste mundo, tomamos uma pessoa pelo que ela se faz passar. E, de toda maneira, ela tem de se fazer passar por algo. Toleramos mais os indivíduos incômodos que os insignificantes.” (Pág. 201)

“Certa fraqueza torna os grandes homens reféns de sua época. (…) Acreditamos que agimos com autonomia, escolhendo nossos afazeres e divertimentos, mas, se pensarmos bem, somos levados tão somente a agir de acordo com os planos e inclinações do nosso tempo.” (Pág. 203 – 225)

“O mais autêntico objeto de estudo da humanidade é o homem.” (Pág. 224)

“O destino contempla os nossos desejos, mas faz isso a seu modo, a fim de nos oferecer algo que está acima deles.” (Pág. 238)

“Foi enorme a alegria do reencontro. As amizades de juventude, assim como a afinidade consanguínea, possuem a grande vantagem de não serem abaladas definitivamente por nenhum equívoco. (…) Esses sentimentos acompanharam-me, sustentaram-me diante de todos os perigos. Agora sinto-me na posição de alguém que atingiu o alvo, que superou todos os obstáculos, que nada mais depara em seu caminho.” (Pág. 259 – 260)

(As Afinidades Eletivas / Goethe, 1809)

Bartleby

“No último parágrafo de Bartleby, O Escrivão, o narrador menciona um boato que lhe havia chegado aos ouvidos a respeito da vida que levava aquele personagem antes de chegar ao escritório em Nova York. Teria sido ele um funcionário subalterno na Repartição de Cartas Mortas, local para onde eram encaminhadas as cartas extraviadas. Estas cartas estavam condenadas a desaparecer pelas mãos de um destinatário imprevisto: é Bartleby quem, na sua solidão, teria a tarefa de prepará-las para as chamas, que faz arder aquela multidão de páginas dobradas, colocando um fim à sua errância. A atividade não poderia deixar de ser um aprendizado intolerável: enquanto as manuseava, lia a possibilidade de encontros que teria acontecido, mas que não se deram. (…) Entre o remetente e o destinatário há a desmedida das distâncias, não é raro que as cartas, desfazendo as restrições do seu destino, passem a vaguear ao acaso pelo tempo e pela geografia. Podem ser encontradas por alguém, restar no fundo das gavetas, perder-se antes que alguém as tenha lido, desaparecer ou persistir em tantos outros rumos imprevisíveis – seu caminho passa sempre pela interrupção, pelo intervalo. Até chegarem a Bartleby, o derradeiro destino das palavras extraviadas.”

(Maria Carolina Fenati / Gratuita, pág. 12)

Anjo da guarda

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Hoje de manhã cedo esse blog já estava com uns 1.500 acessos.
Se cada acesso valesse 1 real, hoje seria dia de jantar em Paris, confere?

Ponderando sobre a questão, apenas.

Trincheiras

mais do que a própria guerra

Ironicamente, tudo o que eu sei hoje sobre política começou na escola, numa aula sobre as crueldades da ditadura militar. Eu fiquei impressionada. Meu avô foi me buscar no colégio e eu fui logo perguntando sobre onde ele esteve em 64: como eram as passeatas, se ele também correu da polícia, se algum amigo dele tinha desaparecido. Mas meu avô sorriu e explicou que tinha sido um simpatizante dos militares: naquela época, a economia prosperava. O Brasil era o país do futuro. Que tinha sido um tempo bom.

Eu fiquei perplexa como só uma criança poderia ficar.

Meu avô era uma boa pessoa. Ele pensava como a maioria das pessoas da geração dele. Ele não percebeu que a geração dele estava errada.

A gente precisa desconfiar o tempo inteiro de tudo o que é considerado normal pela nossa geração.

Hoje, acho que eu faço política só por quê, daqui a 50 anos, as crianças podem me perguntar se eu participei de algum movimento de vanguarda. Se eu lutei por algo, se perdi amigos. Se eu corri da polícia em alguma passeata. Talvez elas perguntem se eu fiz campanha pela igualdade racial ou aonde eu estava no dia do Orgulho Gay. Podem perguntar se eu também fui chamada de feminazi na internet, se também me mandaram pilotar fogão, se eu conheci o spray pimenta ou se só assisti pela televisão. Vão querer saber se eu fazia coleta seletiva, se andava de bicicleta, se apoiei o movimento antimanicomial, se tive amigos travestis. Talvez questionem se fui contra a criminalização do aborto, se fui doadora de sangue, se apoiei o estado laico, se namorei algum cadeirante. Vão perguntar se eu sabia da escravidão na China, no Estado Islâmico, aonde eu estava nos dias de guerra. Se alguém se tornou meu inimigo por causa disso. Em quem eu votei em 2018.

As crianças vão perguntar por conquistas que parecerão óbvias para a geração delas, mas que não parecem óbvias agora.

É bom estar preparada. Não basta ser uma boa pessoa.

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Sobre rotas

Pensar na sua chegada me faz lembrar a história de um amigo meu que tinha carro, mas não tinha carteira de motorista. Por falta de tempo, de dinheiro, de paciência: trabalhava perto, era caseiro. Bastava sair pouco, fazer trajetos curtos, em horários de pouco fluxo. Sem problemas. Ficou assim por anos.

Não é que ele detestasse dirigir. Gostava de guiar, por exemplo, depois da última sessão de cinema, de madrugada, com os vidros abertos. Numa dessas noites, voltando pra casa, tocou uma música no rádio: era uma música antiga que ele adorava. Linda. Ele já estava chegando, aí aumentou o volume e resolveu dar mais uma volta no próprio quarteirão só para ouvir até o fim. Até a música acabar. E ela acabou.

Aí tinha uma blitz.

Infração grave, cinco pontos na carteira, apreensão do veículo, multa e penalidades diversas.

Ridiculamente traído pelo acaso, meu amigo precisou frequentar a auto escola para aprender algo que ele sempre soube: dirigir. Gastou tempo e dinheiro. Pelo menos agora já podia sair em qualquer hora e lugar. Naquele ano, ele foi visitar um colega nosso em outra cidade e fez um passeio de férias. E começou a viajar sempre que podia, conhecendo tudo pelas estradas. O mundo dele ficou maior. Ia cada vez mais longe.

Meu amigo já não mora mais aqui. Quando a gente se reencontra, sempre alguém fala sobre a história da carteira de motorista e ele dá risada. Diz que, às vezes, a gente se acomoda com pouco, mas que se você estiver aberto a mudar de rota, coisas fantásticas podem acontecer. São os sinais do universo. Como eu acredito que aconteceu para mim.

Tenho pensado muito em você, que entrou na minha vida como uma música linda.