Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado charlie brown, mariana miranda, snoop | Leave a Comment »
Eu tenho uma amiga chamada Vânia. Ela é professora de dança em Dubai. Como dançarina profissional, ela viaja o mundo participando de eventos artísticos.
Às vezes, quando eu estava tendo um dia chato no escritório, via nas redes sociais as atualizações do localizador dela: Vânia está em um Congresso Internacional de Dança, em Viena. Ou: Vânia está num Cruzeiro de Aperfeiçoamento Musical, no Mediterrâneo. Ou: Vânia está em um Festival de Cultura, em Seul. E isso me dava alguma paz de espírito – pensar que, em algum lugar, ao menos uma de nós estava tendo um dia interessante.
Vânia foi minha colega no colégio. Ela era a roqueira sexy, de cabelo vermelho, piercing e tatuagem. Eu era a nerd militante, de óculos e camisão xadrez. Nem sei dizer por que a gente se dava tão bem. Combinamos de nunca perder o contato. E nunca perdemos.
Ano passado ela veio passar férias em Salvador e a gente se reencontrou. E foi uma festa. E ela me contou sobre todos os países, todas as baladas, todos os hotéis. Sobre a beleza da dança de cada lugar. Sobre as viagens de aventura. Depois contou também que nem todos os dias eram bons, por que é duro não ser de lugar nenhum. E que, às vezes, quando a solidão parecia esvaziar tudo em volta de sentido, ela buscava por notícias do Brasil pelo computador. E via as fotos da minha casa cheia de velhos amigos. Do meu Natal cheio de tios e primos. E gostava de pensar que, em algum lugar, pelo menos uma de nós estava levando uma vida rodeada de amor.
E a gente se despediu outra vez. Ela disse que me mandaria notícias logo que chegasse em Abu Dhabi. Que me enviaria um postal quando fosse à Manila. E me prometeu um incenso de Amã.
E ver Vânia indo embora me partiu o coração.
A verdade é que o sonho de toda funcionária é ter uma vida de aventura e arte ao redor do mundo, livre da rotina e da mesmice. E o sonho de toda andarilha é ter uma casa com cachorro e velhos amigos abrindo a geladeira.
Ninguém nesse mundo é feliz.
Publicado em raspas e restos (crônicas) | Etiquetado felicidade, mariana miranda | 3 Comments »
Jacques Henri Lartigue é um fotógrafo curioso por que ele não é fotógrafo. Herdeiro rico, nunca trabalhou. Morava num castelo. Nunca foi à escola nem prestou serviço militar. Nem considerava a fotografia um ofício. Ganhou uma máquina aos oito anos e, durante a vida, foi sendo reconhecido pelos registros que fez aos fins de semana, dos seus próprios hobbies, das viagens em família.
Ficou famoso em todo o mundo.
Penso que esse cara gastou toda a sorte e talento dele numa encarnação só. Complicado. Na próxima, pode vir ao mundo como, sei lá, uma árvore. Um saco de boxe. Um peso de papel.
(Jacques Henri Lartigue / A Vida em Movimento)
Publicado em choro baldes (arte) | Etiquetado fotógrafo, jacques henri lartigue, mariana miranda | Leave a Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado legião urbana, mariana miranda, teatro dos vampiros | Leave a Comment »
“Pois que, na solitude de ser estrangeiro, pensando na mobília que havia abandonado e tentando ainda enxergar-me nela, eu me encantei com a sala vazia, com o espaço. E me pus a olhar pra distância, a ver o duplo que me espelha de fora.
(…) Eu sempre me senti estrangeiro, de um jeito ou de outro. Me mudando a cada três anos durante a infância e adolescência, fingindo ter o desprendimento e a coragem que acabei por inventar, mas carregando secretamente a mágoa do desvio, da espera e da volta.”
(Rodrigo Amarante / Cavalo)
Publicado em Sem categoria | Etiquetado cavalo, estrangeiro, mariana miranda, rodrigo amarante | Leave a Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado mariana miranda, mudar o mundo, tirinha | 1 Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado humor, mariana miranda, tirinhas | Leave a Comment »
Eles são jovens, belos e mimados, estão vivendo o auge da popularidade e, em algum momento entre os 20 e os 30 anos, vão tomar alguma decisão por capricho que arruinará suas vidas. Algum contemporâneo não se reconhece nesta descrição? Alguém aqui nunca teve a sensação inevitável de, nos últimos anos, ter morrido na praia? É difícil acreditar que não estamos falando de nós mesmos, hoje, agora: impulsivos, perdidos numa virada de século mal explicada, adiando uma vida adulta que já passou da hora, levando até o fim as obsessões mais desbaratadas.
Pretensiosos. Todos os protagonistas de F. Scott Fitzgerald são assim. O autor descreve os jovens americanos dos anos 20 de uma forma tão mordaz que faz essas teorias recentes sobre a geração Y parecerem um museu de grandes novidades. Toda juventude é antiga: a adolescência tardia, as farras mais ousadas, a euforia por um futuro brilhante que, no final das contas, nunca chega, “Destinados a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos” (1922, p. 125). As ruas ainda estão cheias de Anthonys, Glorias e Amorys irresponsáveis, vivendo de festas, jazz, vazio e amores obcecados. Metade do mundo desaprova. A outra metade morre de inveja.
Os romances de F. Scott Fitzgerald sempre surpreendem, mesmo que, no fundo, todos os protagonistas sejam ele e que todas as protagonistas sejam Zelda, em todos os livros. Mesmo depois da briga e da separação, dela adoecer sozinha na Europa: toda a bibliografia dele reescreve mil vezes a mesma história atormentada, interrompida, “uma presteza romântica como jamais encontrei em qualquer outra pessoa e que, provavelmente, jamais tornarei a encontrar” (1925, p.05). Lamentei quando, no ano passado, divulgaram que a canção do filme O Grande Gatsby foi desclassificada às vésperas do Oscar – ironicamente, morreu na praia. A letra era triste, desesperançada, repetia e repetia:
Você ainda vai me amar
Quando eu não for mais jovem e belo?
Você ainda vai me amar
Quando eu só tiver a minha alma amargurada para ofertar?
Em algum momento, todos aqueles personagens se perguntam isso. Quando a festa termina, quando o dinheiro acaba, quando os anos varrem quase tudo e a decadência se aproxima como se duas pessoas estivessem conversando e, no chão, suas sombras se alongassem uma sobre a outra. O que vai acontecer quando não formos mais jovens e belos? O que acontece depois dos bailes, dos diplomas, das conquistas, das vaidades? Essa pergunta já faz quase cem anos, há cem anos ela espera encadernada sobre a prateleira. Outros jovens vão deixando de ser jovens. E, até hoje, ninguém sabe a resposta exata.
.
.
.
Artigo publicado no jornal Público, de Portugal. Confira aqui.
Publicado em choro baldes (arte), raspas e restos (crônicas) | Etiquetado f. scott fitzgerald, literatura, mariana miranda, o grande gatsby, os belos e os malditos, young and beautiful | Leave a Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado jornal o globo, mariana miranda, música | Leave a Comment »
A ideia era fazer uma surpresa chegando no meio da festa de Natal. Eu estava do outro lado do país. Várias escalas no trajeto. Um dia inteiro de voo.
Ok.
Aí, no meio do caminho tinha uma turbulência. Uma turbulência no meio do caminho. Do nada. Céu azul. A coisa foi ficando séria.
Primeira conjectura: poxa, se eu morrer em pleno 24 de dezembro, vou deixar todo mundo traumatizado. (?)
Aí a luz apagou. Silêncio. Segunda conjectura: eu estou viajando sozinha, sem avisar, ninguém vai entender o que houve. Talvez se eu fotografar as condições climáticas pela janela, um dia os especialistas encontrem as imagens no meu celular e descubram por que foi mesmo que eu morri. (???)
Um alarme vermelho piscando. Terceira conjectura: vou trocar de lugar. A iluminação aqui está ruim. Eu realmente não preciso que as últimas fotos da minha vida sejam horrorosas. (????????)
O avião não caiu, é claro. Desembarquei à noite, segui direto para a festa. Entrei junto com o Papai Noel, numa dessas chegadas dramáticas, causando gritaria e desordem, como é do meu feitio. Foi engraçado. Todos berrando e correndo e levantando os braços, eufóricos, falando alto, lembrando histórias, gargalhando durante oito horas ininterruptas. A gente nem percebeu quando amanheceu e já era hora de eu retornar para o aeroporto. Voltar para o trabalho. Voltar para a minha vida.
No voo do retorno, mexendo no celular, achei por acaso essas fotos do dia anterior, que tirei durante a turbulência. Eu nem lembrava mais. Me surpreendi com a minha ridícula capacidade de arquitetar desfechos trágicos. Mas pensei também que teria sido uma pena se eu tivesse morrido antes daquela noite. Antes daquele reencontro. Antes da surpresa. Seria uma pena.
Aí eu pensei: estar vivo é bom. Um dia a mais pode fazer tanta diferença. A gente esquece disso, dessa sorte. Estar vivo é maravilhoso.
(Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2013)
Publicado em havaiana de pau (day life), na minha rolleiflex (fotos) | Etiquetado 2013, mariana miranda, natal, nuvens, surpresa, voo | 2 Comments »


















