Hoje acordei com a minha caçula pintando as paredes da casa com pasta de dente, alguém deixou um refrigerante estourar no freezer e chegou um e-mail dizendo que meu texto foi recusado por que estava faltando – veja bem – o meu próprio nome. Eram oito da manhã e eu já estava bem chateada, então decidi desabafar com uma colega mandando um áudio de Whatsapp, só que enviei o áudio para um antigo grupo feito em homenagem a ela (o grupo tinha o nome dela e a foto dela no perfil) onde estavam todos os nossos CHEFES E COLEGAS DE TRABALHO. Imediatamente me desculpei com todos, deletei a mensagem e me exclui do grupo e estou desde cedo recebendo dezenas de vídeos motivacionais pelo Whatsapp privado.
Falar de amor como se fosse algo casual como contar um dois três cantar parabéns em aniversários dizer saúde depois de um espirro e bom dia depois de acordar e boa noite antes de dormir como se fala oi tudo bem e se responde tudo e como você e se diz quanto tempo passe em casa que saudade vamos nos falando.
Hoje, há exatos dez anos atrás, eu estava na África, no deserto do Saara, na fronteira com a Mauritânia. A gente havia cruzado o Marrocos de jipe durante o dia e, quando a estrada acabou, continuamos o percurso de camelo. Cruzar a divisa de um país para o outro no meio da madrugada sobre um camelo já seria uma aventura por si só, mas não era só isso. O Saara estava em guerra.
Eu precisava de fotografias e depoimentos de como estavam as comunidades. Pessoalmente, acredito muito nos movimentos de descolonização, inclusive também apoiava o reconhecimento do Saara Ocidental enquanto país soberano, depois de anos de domínio espanhol e marroquino. Esse é um conflito antigo e a independência plena não aconteceu até hoje, mas em 26 de fevereiro de 2010, embalados pela Primavera Árabe, os confrontos recomeçaram e duraram até maio de 2011. Neste período, estive pelas mediações três vezes.
Naquela noite específica, os beduínos montaram uma tenda e ascenderam uma fogueira. O céu estava tão incrivelmente estrelado que me fez elaborar várias teorias aleatórias – tipo, deve ser por isso que a estrela e a lua são símbolos otomanos, observe que os países pós-otomanos estão em torno de desertos e quase todos têm estrelas em suas bandeiras (Marrocos, Mauritânia, Turquia, Paquistão, Jordânia, Argélia etc.) por que a noite num deserto é realmente cinematográfica, olha para isso, está tudo explicado.
Os beduínos estavam cantando e dançando à volta da fogueira, depois serviram um prato de cordeiro com cuscuz em quantidade obviamente insuficiente para doze pessoas e eu fiquei esperando para perguntar aonde a gente iria dormir. Era ali mesmo, na areia. Todos juntos. Estávamos no auge do inverno e, se os doze desconhecidos não dormissem fortemente abraçados, não sobreviveriam ao vento e ao frio. Apenas.
Foi uma noite insana.
A temperatura caiu de repente e eu não conseguia sentir nem os meus dentes. Não tenho ideia de quem eram as pessoas que eu abraçava com vigor e que me impediram de morrer de hipotermia. Eu estava usando todas as minhas roupas sobrepostas e, depois que todos dormiram, como se não houvesse problemas o bastante, eu precisei me levantar para procurar um banheiro. Não preciso dizer que não havia banheiro. Fui me desvencilhando de braços e pernas de estranhos até conseguir ficar de pé. Aí eu olhei em volta.
Eu nunca tinha visto nada parecido.
Uma madrugada clara e brilhante. Extraordinária. A noite no deserto não era de céu negro como a noite na cidade, era de um azul forte com manchas roxas, um emaranhado de galáxias. A lua cheia sobre aquele mar de dunas por todos os lados, como se grandes ondas tivessem virado areia um segundo antes de quebrarem na praia. Um enorme vácuo, só o vento forte indo do oriente para o ocidente, um silêncio de tudo. Se você se concentrasse por um minuto, poderia ouvir a respiração de Deus.
Depois que eu voltei a deitar, fiquei com os olhos abertos para o céu. Entregue no silêncio do vazio absoluto. Como James Joice, “Estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”.
Levantamos antes do nascer do sol para desmontar a tenda, subir nos camelos e seguir para Ouarzazate, uma cidade feita de barro. No caminho, eu pedi para descer, queria tirar uma foto do grupo. Eu não contava que a areia estava batendo na minha coxa e que eu teria que ir nadando naquele mar de areia para acompanhar a fila de camelos que seguia sem nenhuma dificuldade. Tinha que ser rápida. Foi aí que fiz essa foto que está, hoje, ampliada num quadro da minha sala. Tanta coisa aconteceu nesta viagem, mas essa é a melhor recordação que eu trouxe de lá. Eu adoro essa foto.
Por coincidência, dez anos depois, eu estou exatamente diante deste quadro, trabalhando. O quadro está dentro de um apartamento comum, dentro de uma vida padrão. E eu estou escrevendo um artigo sobre um outro país africano, também em processo de descolonização – este outro, felizmente, num estágio mais avançado. Às vezes, eu interrompo o trabalho para levar o lixo lá fora. Ou para lavar os pratos. Ou para atender o interfone. E o porteiro que me interfona não imagina que a senhora do 802 estava na Guerra do Saara durante a Primavera Árabe.
Dizem que, depois que os primeiros astronautas voltaram da Lua, eles entraram em depressão até o fim da vida. Como se, depois de terem experimentado um evento tão extraordinário, a existência rotineira tivesse deixado de fazer sentido para eles. E eu entendo. Mesmo. A verdade é que eu vivenciei experiências incríveis durante quinze anos e, depois, fiz escolhas incompatíveis com aquele formato de vida. Eu deixei o trabalho de campo em 2016. Entendo que tudo o que eu produzo hoje, daqui do computador, também é importante e necessário. Que há muitas formas de contribuir com a engrenagem de um planeta em rede. E que ninguém pode ter tudo nessa vida. Eu sei.
Eu compreendo perfeitamente tudo isso.
Mas ainda há as noites de lua. E ainda há esse quadro pendurado na parede.
“Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia. É o início do Declínio e a Queda do Ocidente, como Splenger dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. Eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV.”
As pessoas se sentem privilegiadas pela presença dele. Com um faixo de luz que iluminasse a sala de repente, a sua chegada quase sempre é anunciada pelos comentários que vão abrindo portas antecipadamente. Dessas personalidades excêntricas que parecem colocar o resto do mundo em marca d’água, cooptando adeptos para um modo de ver a vida aberto a infinitas possibilidades – que, se ainda não se concretizaram, seria apenas por uma questão de tempo ou por causa dos invejosos que não podem suportar as qualidades que você certamente possui. Perto dele, todos são gênios incompreendidos, mentes superiores prestes a serem aclamadas pelo reconhecimento inevitável.
Todos sentem prazer no sentido grandioso que ele traz para suas vidas e acabam tornando-se dependentes disso, como de uma droga poderosa capaz de lhes fazer levantar da cama todos os dias. E, em troca, cedem aos seus caprichos mais desbaratados e lhe perdoam faltas imperdoáveis, começando aí um ciclo doloroso. Por que ele podia fazer alguém sentir-se extraordinário por algumas horas, mas, no dia seguinte, lembraria vagamente o nome do interlocutor. Enquanto restaria ao outro esforçar-se para atrair sua atenção novamente, oferecer-lhe favores, ávido por outra oportunidade de se sentir especial.
Contam uma história, não sei se é verdade. Quando ele se tornou professor de História, não estava preparado para a função. Ainda assim, os alunos o adoravam. Se lhe faziam uma pergunta difícil, ele simplesmente inventava a resposta. Criava enredos fantásticos sobre Napoleão, Cleópatra, Getúlio, ficções completamente descabidas. Sempre imaginei aquele homem enorme, cabelos longos e olhos verdes, narrando qualquer absurdo com uma oratória impecável. Contando qualquer maluquice com um carisma indefectível. Dizem que nenhum dos alunos jamais contestou a verdade. Naturalmente. Eu também não contestaria.
Ele fez parte da minha vida desde sempre, mas lembro de uma noite específica em que ele me explicava a diferença entre o Washington Olivetto e eu: a única diferença é que você é mais jovem, vai poder fazer tudo que ele fez, só que muito antes. Eu não concordava, mas não conseguia rebater o argumento. Depois, ele começava a planejar um futuro fabuloso para nós – um chalé na montanha, um barco, uma piscina do tamanho de um campo de futebol, o que acha? Já que eu era muito inteligente e seria, obviamente, milionária, teríamos tranquilidade dentro de um oásis exótico. Os projetos eram megalomaníacos, algo entre o completamente doido e o simplesmente adorável. Era maravilhoso estar com ele. Quando eu conseguia estar com ele.
Porque, dias depois de projetar uma vida perfeita para nós, ele era capaz de marcar um jantar comigo e não aparecer. Ou de me deixar esperando na porta do dentista ou na janela de casa ou de cometer qualquer vacilo terrível de forma que nem adiantava ficar com raiva, por que nada parecia proposital. Minha vida oscilava entre me sentir especial iluminada a framboesa de ouro escolhida pelos deuses ou me sentir um verme abandonado na sarjeta da desimportância. E eu passei muito tempo me esforçando para ser lembrada. Sendo a mais inteligente, a mais bem-sucedida, a mais brilhante, a mais inesquecível. Observe que loucura. Existe ambição mais inútil que tentar ser inesquecível?
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“Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.”
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Parece óbvio, mas a verdade é que algumas pessoas nos viciam. A gente vicia no elogio grandioso, mesmo que não seja real. Nos projetos fantásticos que nunca vão se realizar. A gente vicia ineditismo, na aventura empolgante, em qualquer coisa que faça-nos sentir únicos e potentes, mesmo que isso custe a nossa sanidade. Como tantas outras pessoas, eu estava viciada nas hipérboles de meu pai. E vivia uma abstinência de cortar o coração. Estava viciada nele invadindo o pátio da escola com caixas de presentes, matando meus colegas de inveja. Nele colocando um ônibus particular na porta do colégio para eu levar quem eu quisesse para a festa. Nele chegando no aniversário com um cavalo de verdade para mim, igual aos dos contos de fadas. Quando ele trouxe um lote de 200 coelhos brancos para animar a nossa Páscoa, meus primos disseram que eu tinha sorte de ter um pai tão fantástico. E eu admitia. Mas também percebia a sorte deles. Por que era ótimo ter um tio excêntrico capaz de surpresas inacreditáveis quando já se tem um pai como os outros, que lembra a dose do remédio e a hora de buscar no dentista.
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“Faço promessas malucas,
tão curtas
quanto um sonho bom.”
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Eu já estava adulta, perdida e exausta quando decidi renunciar. À extravagância, à instabilidade. Acho que passei metade da minha vida nesse processo de desintoxicação. Tentando não me sentir fracassada por não ter tido um destino excepcional, tentando não me sentir miserável cada vez que alguém me ignorava – que terrível a ideia de ser esquecida outra vez. Recuando do fascínio das pessoas emocionalmente irresponsáveis, dos que fomentavam expectativas que não podiam cumprir. Mas, principalmente, recuando da minha própria vocação para me tornar a cópia do meu pai. Se você olha muito para o abismo, o abismo olha para você.
(Entre os heróis de gibi, sempre há alguém que nasce com um superpoder destrutivo e faz o juramento de não utilizá-lo para o bem de todos. Eu sou boa com elogios. E eu evito elogiar as pessoas. Sei que posso fazê-las ascender às nuvens, mas não posso evitar que despenquem de lá).
Na época da faculdade, eu estava dirigindo e tinha um carro na minha frente indo muito devagar. Eu fiquei fazendo sinal e perdendo a paciência por uns dez minutos. Quando ultrapassei, o motorista era ninguém menos que meu pai. Ele estava rindo, tinha feito de propósito: “Por que ficou passando raiva atrás de mim? Por que não tomou logo a outra pista?”. Eu gargalhei, gritando um palavrão. Mas nunca soube responder a essa pergunta.
Certa vez, eu tive um dia ruim e ele disse: venha dar uma volta comigo, você está precisando fazer algo interessante. Ele me levou à casa de um amigo dele que tinha vinte cachorros e um jacaré na piscina – Olha, preciso reconhecer, você me levou a um lugar interessante – Mas o interessante era passar a tarde comigo, jacaré na piscina qualquer um pode ter!
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“Meu pai tem Alzheimer e todo dia me pergunta que dia é hoje. Eu digo que é Dia dos Pais e tasco-lhe mais um abraço.”
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– Pai, tava lembrando de uma viagem que fiz, nem sei mais o nome do lugar. Senti um magnetismo estranho, até chorei quando fui embora. Não faça piada disso.
– Não vou fazer piada. Na verdade, eu senti isso uma vez, você não era nascida. Era uma praia que parecia querer que eu ficasse.
– Uma praia?
Era o mesmo lugar.
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Na década de 70, ele estava viajando com um amigo e o velho fusca estancou na ladeira. Um carro de luxo ficou buzinando atrás e meu pai simplesmente engatou a ré. Esmagou um carro no outro, depois acelerou e foi embora. Anos depois, ele se casou, o amigo também e cada um teve uma filha. Nós duas costumávamos viajar juntas e só eu não conhecia essa história. Quando meu primeiro Fiat estancou na ladeira, um carro de luxo buzinou atrás. Antes que eu engatasse a ré, ela pulou do carro gritando – mas que Édipo filho da puta!
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“Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietà, a mãe do homem.”
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Hamlet é a história de um filho que tenta vingar a morte do pai. E sempre me intrigou o fato de ambos terem o mesmo nome: Hamlet é o patriarca ausente e Hamlet é o filho solitário. Hamlet é o fantasma que atormenta Hamlet. Como se os dois fossem indissociáveis! Talvez fosse essa a verdadeira tragédia.
Os livros de Kafka têm algo em comum, todos tratam de problemas sem solução. Menos um, que ele não quis publicar, o Carta ao Pai. É uma correspondência de mais de cem páginas que nunca foi enviada: “Pai, (…) minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.
Meu pai só chorou quando Bob morreu. Bob era o vira-latas que alegrava a casa, achado na rua, feio feito a fome. De um jeito que eu nunca tinha visto, ele lamentou não ter cuidado mais, tratado antes, feito melhor. Chorou por Bob de todo coração. Eu, adulta, assistia ao drama e não entendia. Parecia o remorso de uma vida inteira.
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“Dizem que embaixo do sarcasmo
Existe uma segunda camada mais viscosa de sarcasmo
Mas na quarta ou quinta você descobre
Uma vontade desesperada de amar
Tem que descascar”
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Eu herdei as grandes sobrancelhas. Herdei a inclinação ao exótico, a vida social agitada, o gosto pelo microfone. Herdei o deboche espinhoso, o egocentrismo e a personalidade hedonista. Mais do que tudo da infância, meu Deus, eu levei um coração partido. Que desconfia de promessas, que é insensível a romantismos. Senhoras e senhores, é bem difícil me impressionar. Só acredito em quem lembra da hora do remédio e o dia de buscar no dentista.
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“Eu compro o que a infância sonhou
Se errar, eu não confesso
Eu sei bem quem eu sou
Eu nunca me dou.”
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Sempre achei graça das camisas coloridas. E da pizza requentada três vezes ao dia. Amei as sandálias havaianas em restaurante de luxo e o paletó italiano no acarajé da esquina, ganhar brinquedo até os trinta, amei ir de Salvador ao Rio a 50km por hora só para irritar os outros na estrada. Mas odiei ter pego três aviões para te encontrar no Natal e ter ouvido apenas que estava atrasada. E sempre que o dia dos pais perdeu para outro evento que te pareceu mais importante. E a camisa de presente que cansou de esperar no armário e coube perfeitamente no porteiro. Eu sabia que merecia mais. Justo de quem dizia que eu nunca deveria aceitar menos.
Meu pai é o Cavalo de Troia que alegrou a minha infância e fez uma algazarra com a minha vida adulta. É o Sinatra estourando champagne, é o Rei do Gado, é o meu Malvado Favorito. É o Bukowski brigando com o seu pássaro azul. Como numa parábola às avessas, em que é o pai pródigo quem retorna arrependido, às vezes ele me pergunta se eu gosto do Raul Seixas. Se curto o maluco beleza da mosca da sopa que não quer tirar onda de herói. E eu olho bem nos olhos dele – pai, e quem não ama o Raul?
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“Uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; (…) na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido.”
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A primeira imagem de pai na mitologia é Urano, o pai ausente. Que foi destronado por Saturno, o pai dominador. Que foi destronado por Zeus, o pai zeloso. E faz séculos que a humanidade aprimora modelos de paternidade moderna, mas eu resumiria a epopéia num único mandamento: nunca esqueça sua filha de pé, na porta de casa, no dia do aniversário dela.
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“Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina.”
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Um dia desses, eu estava dirigindo e havia um carro muito lento na minha frente. Eu sabia que era ele, mas ele não tinha me visto. Esperei quieta, como quem toma coragem. Ultrapassei devagar, ele me viu e eu acenei tranquila. E essa foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na vida: ter seguido em frente.
É isso.
Eu te amo muito, pai. Mas, finalmente, eu tomei a outra pista.
Obs: respondendo às mensagens, está tudo ótimo comigo e com meu pai! Foi só o meu psicanalista que mandou escrever sobre episódios do passado e eu estou humildemente obedecendo 🙂
“Raramente penso em ti. Teu destino pouco me interessa.
Mas de minha alma ainda não se apagou o brevíssimo encontro que tivemos.
Evito, de propósito, tua casinha vermelha, tua casinha vermelha junto ao rio lamacento; mas bem sei com que amargura perturbo a tua ensolarada quietude.
Embora não te tenhas inclinado sobre mim suplicando-me que te amasse, embora não tenhas imortalizado o meu desejo em versos dourados, secretamente lanço encantamentos para o futuro, sempre que as noites são de um azul profundo, e tenho a premonição de um segundo encontro, um inevitável segundo encontro contigo.”
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(da russa Anna Akhmátova, no poema “Raramente Penso em Ti”, de 1913, tradução de Lauro Machado Coelho)