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Come on

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Éramos cinco

jose luis peixoto, a criança em ruínas

(José Luis Peixoto / A Criança em Ruínas)

“E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos…”

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Mas, finalmente, aquilo era documento ou ficção? O diário de Hemingway citava despretensiosamente um país chamado Andorra, que eu julguei não existir. Minúsculo, entre a França e a Espanha, sem aeroporto, sem estação de trem, isolado entre as montanhas dos Pirineus. Desde os chalés de pedra cobertos de neve, os trenós puxados por cães e iglus com banhos térmicos: tudo parecia ficção. Das melhores. Mas não era.

(Desconfiei que não era quando não encontrei nenhuma referência no Dicionário de Lugares Imaginários. Conhece esse livro? 700 páginas com todos os cenários utópicos do cinema e da literatura, de Oz à Springfield, de Hogwarts à Passárgada, com mapas e referências das paisagens reais que os inspiraram. O guia de viagens do sonhos. Já conhecia? De nada.)

Fiquei obcecadamente lendo sobre o assunto, como é que eu nunca tinha ouvido falar desse país? Tão próximo da cidade onde eu morei, estive duas vezes naquela divisa, andei a pé por aquela estrada. Pesquisei fotos na internet e mostrei para alguns amigos: ninguém conhecia. Andorra virou nossa metáfora para oportunidade desperdiçada.

Dizem que, do ponto de vista da Semiótica, as coisas passam a existir de uma maneira mais sólida depois que ganham um nome. A ideia de ter caminhado ali ignorando a existência de Andorra me fez pensar sobre tudo o que eu ainda não sei – e que pode me parecer um vacilo imperdoável daqui até, sei lá, 2030. Me aflijo pelas descobertas futuras, pelas coisas que eu julgo conhecer muito bem. Talvez não conheça. Envelhecer é descobrir que a gente estava errado.

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(Fonte: Google)

Goethe

“Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.”

(Johann von Goethe)

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(Cidade de Serrinha, Bahia, 29 graus, sem filtro)

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Por tempos, eu tive um pesadelo recorrente: eu estava visitando as redes sociais e acabava curtindo uma postagem sem querer. Passava o dia sem perceber o engano. Porém, o conteúdo causava estarrecimento entre meus conhecidos, ficava um mal estar à minha volta que eu não conseguia compreender: eles não tocavam no assunto, eu não tocava no assunto, o tempo passava e o resto do sonho ia perdendo o áudio. As pessoas gaguejavam e iam perdendo a voz. E o mundo mergulhava num completo silêncio.

Detalhe: jamais descobri qual era o conteúdo da postagem. Talvez nem importe. O meio é a mensagem.

Saramago, me abraça.

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“Às vezes, Fernando é uma mancha na vida de Daniela; mas quem não é, de vez em quando, uma mancha na vida de alguém?” (Pág. 12)

“Como representar o que acontece enquanto conversam? O que deixam de dizer um para o outro, aquele fundo de censuras tímidas, de minúcias, que se agita enquanto falam? Como iluminar as áreas que ambos decidiram deixar às escuras? Depois de uma época difícil, decidiram retornar ao pacto de não agressão, à indireta cumplicidade dos que estão conscientes de partilhar apenas um fio de vida.” (Pág. 76)

“- Você já quis ser professor de educação física?
– Não.
– Já quis fazer parte do Greenpeace?
– Não.
– Já quis ser outra coisa?
– É, a gente sempre quer ser outra coisa, Daniela. A gente nunca está contente com o que é. Seria estranho estar completamente contente.” (Pág. 90)

(Alejandro Zambra / A Vida Privada das Árvores)

O mundo dos títulos

Leonid Afremov (born in Vitebsk, 1955) is a Belarusian

Faz um tempo que eu acompanho o trabalho de Leonid Afremov. É aquele pintor de origem bielorrussa que usa cores berrantes para retratar paisagens de inverno. Gosto dos quadros dele, mas, principalmente, gosto dos nomes que ele escolhe para os quadros dele. Queda de Ouro, O Fim da Paciência, Juntos na Tempestade, Antecipação, Jogos Perigosos, Mágica Antiga etc. Uma tela, quando ganha um título assim, faz a gente imaginar histórias por trás da cena.

Na música, acho que o campeão em títulos poéticos é o Chopin: Noturno, Tristesse, Valsa Minuto, Fantasia de Improviso. Acho que Grande Valsa Brilhante faz pensar num romance vitoriano.

Imagino cenários e enredos também no supermercado, na lanchonete, já reparou em como batizam as tortas de doceria? Pecado de Damasco, Merengue à Moda Antiga, Cabelo de Anjo Dourado sob Pêssegos da Macedônia. Acho lindo. E os rótulos de vinho? Tributo Vintage Reserva, Um Sonho Espanhol, Lágrima Cristã dos Feudos Rosados de São Gregório. Há nomes de condomínios residenciais, de pacotes de viagem, slogans de iogurte importado – tantos títulos interessantes esperando por uma história.

É um mundo de hipóteses discretas. Eu vejo literatura em todas as coisas.

Os dias

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“Discretos, silenciosos,
chegaram os dias lindos.”

(Carlos Drummond de Andrade / Os Dias Lindos)