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Ironicamente, neste ano de pessimismo generalizado, o lugar que eu mais gostei de visitar é conhecido como O Inferno de Dante.

Ele fica debaixo da terra. Só é possível sobreviver por lá por algumas horas e recomenda-se o aluguel de roupas especiais. Sobre a existência de seres chifrudos com pé de bode eu não sei dizer, mas posso afirmar que não é fácil visitar a casa do sete pele.

O lugar se chama Postajona e fica na Eslovênia. Fui parar neste abismo insólito graças a um roteiro de viagem baseado nos locais que inspiraram a obra de Dante Alighiere, em A Divina Comédia – começando pelo Inferno (Postajona), seguindo para o Purgatório (precipício em Santorini) e chegando ao Paraíso (catedral na Itália). Quer criar um roteiro poético, complicado e sem nenhuma praticidade? Pergunte-me como.

Desce-se ao inferno por um trem em alta velocidade. Mas sair é diferente: é a pé, por conta própria, subindo sozinho por pontes estreitas e vertiginosas. Você fica no escuro, ouvindo o eco dos próprios passos, pequeno e perdido naquele labirinto de pedra. Um verme solitário no meio do nada. São 5 km até encontrar um facho de luz e ir reconhecendo os sons da superfície. E outras vozes humanas.
Ah, vozes humanas! Ali, naquele momento, o inferno não são os outros.

Nem sei quanto tempo passei lá. Depois de achar a saída, demorou para eu conseguir abrir os olhos por causa do sol e voltar a reconhecer as árvores, a estrada, os carros passando. Uma casa, um cachorro, um cesto de lixo. Um grupo de pessoas num banco de praça. O mundo parecia uma festa.

Como, de fato, ele é.
Foi o local mais bacana deste ano.
É isso aí. Feliz 2016.
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“Às vezes os deuses
nos dão algo a mais
e não percebemos
na hora.”
(Charles Bukowski)
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Ele nunca se parece com as músicas que compõe. Nesse documentário novo, do Miguel Faria Jr., observe. Um cidadão todo almofadinha, contido, num apartamento monocromático com vista para o mar. Você olha, olha e nada. Ouve aquele cara falar e nada. Fica procurando o poeta, palhaço, pirata. Que era bedel e era também juiz. Das lutas contra o rei e das discussões com Deus. E não encontra. Nunca aceitei o fato de que, desde jovem, Chico Buarque se expressa como um funcionário público e se veste como o tio da Sukita. Mas é o cara que compôs Apesar de Você. Repare que tem alguma coisa errada nisso aí.
O documentário é cuidadoso, é muito bem feito. Tem até umas cenas legais – aquelas em que ele não aparece. Maria Bethânia sorri para a câmera – me pego cantando, sem mais nem por quê. Adriana Calcanhoto sobe ao palco – e me sobe às faces e me faz corar. Carminho e Milton Nascimento fazem a gente querer largar tudo e ir sofrer baixinho debaixo da mesa – estrelas percorrendo o firmamento em carrossel – e é bonito e é triste quando, miraculosamente, Ney Matogrosso profetiza – eu te vi suspirar de aflição e sair da sessão frouxa de rir. Mas aí já é tarde. Todo mundo saindo da sessão aos soluços. O filme acaba, as luzes se acendem – me diz, agora, como hei de partir?
Minha teoria é de que Chico Buarque não existe, é o nome que deram a um vírus de laboratório. Aquele tio da Sukita que dá entrevista é um ator contratado para ilustrar as capas de disco, nunca compôs uma linha, só conta historinhas de sofá – ditadura, futebol, Marieta – faz uns 50 anos. Os sintomas do vírus são imprevisíveis – levam à bebedeira, apertam o peito, fazem chorar. O Brasil foi enganado por todos estes anos. O Chico de verdade mora num tubo de ensaio.
Já faz décadas que tentam criar uma vacina, um antídoto e nada: a epidemia voltou para fazer estrago. Recomendo o documentário, mas com moderação. Em caso de recaída, um médico deverá ser consultado.
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“- E é pior ainda, pois trata-se de uma cobiça medíocre! – como se uma cobiça medíocre e uma grande cobiça não fossem a mesma coisa.” (Pág. 20)
“O poder absoluto, seja sobre uma mosca, é também uma espécie de gozo. O homem é um déspota por natureza: gosta de causar sofrimento. É isso o que se ama acima de tudo.” (Pág. 52)
“Sim, algumas vezes o pensamento mais louco, o mais impossível na aparência, se implanta tão fortemente em seu espírito, que acreditamos que seja realizável… Mais ainda: se esta ideia está ligada a um desejo violento, apaixonado, o acolhemos como algo fatal, necessário, predestinado, como algo que não pode não ser ou não se realizar! Talvez aí exista algo mais: uma combinação de pressentimentos, um esforço extraordiário da vontade, uma auto-intoxicação pela imaginação ou ainda outra coisa… não sei, mas naquela noite (que jamais esquecerei) aconteceu-me uma aventura miraculosa. Ainda que ela possa ser perfeitamente explicável pela matemática, não se torna menos miraculosa a meus olhos. E por que, por que aquela certeza estava tão solidamente enraizada em mim, mesmo depois de tanto tempo?” (Pág. 180)
(Feódor Dostoiévski / O Jogador)
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“Mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.”
(Caio Fernando Abreu / Além do Ponto)
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“Os canhões formavam uma harmonia como nunca existiu no inferno.” (Pág. 28)
“Será que há algo mais tolo do que querer carregar sem trégua um fardo que sempre poderíamos jogar no chão? Sentir horror pelo seu ser e estar apegada a esse mesmo ser?” (Pág. 46)
“Se nosso amigo Pangloss tivesse visto o Eldorado, teria deixado de dizer que o castelo de Thunder-ten-tronckh era o que tinha de melhor na Terra. A verdade é que é preciso viajar.” (Pág. 59)
(Voltaire / Cândido)
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