
(F. Scott Fitzgerald / O Grande Gatsby, 1925)

(F. Scott Fitzgerald / O Grande Gatsby, 1925)
Publicado em books on the table (literatura), choro baldes (arte) | Etiquetado cinema, f. scott fitzgerald, filme, literatura, livro, mariana miranda, o grande gatsby | Leave a Comment »
“Ali todos vivem como zumbis, tentando se salvar até o dia seguinte, mitigar uma dor que já nem sentem mais. Não há nada de especial nesta minha gente, ela apenas suporta de mansinho este banimento, como eu, como você. E o que Vega queria era me chamar para a vida. Sim, por que eu estava atolado num vilarejo nada sensual (esta porra de lugar não é a maquete do mundo?), cercado de olhos mortos e ela me surgiu, a encarnação de um sonho, me chamando para dançar no fogo.”
(Dênisson Padilha Filho / Eram olhos enfeitados de Sol, 2017)
Publicado em books on the table (literatura) | Etiquetado literatura, livro, mariana miranda, novela, padilha filho, trechos | Leave a Comment »
Em regime de recolhimento noturno obrigatório, sob afastamento de todas as funções laborais e com o passaporte recolhido por tempo indeterminado: estou recebendo tratamento de gente importante. Achei chique, achei tendência, achei que meu médico só não mencionou o uso de tornozeleira eletrônica simplesmente por que não precisa: não tenho fôlego para cruzar o quarteirão. O monitoramento também inclui a restrição sumária a quaisquer atividades sociais sob ameaça de transferência para o regime fechado. Horror. São tempos difíceis para os contraventores e para os enfermos da nação.
Até tentei escapar duas ou três vezes de casa, mas fui entregue pelos porteiros. Delação premiada está na moda. Meus advogados não colaboram: todos que conheço são da família e sentenciam que a minha única possibilidade de ressocialização está restrita à internet. Por enquanto. Se esta for responsável por qualquer alteração cardíaca ou arterial, será vetada também. Suponho que a alternativa seguinte seria me abandonar num quarto branco, silencioso, com cama de ferro e comida ruim sendo servida numa bandeja. Hospital? Solitária, o nome.

Enfim. Estou triste e entediada, assistindo o mundo girar sem a minha preciosa contribuição. Depois de me pegarem correndo de kart, perdendo noite e andando de moto sem autorização, meu médico chamou pra conversar. Delito flagrante. Com testemunhas. Antecedentes terríveis. O doutor balançou a cabeça muito desanimado. Ponderou sobre as complicações da minha saúde. Por fim, disse que eu estou que nem o Brasil.
– Abençoada por Deus e bonita por natureza?
– Simplesmente sem remédio. Um caso perdido.
Publicado em havaiana de pau (day life) | Etiquetado atestado, isolamento, mariana miranda, médico, medicina, remédio, saúde | Leave a Comment »
“Se vai tentar, tente até o fim. Caso contrário, nem comece. Isso pode significar perder amores, casamento, parentes e até mesmo a sua própria cabeça. Pode significar não comer durante três ou quatro dias. Pode significar congelar num banco de jardim. Pode significar prisão, escárnio, isolamento. A solidão é até uma dádiva. Todos os outros são um teste à sua resistência, do quanto você realmente quer fazê-lo. E tu vais fazê-lo, apesar da rejeição e das piores hipóteses. E será melhor do que qualquer outra coisa que você possa imaginar. Se vai tentar, vá até o fim. Não há outra emoção como essa. Você vai ficar sozinho com os deuses e as noites queimarão como o fogo. Insista, insista, insista. Você cavalgará pela vida direto para a gargalhada perfeita. Esta é a única boa luta que existe.”
(Charles Bukowski / Jogue os Dados)
Publicado em books on the table (literatura) | Etiquetado charles bukowski, literatura, livro, mariana miranda, poema, poesia | Leave a Comment »
Minha geração anda pagando caro por objetos retrô. Uma cadeira Eiffel vale mais do que uma cadeira moderna, uma poltrona Charles & Ray Eams custa o dobro de outras mais confortáveis. A primeira edição de uma revista, um vídeo-game Atari, uma máquina de escrever de ferro: nenhuma relíquia é fácil. A prova maior desta relação irracional é a tolerância aos defeitos destas antiguidades – as formas desproporcionais da geladeira vintage ganham status de charme e até o chiado típico dos discos de vinil vira um benefício. Na contramão do consumismo, a busca pelos objetos “insubstituíveis” é trabalhosa. E eu entendo. Memória afetiva é isso. As pessoas pagam caro para resgatar qualquer testemunha da sua própria história.
Minha geração também anda pagando caro por pessoas retrô. Reaver laços antigos torna-se difícil quando há tantas novas opções que parecem mais fáceis e adequadas às necessidades de agora. E mais acessíveis também. Dá trabalho descer aos sebos empoeirados, garimpar porões que a gente nem sabia que ainda existiam. Procurar a edição original de um romance, colar fotografias, reencontrar velhos defeitos que, agora, parecem até benefícios. Só por que são únicos. Mas tanto esforço para colocar aquela máquina antiga para funcionar vale a pena? O afinco de restaurar tanta velharia é um bom negócio?
As vitrines seguem frescas, fáceis, disponíveis. E esse fetichismo pelos complicados corredores de antiquário denuncia qualquer coisa que eu não sei explicar.
Minha geração anda pagando caro pelo luxo singelo de ter uma história em comum. Seja com pessoas ou com poltronas. Nenhuma relíquia é fácil.
Publicado em raspas e restos (crônicas) | Etiquetado consumo, geração, hipsters, mariana miranda, moda, nostalgia, retrô, vintage | Leave a Comment »
“Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.”
(Fernando Pessoa / Poemas Inconjuntos, 1946)
Publicado em books on the table (literatura) | Etiquetado alberto caeiro, fernando pessoa, literatura, mariana miranda, poema, poemas inconjuntos, poesia, portuguesa | Leave a Comment »

Mais trechos do livro aqui.
Publicado em books on the table (literatura) | Etiquetado clássico, literatura, livro, mariana miranda, o retrato de dorian gray, oscar wilde | Leave a Comment »
“[O húngaro], único idioma do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita.” (Pág. 03)
“Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.” (Pág. 03)
“Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.” (Pág. 04)
“Um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque para mim, não era o sujeito que se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele.” (Pág.08)
“Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que virassem palavras.” (Pág. 30)
“Aí me veio o capricho de deixar uma mensagem depois do sinal, porque havia três meses, ou quatro ou mais, que eu tampouco falava a minha língua: oi, é o José. Havia um eco na ligação, é o José, dando-me a impressão de que as palavras estavam desgarradas da minha boca, Vanda, Vanda, Vanda, Vanda. E comecei a abusar daquilo e falei Pão de Açúcar, falei marimbondo, bagunça, adstringência, Guanabara, falei palavras ao acaso, somente para ouvi-las de volta.” (Pág. 34)
“Porém algum instinto sempre nos continha quando se chegava perto de um humilhar o outro, ou de se abrir demais o peito. Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda hora, a amizade precisa ter seus diques.” (Pág. 43)
“Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol do Rio de Janeiro, para ter olhos para ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco” (Pág. 76)
(Chico Buarque / Budapeste, 2003)
Publicado em books on the table (literatura) | Leave a Comment »
O WordPress me escreveu informando que este blog completa 10 anos hoje. Pareceu um mérito impressionante, em pleno 2017, ter um blog ativo.
Lembro vagamente que a página nasceu de um exercício banal da universidade. Depois virou portfólio de crônicas, depois diário de viagens, depois arquivo de resenhas literárias e não sei bem qual o papel que ele exerce hoje em dia, tipo circo do interior: se reinventando pra sobreviver. Devo reconhecer que mantive com ele uma relação mais estável do que com 95% das pessoas à minha volta. Alimentei sempre. O blog é isso, o meu cachorro virtual.
Honestamente, não sei mais dizer qual o perfil do leitor de agora – internet é tipo igreja, né, sempre de portas abertas. Cada vez mais gente de mais longe se aproxima e é bom conhecer pessoas novas, tem cidadão que surgiu por aqui e, hoje, assalta a minha geladeira semanalmente, há os desconhecidos que me abordam na rua decepcionados: a cara é a mesma, mas te imaginava vestida de preto e coberta de tatuagens. Teve conteúdo que virou peça teatral, matéria de revista e até objeto de estudo em universidade de São Paulo. O blog virou também um desses arquivos que eu mesma consulto pra lembrar o nome de um livro, a data de um evento e acabo revivendo pequenos vexames – sério que eu realmente escrevi isso?? – acho que toda timeline tem um pouco de amizade antiga, pronta pra bater no seu ombro dizendo: lembra de como você era bizarro? Nossa memória nos escapa, fantasia coisas, omite fatos, mas um código binário não mente. Meu blog foi o terrível Grilo Falante da minha última década.
Sobre os outros blogueiros, posso dizer que vivo essa sensação de que as pessoas estão arrumando seus brinquedos e indo embora do play por motivo de “prefiro mídias líquidas que não deixem rastros e Deus me livre lembrarem de quem eu fui anteontem”. Eu, é claro, compreendo. Ainda assim, o Snapchat e o Stories que me perdoem, mas eu vou continuar por aqui mesmo, sentada sobre os arquivos que criei na Idade Média. Razão 1: eu fui alfabetizada antes de aprender a me filmar conversando sozinha com uma câmera. Razão 2: apesar de tudo, eu não quero que minhas histórias desapareçam. Acreditem, crianças, de qualquer forma a internet sabe o que vocês fizeram no verão passado. Acho que nunca mudei de plataforma por que sou meio tipo aquelas vovós que têm medo de apertar o botão errado no microondas e detonar uma bomba no Oceano Pacífico, mas principalmente por quê eu não quero que minhas ideias sejam deletadas em 24h. Eu quero ficar com tudo o que é meu. Não quero que evapore. Meu plano é sentar aqui bem bonita e continuar acumulando vexames para a posteridade.
Hoje este blog completa 10 anos e talvez o grande mérito dele seja esse mesmo – veja só – ainda estar vivo. Fico feliz de existirmos todos de modo simultâneo: eu, a internet, as pessoas que lêem, as pessoas que escrevem. Ao menos, as que ainda escrevem. As que eu ainda posso ler. As que ainda digitam divagações inúteis enquanto aguardam pela senha no balcão da existência. Que sorte a nossa, eu acho.
O blog agradece o carinho de todos. Até 2027. Um beijo.
Publicado em havaiana de pau (day life) | Etiquetado aniversário, blog, blogueira, dez anos, internet, mariana mirada, redes sociais | 3 Comments »

Sarah Adelman, eleita pela Folha de São Paulo como uma das mais fortes personagens de 2017.

(Monsieur & Madame Adelman / Nicolas Bedos, 2016)
Publicado em choro baldes (arte) | Etiquetado cinema, filme, francês, mariana miranda | Leave a Comment »