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“Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietà, a mãe do homem.”

(Clarice Lispector / A Proteção Pungente)

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(Salvador, 13 de julho de 2007, 29 graus. Passo a passo: cartolina preta + abajur + Pietà em gesso 10cm + máquina fotográfica + madrugada insone e ociosa)

Não era pra ser ela. Era pra ser uma senhora grande, negra, poderosa, com uma história de vida sofrida num subúrbio do Brooklin e, pelo menos, uns 20 anos de jazz numa garagem suja antes do estrelato. Mas a dona da voz no rádio nem era americana, nem era negra, nem era nada do que a gente imaginava, do que a gente queria. Uma inadequada.

Acho que a gente só deu alguma atenção depois, por que ela chorava de amor no chão da cozinha. Por que era a garota que esperava num quarto de hotel a visita que nunca chegava, por que não aceitava ajuda dizendo que não, não, não queria se salvar. Você já conheceu alguém assim? Eu também conheço. Também tenho uma dessas morando lá em casa.

E o que era só uma personagem de tabloide estrangeiro foi ficando próxima, foi se materializando numa figura problemática, devotada e interessantíssima (redundância tripla?) que a gente tem vontade de abraçar, levar pra casa, botar colo e ninar dizendo – ah, eu sei que dói, querida, eu te entendo. Como ela mesma, levando torradas com queijo para os fotógrafos que pernoitavam na sua porta, aguardando pelo próximo escândalo. Ou, durante o concerto no Brasil, quando não conseguia acompanhar as músicas e, entre frases desconexas, repetia: oh, me desculpem por esta pequena interrupção…

Eu fico feliz em saber que, na minha geração, houve Amy Winehouse. Num mundo de Sandys, Britneys e Beyoncés meigas e bregas, mais objetos que sujeitos, mais vulgares que ousadas, houve alguém pra fazer música de qualidade e imortalizar uma das melhores frases do pop – you know, I’m no good. Por que a gente nunca foi mesmo, Amy. Mas faltava quem dissesse isso num microfone a sério, sem gritinhos histéricos nem rebolados contorcionistas. Ah, como faltava.

Acho que tudo era tão bom por que era espontâneo – e o que não é programado, às vezes, foge do controle. Já vejo a sua morte sair nos jornais, pais de família bradando “era uma drogada, onde o mundo vai parar com jovens como esses?”, todos com o controle remoto numa mão e o copo de uísque na outra. Deve ser difícil ser o purgatório de toda a loucura humana. Você não era a pessoa certa, não era a negra grande e poderosa que a gente esperava, mas vai fazer tanta falta. O que me consola é que, dessa vez, os fotógrafos vão ficar sem torradas. E você nem vai precisar pedir desculpas a tanta gente besta e sem talento por mais esta pequena interrupção.

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A primeira página

Eu me lembro do dia em que o Antônio Granado, que era professor de Jornalismo Digital – e nada tinha sobre Literatura em sua grade curricular – resolveu falar sobre romances literários numa das primeiras aulas do mestrado de Jornalismo. Ele disse que, infelizmente, o mundo contemporâneo estava exercendo uma seleção natural sobre a indústria das publicações: ninguém tinha tempo pra ler e, num universo incontável de títulos, as pessoas tendiam a dedicar-se a uma dúzia de livros necessários e insubstituíveis. E renunciar a todo o resto.

E acrescentou que, só depois de ler a primeira página, é que o leitor decide se vai prosseguir pelas próximas 99, 199 ou 599 folhas. Que a primeira página teria que ser, necessariamente, a mais interessante. E que os jornalistas teriam mais vantagens neste particular: estavam acostumados e fazer o lead (resumo da matéria no primeiro parágrafo) e a lidar com a falta de tempo dos leitores.

Bem, Granado, além de professor, já era um dos nomes mais atuantes da maior rede televisiva de Portugal. Um cara que dedicou a carreira a descobrir do que as pessoas gostam – oquê, como, onde, quanto e quando. E ele continuou argumentando, projetando no telão os primeiros parágrafos de vários romances famosos escritos por jornalistas, parágrafos que eram iscas irresistíveis para que, mesmo o leitor mais distraído e desinteressado, fosse seduzindo e levado por telepatia às livrarias do mundo inteiro. Como, em muitos casos, aconteceu.

Na tela, os primeiros parágrafos de Crônica de uma Casa Assassinada, Medo e Delírio em Las Vegas, Cem Anos de Solidão, dentre outros. Fiquei convencida.

Na noite do mesmo dia, eu tinha aula do mestrado de Edição de Texto – na época, eu ainda estava cursando os dois – com o professor Rui Zink, que é crítico de arte da FNAC. E ele afirmava que as pessoas não compram livros pelo enredo ou pela primeira página, mas pelo nome do autor. Assim como as pessoas não foram ao cinema assistir Volver ou Abrazos Rotos, foram assistir Almodóvar. Ou Hitchcock ou Woody Allen. Tanto faz se compram A Metamorfose ou O Processo, portanto que seja Kafka. Ou seja, o nome do escritor era uma espécie de grife literária e a editora que quisesse vender best sellers deveria gastar mais tempo criando mitos sobre o autor do que corrigindo e reelaborando seus textos. Afinal, todo mundo sabe Paulo Coelho é um bruxo, Oscar Wilde era um dândi e que Camões era caolho. Mesmo quem numa folheou um livro deles.

Depois, professor Rui acrescentou que a segunda coisa mais importante num livro era o título. E que, não por acaso, eram esses dois elementos que constavam na capa: o nome do autor e o título. Que um título instigante era um elemento tão decisivo no ato da compra que não deveria ser escolhido pelo próprio escritor, mas por um publicitário – afirmação que, é claro, escandalizou os meus coleguinhas e causou discórdia entre os alunos, redefinindo um novo conceito de fim do mundo – assim como seria responsabilidade do publicitário a diagramação da capa, a editoração do conteúdo e tudo mais.

Enfim*.

O fato é que eu voltei pra casa pensando nos dois argumentos. E, mesmo eles sendo tão diametralmente opostos, eu achei que, de alguma forma, os dois estavam corretos.

Desde então, passei a guardar o texto de primeira página dos romances que andei lendo, como quem tenta refazer o caminho do anzol até a isca – deu trabalho, sou presa fácil, leio coisas aleatórias – e continuo não fazendo ideia de que critério utilizei para decidir por cada um deles. Uma pena. Às vezes, acho que passar a vida crendo em conceitos como coincidência, sorte e destino pode ser, de alguma forma, como acreditar que os livros saíram das livrarias e foram flutuando sozinhos até a nossa estante. Um dia, a gente acorda, olha para a própria biblioteca e tenta reconhecer os títulos – e acha os autores tão distantes, os enredos tão complexos. A gente sabe que escolheu cada um deles. E não sabe dizer por quê.

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*Enfim, enfim. Acho que eu sempre utilizo a palavra “enfim” quando eu sei que poderia passar algumas horas discorrendo empolgadamente sobre determinado assunto, mas mataria as pessoas de sono. Como diria professor Granado, existem assuntos interessantíssimos que, infelizmente, só interessam a nós mesmos. Se você encontrou um “enfim” neste post, sorte sua! Você foi poupado, caro leitor.

** Sou capaz de publicar aqui estas “primeiras páginas” só para dar uma função prática a esta coleção inútil e diletante. Se alguém tiver algo semelhante, envia por e-mail, posto em anonimato. Juro.

Palácio Rio Branco

(Palácio Rio Branco, Salvador, 19/06/2011, 30 graus)

A arca

Acho que a parte mais difícil da minha readaptação (dá pra falar em readaptação depois de seis meses?) está sendo voltar a andar de ônibus. É duro. No fundo, acho que comprar um carro representaria, simbolicamente, um passo rumo a uma decisão de sedimentação perene na cidade do São Salvador de maneira longeva, adulta e estável. Logo, também não há planos neste sentido. Ou seja.

Aos indecisos, o limbo.

E o limbo nunca foi tão próximo do infeeerno. Vou resumir dizendo que houve uma noite em que eu desisti de bancar a madura, saltei de um ônibus e entrei num táxi. Eu já havia passado tempo demais representando a classe proletária e sofredora à espera do coletivo enquanto o céu fechava-se num Armagedom. Depois, embarquei num ônibus cheio que era a visão épica de um pesadelo mitológico. Ah, meus caros, não há Kafka, Schiller, Rubens Fonseca que ilustre assim o desespero humano. Procura terror de verdade? Pegue um ônibus em Salvador. Queria Dante escrever como o Seteps.

E, então, me veio, como uma iluminação, a idéia de que tudo aquilo era desnecessário. Que eu era uma pessoa inteligente, dotada de sorte, acolhida pela energia cósmica e que me seria concedida outra solução. Ainda que acontecesse um dilúvio messiânico eu seria poupada, porquê algo (um anjo? um príncipe? uma arca?) me salvaria. Algo como um táxi.

Mas, sabe, Deus não gosta de gente burra. Ele castiga.

O resgate dos céus me chegou dentro de um chevete de faróis apagados, pára-choque DOURADO e taxímetro na bandeira 2. Depois, o de sempre. A pergunta que todo taxista faz quando me busca nas proximidades de um bar:

– A senhora está bêbada, moça?
– Não. Eu sou assim mesmo.

Silêncio. Não dura.

– A senhora dirige?

E ele começa um discurso sobre os malefícios da bebida e tragédias automobilísticas enquanto o rádio toca uma daquelas pérolas da alta MPB – TÔ FAZENDO AMOR COM OUTRA PESSOOOAAAAA, MAS MEU CORAÇÃÃÃÃOOOO… – de modo que eu reflito numa forma de deixar de existir naquele tempo e lugar. Até que ele pega a rua errada.

– Moço, não é por aí.
– Mas o GPS disse que é.
– Mas eu tô dizendo que não é.
– A senhora quer saber mais que o GPS? HHUAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

Isso foi um grito.

– O QUE ACONTECEU, MOÇO, PELAMORDIDEUS???
– CEMITÉRIO, CEMITÉRIO!!

Ele gritou porque no meio do caminho tinha um cemitério, tinha um cemitério no meio do caminho. O babaca faz a volta no Jardim da Saudade feito um louco e retoma a pista que eu havia indicado enquanto respira por uma dessas bombinhas para asmáticos, daquelas que identificam um loser na multidão.

– Isso, agora o senhor vira à direita.
– Não, é à esquerda. O GPS tá dizendo que…
– Deixa pra lá, eu vou saltar aqui.

E, no minuto em que eu deixo o táxi, o que acontece? Hein? Hein? Chove. Chove baldes. Chove cântaros. Chove canivetes. Aliás, toda vez em que eu já tenho motivos suficientes para querer tirar as calças pela cabeça, chove, sempre chove, é uma espécie quarta lei da física (conheço tantas quartas leis da física que não sei como não tô com um Nobel lá em casa). Diante da circunstância desfavorável, reflito num suspiro. E faço o que toda pessoa madura faria: sento e choro. Aos soluços. Resistindo ao impulso infantil de ligar pra casa pedindo socorro talvez por quê, no fundo, eu ainda aguardava pelo resgate cósmico. É que nem encharcada na porta de um cemitério arrastando a minha existência pela madrugada deserta das ruas de Brotas eu deixo de acreditar que sou o centro do universo.

Fui andando para casa. Voltei à civilização, tomei um banho, fiz um chá, dei continuidade à minha vida de terráquea insignificante. E fui dormir aguardando pelo extermínio ou teletransporte.

Para desespero do caro leitor, nenhum dos dois aconteceu.

(São Paulo, 25 de junho de 2011, 17 graus)

Por quê originalidade é para os fracos.

Flocos

Dia de reunião de pauta sempre me lembra o drama-infantil-da-escolha-do-sorvete. Eu sei que você também já passou por isso. Acho que é uma espécie de rito de passagem ocidental: quando os pais escolhem um belo domingo de sol para levar seus filhos a uma sorveteria. Eles entram numa grande fila, apontam para uma tabuleta e dizem: “vai escolhendo o sabor enquanto não chega a nossa vez”. E pronto.

A criança vai ficar durante dez minutos olhando para aqueles 100.000 sabores, para todas aquelas possibilidades, e tem que escolher apenas um. E renunciar aos outros 99.999. A fila chegando ao fim, os pais impacientes perguntando “e aí? do que você quer?” e o coitado lá, torturado, angustiado, com o coração apertado, responde aleatoriamente: quero flocos.

FLOCOS.

De um universo de tantas escolhas possíveis, qual você quer? A mais sem graça, por favor. E vai do balcão para a mesa olhando em volta, vendo as outras crianças com cascalhos absolutamente coloridos, um mundo de opções desperdiçadas, assunto para anos de divã.

Não sei dizer quantos psicopatas a sociedade já produziu graças a este tipo de trauma – aonde está a Unicef que não se manifesta? – o fato é que toda reunião de pauta sempre me parece uma espécie de sorveteria onde minha mãe me perguntaria “do que você quer?” – entre as infinitos fatos interessantes que acontecem no planeta simultaneamente a cada minuto, você vai querer escrever sobre qual?

Eu não sei. E eu sofro. Penso nas possibilidades, teorizo, mordo o cotovelo e peço… flocos.

Rs.

É isso. Para quem decidiu passar a manhã escrevendo sobre a TECNOLOGIA UTILIZADA NA PRESTAÇÃO DE CONTAS DOS IMPOSTOS ARRECADADOS POR MUNICÍPIOS DE PEQUENO PORTE, bom dia.

Over the rainbow

(São Paulo, 26 de junho de 2011, 18 graus)

Remédios

Tem sempre um momento no ano em que recai sobre mim uma aura fatalista e eu me convenço de que estou perdendo a razão. Assim, ficando louca. E, antes de procurar um acompanhamento psicológico a sério, é claro que eu sempre faço o caminho mais complicado, longo e difícil, percorrendo todas as entidades filantrópicas, universidades, ongs de psicologia e alternativas para lunáticos sem renda que conversam com caixas de sapato no meio da rua – por quê nem quando fico doida eu tiro o escorpião do bolso – e, este ano, acabei conseguindo uma vaga no serviço de psicologia de um hospital público.

Visualize.

Pois bem. Era até um lugar muito tranquilo. Na sala de espera, três ou quatro pessoas também aguardavam, tocava música clássica no radinho e eu fiquei sentadinha mexendo no celular. Muito pacificada por quê, no fundo, eu já sabia o que tinha de fazer: esperar ser chamada, sentar numa cadeirinha e contar meus problemas para a psicóloga. Só isso. Até que veio uma moça lá de dentro:

– Você está esperando por remédios?

E eu, com minha cara de Monalisa, levanto as sobrancelhas e respondo que não. Acho que não, né? Suponho. Será que eu preciso de remédios? Não que esta fosse uma alternativa completamente descartada, mas é que eu nunca havia cogitado – achava que química só era usada nos casos em que o paciente era perigoso, sei lá, eu sempre fui uma insana inofensiva. E eles nem haviam me consultado ainda, por quê já estavam oferecendo medicamento?

E a moça foi embora. Do meu lado, um senhor fumava na janela, muito sério. Devia estar aguardando por remédios também. Vai ver todo mundo ali tomava algum tipo de tarja preta, né, talvez só atendessem os casos graves. Que tipo de patologia devia ter o cara? Careca, camisa de botão, cara de funcionário público, devia ser um daqueles velhinhos que surtam no escritório e esfaqueiam o colega de trabalho com a espátula de abrir envelope. Ele olhou pra mim. Desviei para o celular. Do outro lado da sala tinha uma mulher toda maquiada, de salto alto, com uma sacola de criança. Mas sem a criança. Talvez depressão pós-parto. Matou o bebê, fugiu do hospital e agora vaga desorientada carregando a tal sacola pelas maternidades afora – não dava pra saber. Ela estava falando alguma coisa para um rapaz que sentou na última cadeira, cabelo espetado, gordinho, cara de bobo. Vítima de bullying, sem dúvidas. Coitado. Acabou viciado em carboidratos. Passou um tempo desaparecido, a família fazendo buscas, os amigos nunca mais ouviram falar, foi encontrado todo esfarrapado morando na Cracolândia com um estoque Negresco debaixo do braço.

Aí, de repente, a moça voltou. Dessa vez nem me perguntou nada e foi me encaminhando para o corredor. E eu fui atrás meio cabisbaixa por que, meu Deus, qual seria o meu destino agora? Receitariam antidepressivos? Estimulantes? Hormônios? Quanto tempo iria levar até me encontrarem babando, revirando os olhos e batendo a cabeça na parede do Ana Nery? Eu só queria uma psicóloga. Uma doutora doce e paciente que me deixasse falar sobre a minha vidinha durante 50 minutos de consulta, anotasse umas coisinhas num bloquinho e me dispensasse dizendo: muito bem, Mariana, você está progredindo. Mesmo que fosse mentira. A verdade é que, até hoje, ninguém nunca tinha sido sincero o bastante pra dizer que eu precisava me dopar. Gente, eu só queria um ombro amigo! Adiantava explicar isso para os médicos? Adiantaria alguma coisa? Quem iria escutar uma louca?

No fim do corredor, o consultório. A moça foi abrindo a porta pra mim, muito educada. E havia uma placa de acrílico no alto na porta onde estava escrito:

“Médica plantonista: Dra. Ana Paula Remédios.”

Esse é um anúncio da Vivo feito pela agência África, do Nizan Guanaes.

Sabe, eu fico confusa e me pego meditando sobre a teoria do caos quando percebo que este clip foi feito pelo mesmo cara que fez aquele vídeo medonho da campanha política do José Serra, com Regina Duarte, em 2005. Entre outras esquisitices. E penso sobre as contradições do lamaçal verde-musgo da alma humana, sobre a esquizofrenia que aflige um cérebro capaz de uma criação tão estúpida e de outra tão bacana. Meu Deus, quanto tempo perdido! Se o cara sabe fazer algo bom, por que manchar a própria reputação com essas maluquices, por que o cidadão insiste em gastar metade da existência dele empenhado em idéias absolutamente idiotas?

Aí, meio por acaso, alguém me informa que Nizan Guanaes é geminiano.

E eu esboço um “Ahhhhhh”.

Né? Claro que é. E o mundo volta a fazer sentido.