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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

“Os canhões formavam uma harmonia como nunca existiu no inferno.” (Pág. 28)

“Será que há algo mais tolo do que querer carregar sem trégua um fardo que sempre poderíamos jogar no chão? Sentir horror pelo seu ser e estar apegada a esse mesmo ser?” (Pág. 46)

“Se nosso amigo Pangloss tivesse visto o Eldorado, teria deixado de dizer que o castelo de Thunder-ten-tronckh era o que tinha de melhor na Terra. A verdade é que é preciso viajar.” (Pág. 59)

(Voltaire / Cândido)

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“Quem não tem amigo viaja sem bagagem.” (Pág. 32)

“Se o cansaço é uma velhice súbita, eu já me contava pelas últimas idades.” (Pág. 41)

“Ambos queríamos partir. Ela queria partir para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Eu nunca seria capaz de me retirar, virar as costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar.” (Pág. 90)

“A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.” (Pág. 118)

“Hoje é domingo. Amanhã também.” (Pág. 137)

“Naquela altura, não havia nenhuma elevação, tudo em volta era planície. O morto começou a crescer debaixo da terra e suas costas encurvaram, empurrando o chão. Foi assim que nasceu a montanha.” (Pág. 150)

“Por que esta guerra não foi feita para vos tirar do país, mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma.” (Pág. 194)

(Mia Couto / Terra Sonâmbula)

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“Obtinha os mais belos pedaços de alcatra, de pernil de vaca e de mocotó de vitela, tal como Michelangelo quando passava oito meses nas montanhas de Carrara para escolher os blocos de mármore mais perfeitos para o monumento de Júlio II.” (Pág. 40)

“Tinha o maior escrúpulo de que todas as minhas palavras fossem o mais sincero equivalente possível do que havia sentido e que jamais tentara formular. O que significava que minhas palavras não tinham qualquer clareza.” (Pág. 48)

“Entre dois adversários, a vitória será daquele que sabe sofrer um quarto de hora a mais, diriam os japoneses.” (Pág. 59)

“Digamos que o seu desejo mais ardente seja o de humilhar o homem que o ofendeu. Porém, se você nunca mais ouve falar nele, caso ele tenha se mudado para outras terras, seu inimigo acabará por não ter mais nenhuma importância para você. Se perdemos de vista, durante vinte anos, todas as pessoas por causa de quem gostaríamos de entrar para o Jockey ou para o Instituto, a perspectiva de sermos membros de alguma destas instituições já não nos tentará de modo algum. Tanto um retiro, como uma doença, uma conversão religiosa, uma ligação prolongada substituem as imagens antigas por outras novas.” (Pág. 67)

“É sempre devido a um estado de espírito que não está destinado a durar muito que tomamos resoluções definitivas.” (Pág. 188)

“Quanto às mulheres que não nos amam, como no caso dos ‘desaparecidos’, saber que não há mais nada a esperar não nos impede de continuar a esperar. A gente vive à espreita, à escuta. Mães cujos filhos partiram para o mar para uma expedição perigosa imaginam, a todo instante, mesmo depois de terem certeza de que morreram, que eles vão entrar em casa, miraculosamente salvos e bem de saúde.” (Pág. 201)

“Eu era como um pobre que mistura menos lágrimas a seu pão seco se diz a si mesmo que dali a pouco um estranho vai lhe deixar toda a sua fortuna. Para tornar a realidade suportável, somos todos obrigados a alimentar pequenas loucuras dentro de nós.” (Pág. 202)

“Não somos exigentes, nem bons juízes, acerca das coisas que não nos interessam.” (Pág. 243)

“Fazemo-nos moralistas quando somos infelizes.” (Pág. 244)

“Eu ainda era muito jovem e sensível para ter renunciado ao prazer de agradar às pessoas.” (Pág. 293)

“A fotografia ganha um pouco da dignidade que lhe falta quando deixa de ser a reprodução da realidade e nos mostra coisas que já não existem.” (Pág. 393)

“Podemos ter inclinação por uma pessoa. Mas, para desencadear esta tristeza, este sentimento do irreparável, estas angústias que preparam o amor, é necessário – e é talvez isso, e não uma pessoa, o próprio objeto que a paixão deseja ansiosamente estreitar – o risco de uma impossibilidade.” (Pág. 466)

“Há uma separação entre o sonho e a vida tão frequentemente útil de se fazer que me pergunto se não se deveria, haja o que houver, praticá-la preventivamente, como certos cirurgiões dizem que é necessário extirpar o apêndice de todas as crianças para evitar a possibilidade de uma futura apendicite.” (Pág. 478)

“Não existe homem, por mais sábio que seja – disse-me – que não tenha, em certa época de sua juventude, pronunciado palavras ou até levado uma vida cuja recordação lhe seja desagradável e que ele desejasse ver abolidas. Mas não deve lamentá-la de todo, pois não pode estar seguro de ter se tornado um sábio, na medida em que isso é possível, sem passar por todas as encarnações ridículas ou odiosas que devem precedê-la.” (Pág. 501)

“As coisas de quem mais a gente procura fugir são as que chegam sem que possamos evitá-las.” (Pág. 570)

(Marcel Proust / Em Busca do Tempo Perdido II: à sombra das moças em flor)

 

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“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma. Todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um pedaço de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido uma montanha ou a casa de um amigo, ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui porque faço parte da humanidade. Por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.”

Este parágrafo do texto Meditação 17, do religioso John Donne, séc. XVII, serviu de inspiração para o romance de Ernest Hemingway: Por Quem os Sinos Dobram, de 1940. Três anos depois, o livro virou filme e ganhou o Oscar. Depois, a obra foi traduzida para o português por Monteiro Lobato. Em 1985, a banda Metallica gravou uma música inspirada no tema e com o mesmo título: Por Quem os Sinos Dobram. No Brasil, Raul Seixas fez outra composição com este nome. O texto inspirou também a música Elegia, gravada por Caetano Veloso. Dentre outras releituras, em outros lugares, em outros idiomas.

Curioso é que tudo isso parecia estar mesmo previsto na própria obra Meditação 17, no terceiro parágrafo:

“Quando um homem morre, um capítulo não é arrancado do livro, mas traduzido para uma linguagem melhor. E assim deve ser. Deus emprega inúmeros tradutores: algumas peças são traduzidas pela idade, algumas pela doença, algumas pela guerra, algumas pela justiça, mas a mão de Deus está em cada tradução e Sua mão reunirá outra vez todas as nossas folhas espalhadas formando a biblioteca onde cada livro deverá permanecer aberto aos outros. Da mesma maneira que, quando o sino toca chamando para o sermão, não convida apenas o pregador, mas também toda a comunidade. Nos chama a todos, e ainda mais a mim.”

A influência do autor já virou a esquina do novo século e tudo conspira para perpetuar esta ideia de que as pessoas não morrem, de que cada um continua através dos que ficam. Como o próprio John Donne, que morreu sem ter publicado um único poema. Mas por quem, até hoje, os sinos continuam dobrando.

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por quem os sinos dobram

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“Era estranho estar voltando novamente à Espanha. Jamais esperava retornar ao país que amara mais do que a qualquer outro além do meu.” (Pág. 47)

“No entanto, a maior parte deste tempo, foi como se estivesse na cadeia, só que preso do lado de fora, não de dentro.” (Pág. 50)

“Pamplona não é um lugar que se leve a esposa. Você até pode trazê-la. Mas correrá o risco de a perder para um homem melhor do que você.” (Pág. 145)

(Ernest Hemingway / O Verão Perigoso)

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“Talvez pela primeira vez em minha curta vida, senti, quase até o limiar da minha compreensão e da consciência, como tão indizivelmente duas criaturas humanas bem intencionadas uma com a outra podem desentender-se, atormentar-se e torturar-se reciprocamente.” (pág. 37)

“Goethe disse em Egmont: o homem pensa que dirige a sua vida, que se conduz. Mas o seu íntimo é arrastado irreversivelmente na direção do seu destino.” (pág. 64)

“Ela não resistiu ao convite, nem ao sorriso jovem que brilhou por um momento no rosto triste do homem, conferindo-lhe uma estranha beleza, como um papel de parede vistoso que alegra a última parede de uma casa incendiada e em ruínas.” (pág. 94)

“Nunca se era mais completamente abandonado por uma pessoa íntima do que quando essa pessoa dormia. E, como tantas vezes antes, veio a ideia da imagem de Jesus a sofrer no Jardim das Oliveiras sufocado pela angústia da morte, enquanto os discípulos dormiam e mais dormiam.” (pág. 104)

(Hermann Hesse / O Último Verão de Klingsor)

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“Sorria e aceite. Isso é melhor que a outra alternativa.”

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(Charles Bukowski / Queimando na Água, Afogando-se na Chama)

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“Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.” (pág. 25)

“Atravessei os mares, deixei cidades ficar para trás e subi os rios ou penetrei pelas florestas e buscava sempre outras cidades. Possuí mulheres e joguei à pancada com os homens. E nunca podia volta atrás, como um disco não pode girar ao contrário. E tudo isso me leva aonde? A este minuto, a este acento, a esta bolha de claridade sussurrante de música: and when you leave me.” (pág. 32)

“Deve ser uma transformação tão grande. Se, um dia, eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu caráter… e, à volta, compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.” (pág. 43)

“Quando se vive, não sucede nada. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem. Nunca há princípios. Os dias sucedem aos dias, sem tom nem som, é um alinhamento interminável e monótono. De vez em quando tira-se uma nota parcial, diz-se: há três anos que ando a viajar, há três anos que estou em Bouville. E fins também não há: nunca se deixa uma mulher de uma só vez, nem um amigo, nem uma cidade. E, depois, tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de quinze dias, é tudo o mesmo. Em certos momentos – raras vezes – deitam-se contas à vida, percebe-se que estamos ligados a uma mulher, que nos metemos uma boa confusão. Como um clarão, o momento passa. Então o desfile recomeça, voltamos a alinhar as horas e os dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926. Viver é isto.” (pág. 49)

“Dentro de quatro dias voltarei a ver Anny: esta é, por agora, a minha única razão para viver. E depois? Quando Anny me tiver deixado? Vejo bem que, pela calada, vou esperando: vou esperando que ela nunca mais me deixe. Devia saber muito bem, entretanto, que Anny nunca se sujeitará a envelhecer diante de mim. Sou fraco, tenho precisão dela. Gostaria de estar em forma quando a vir: Anny não tem piedade dos destroços.” (pág. 118)

“Tudo o que existe nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto.” (pág. 151)

“Tu és um marco – diz ela – um marco à beira duma estrada. Explicas impertubavelmente e explicarás toda a vida que Melun fica a vinte e sete quilômetros e, Montargis, a quarenta e dois. É por isso que preciso de ti. (…) Preciso que existas e que não mudes.” (pág. 155)

(Jean-Paul Sartre / A Náusea)

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“Impossível ordenar o mundo dos valores. Ninguém coloca ordem na casa do capeta.” (Pág. 55)

“O povo é só e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina.” (Pág. 60)

“Te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia!” (Pág. 61)

“A desordem também privilegia, a começar pela força bruta.” (Pág. 62)

“Se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado.” (Pág. 63)

“Fácil concluir que dois e dois são quatro à sombra de uma figueira, queria ver alguém puxar linhas e outros segmentos, fechar rigorosamente um círculo, demonstrar enfim um teorema em plena fogueira do inferno.” (Pág. 68)

“Eu fiz de conta que esqueci de tudo e que o mundo agora só tinha aquele apertado metro de diâmetro.” (Pág. 71)

“A culpa melhora o homem. A culpa é um dos motores do mundo!” (Pág. 80)

“As palavras – impregnadas de valores – cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original, assim como atrás de cada gesto sempre se escondia uma paixão, me ocorrendo que nem a banheira do Pacífico teria água bastante para lavar e serenar o vocabulário.” (Pág. 80)

(Raduan Nassar / Um Copo de Cólera)

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Ex-freira inglesa, uma das maiores historiadoras do nosso tempo, estuda a raiz dos conflitos religiosos entre os povos do mundo inteiro. Minha aposta para o Nobel da Paz de 2016.

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“Deus, Brahma, Nirvana. Não importa quais sejam as nossas opiniões teológicas, todos experimentamos algo semelhante quando ouvimos uma grande peça musical ou lemos um belo poema, e nos sentimos tocados por dentro, guindados para cima de nós mesmos. Tendemos a procurar esta experiência e, se não a encontramos em um local – numa igreja, por exemplo, ou numa sinagoga – buscamos em outro.”
Pág. 14

“Isso se deve, em parte, a nossa visão do mundo como um vale de lágrimas. Somos vítimas de desastres naturais, mortalidade, extinção, injustiça, crueldade. A busca religiosa geralmente começa com a constatação de que, como disse Buda, ‘a existência é errônea’. (…) Esta sensação de perda já foi expressa de muitas maneiras, evidencia-se na imagem platônica da alma gêmea da qual fomos separados ao nascer e no mito universal do paraíso perdido.”
Pág. 15

“Essa busca pelo sagrado e o culto a um local santo se relacionava com a nostalgia do paraíso. Quase todas as culturas possuem o mito da Idade de Ouro no começo dos tempos, quando a comunicação com os deuses era fácil e íntima.”
Pág. 32

“A história das religiões mostra que, em épocas de crise ou se convulsão social, as pessoas se voltam mais prontamente para o mito do que para as formas mais racionais de fé. Como uma espécie de psicologia, o mito consegue penetrar mais fundo que o discurso cerebral e tocar a causa obscura do sofrimento nas esferas íntimas do nosso ser. Mesmo hoje, vemos que o exílio vai além da simples mudança de endereço. É também um deslocamento espiritual. Tendo perdido seu lugar no mundo, os exilados podem sentir-se à deriva num mundo que, de repente, se tornou estranho. Sem o ponto fixo da ‘pátria’, uma desorientação fundamental faz tudo parecer relativo e sem sentido.”
Pág. 114

“Quando vemos um lugar onde ocorreu alguma coisa importante para nós, desaparece a lacuna entre o passado e o presente, que as simples informações verbais não conseguem eliminar.”
Pág. 232

“O processo de cavar o solo e chegar a uma santidade enterrada, então inacessível, constituía em si mesmo um importante símbolo de busca de cura psíquica. (…) Freud logo percebeu a relação entre a Arqueologia e a Psicanálise.”
Pág. 490

“Todavia, como demonstra a longa e trágica história de Jerusalém, nada é permanente ou garantido. As sociedades que sobreviveram por mais tempo foram as que se dispuseram a algum tipo de tolerância.”
Pág. 514

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(Karen Armstrong / Uma Cidade, Três Religiões)

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