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Continuando.

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– Olha, a moça dos móveis ligou perguntando o que a senhora vai fazer em relação ao aluguel dos castiçais do evento.
– Os castiçais estão pagos.
– É. Mas estão sem velas.
– Não vem junto?
– E não são velas de mercado, tem que encomendar na fábrica e ir buscar lá, daquelas que duram 8h acesas. São dez por candelabro.
– Não dá para desistir dos candelabros?
– E é bom comprar um gel contra queimaduras. Algum convidado curioso pode mexer e causar um acidente.

Fiz a encomenda das velas e mandei o motoboy ir buscar. A dona da fábrica não fez a entrega e expulsou o boy a vassouradas por que ele usava um colar de Candomblé. Fui na fábrica carregar pessoalmente as caixas da linha de produção até o carro e decidi não comprar o gel contra queimaduras, afinal não sou mãe de ninguém e cada um que administre a sua curiosidade. Passei a noite encaixotando as velas em volumes com etiquetas, de acordo com cor e tamanho, para cada mesa e tipo de candelabro, e concluí que, com o dinheiro que eu havia gasto naquela idiotice, dava para ter comprado uma lente 50mm da Canon ou um fim de semana na praia. Encaminhei as caixas com antecedência para o salão junto com um checklist e os contatos da fábrica e até coloquei uns telefones de emergência médica para o caso de algum aloprado resolver mesmo incendiar-se e tornar a festa mais animada. O motoboy ligou aos gritos dizendo que ia processar a dona da fábrica. A dona da fábrica ligou aos gritos dizendo que o boy ameaçou processá-la. A mulher dos móveis ligou e eu fiquei aflita olhando para o celular esperando a hora da morte, mas ela somente queria avisar que havia recebido as caixas e que estava tudo bem. Segui para o escritório com o objetivo de recobrar a dignidade. Me dei ao luxo de trabalhar um pouco. O dia acabou. Voltamos todos vivos para casa.

Hoje, olhando as fotos do evento, observo que nenhuma foi acesa. O cerimonial esqueceu as velas apagadas.

casamento gay ou hetero buffet

A última mulher

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“Impossível ordenar o mundo dos valores. Ninguém coloca ordem na casa do capeta.” (Pág. 55)

“O povo é só e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina.” (Pág. 60)

“Te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia!” (Pág. 61)

“A desordem também privilegia, a começar pela força bruta.” (Pág. 62)

“Se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado.” (Pág. 63)

“Fácil concluir que dois e dois são quatro à sombra de uma figueira, queria ver alguém puxar linhas e outros segmentos, fechar rigorosamente um círculo, demonstrar enfim um teorema em plena fogueira do inferno.” (Pág. 68)

“Eu fiz de conta que esqueci de tudo e que o mundo agora só tinha aquele apertado metro de diâmetro.” (Pág. 71)

“A culpa melhora o homem. A culpa é um dos motores do mundo!” (Pág. 80)

“As palavras – impregnadas de valores – cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original, assim como atrás de cada gesto sempre se escondia uma paixão, me ocorrendo que nem a banheira do Pacífico teria água bastante para lavar e serenar o vocabulário.” (Pág. 80)

(Raduan Nassar / Um Copo de Cólera)

José Saramago

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“Seus olhos brilhavam, estava mais belo do que nunca, destinado a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos.”

(F. Scott Fitzgerald / Os Belos e os Malditos)

Karen Armstrong

Ex-freira inglesa, uma das maiores historiadoras do nosso tempo, estuda a raiz dos conflitos religiosos entre os povos do mundo inteiro. Minha aposta para o Nobel da Paz de 2016.

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“Deus, Brahma, Nirvana. Não importa quais sejam as nossas opiniões teológicas, todos experimentamos algo semelhante quando ouvimos uma grande peça musical ou lemos um belo poema, e nos sentimos tocados por dentro, guindados para cima de nós mesmos. Tendemos a procurar esta experiência e, se não a encontramos em um local – numa igreja, por exemplo, ou numa sinagoga – buscamos em outro.”
Pág. 14

“Isso se deve, em parte, a nossa visão do mundo como um vale de lágrimas. Somos vítimas de desastres naturais, mortalidade, extinção, injustiça, crueldade. A busca religiosa geralmente começa com a constatação de que, como disse Buda, ‘a existência é errônea’. (…) Esta sensação de perda já foi expressa de muitas maneiras, evidencia-se na imagem platônica da alma gêmea da qual fomos separados ao nascer e no mito universal do paraíso perdido.”
Pág. 15

“Essa busca pelo sagrado e o culto a um local santo se relacionava com a nostalgia do paraíso. Quase todas as culturas possuem o mito da Idade de Ouro no começo dos tempos, quando a comunicação com os deuses era fácil e íntima.”
Pág. 32

“A história das religiões mostra que, em épocas de crise ou se convulsão social, as pessoas se voltam mais prontamente para o mito do que para as formas mais racionais de fé. Como uma espécie de psicologia, o mito consegue penetrar mais fundo que o discurso cerebral e tocar a causa obscura do sofrimento nas esferas íntimas do nosso ser. Mesmo hoje, vemos que o exílio vai além da simples mudança de endereço. É também um deslocamento espiritual. Tendo perdido seu lugar no mundo, os exilados podem sentir-se à deriva num mundo que, de repente, se tornou estranho. Sem o ponto fixo da ‘pátria’, uma desorientação fundamental faz tudo parecer relativo e sem sentido.”
Pág. 114

“Quando vemos um lugar onde ocorreu alguma coisa importante para nós, desaparece a lacuna entre o passado e o presente, que as simples informações verbais não conseguem eliminar.”
Pág. 232

“O processo de cavar o solo e chegar a uma santidade enterrada, então inacessível, constituía em si mesmo um importante símbolo de busca de cura psíquica. (…) Freud logo percebeu a relação entre a Arqueologia e a Psicanálise.”
Pág. 490

“Todavia, como demonstra a longa e trágica história de Jerusalém, nada é permanente ou garantido. As sociedades que sobreviveram por mais tempo foram as que se dispuseram a algum tipo de tolerância.”
Pág. 514

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(Karen Armstrong / Uma Cidade, Três Religiões)

Good grammar

Good grammar is sexy

Ideias

ideias perigosas

Rayuela, Cortázar

Na introdução de O Jogo da Amarelinha, Cortázar oferece um roteiro de leitura informando os capítulos que devem ser saltados para, depois, serem lidos em retrospectiva. Uma dinâmica de digressões que lembra mesmo um jogo de amarelinha. Aqui, alguns trechos do livro:

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“E repare que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente.”
Pág. 14

“Assim, tinham começado a andar por uma Paris fabulosa, deixando-se levar pelos signos da noite, adotando itinerários sugeridos por uma frase de chockard, por uma água furtada iluminada numa rua escura, detendo-se nas pracinhas muito íntimas para beijarem-se nos bancos, ou para olharem o jogo da amarelinha, os rituais infantis da pedrinha e o salto sobre um pé para entrar no céu.”
Pág. 33

“Em Milão, em Buenos Aires, em Genebra, no mundo inteiro, é inevitável, é a chuva e o pão e o sal, algo absolutamente indiferente aos ritos nacionais, às tradições invioláveis, ao idioma e ao folclore: uma nuvem sem fronteiras, um espião do ar e da água, uma forma arquetípica, algo de antigamente, de baixo, que reconcilia mexicanos e noruegueses e russos e espanhóis, que nos reincorpora ao obscuro fogo central já esquecido, que os devolve mal e precariamente a uma origem atraiçoada, indicando-lhe que talvez houvesse outros caminhos e que aquele que escolheram não era o único.”
Pág. 87

“Depois dos quarenta anos nós temos o verdadeiro rosto na nunca, olhando desesperadamente para trás.”
Pág. 112

“Eram contatos de galhos e folhas que se cruzam e acariciam de árvore para árvore, enquanto os troncos erguem desdenhosos as suas paralelas inconciliáveis.”
Pág. 121

“Em Paris, qualquer menção a alguma coisa que esteja além de Viena soa a literatura.”
Pág. 176

“Eu não me dei conta, fiquei para trás como os velhos que ouvem falar de cibernética e sacodem devagarzinho a cabeça, pensando que já está na hora da sopa de massinha.”
Pág. 324

“Tudo o que se escreve atualmente, e que vale a pena ler, está voltado para a nostalgia. Complexo de Arcádia, regresso ao grande útero, volta a Adão, o bom selvagem.”
Pág. 429

“Sinto, no máximo, a melancolia de uma vida demasiado curta para tantas bibliotecas. A falta de experiência é inevitável, quando estou lendo Joyce, estou sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa.”
Pág. 459

“Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Como se pudesse escolher no amor, como se o amor não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio.”
Pág. 483

“Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que tinham se tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para a outra enquanto os pais as puxavam pela mão, arrastando-as para a rua.”
Pág. 485

(Julio Cortázar / O Jogo da Amarelinha)

Por fim, uma canção da banda Gotan Project lançada em homenagem ao romance. Letra da música feita com trechos do livro + tango eletrônico com coral de crianças = o melhor dos dois mundos.