Feeds:
Posts
Comentários

Dobra

“Tínhamos

em comum

ter de ganhar

o pão

de cada dia

e ter muita

dificuldade

em ganhar

o pão

de cada dia.

Isso

é muito mais

que a questão

do destino.”

.

(Adília Lopes / Dobra)

.

.

* poema de referência à citação “Tínhamos de verdadeiro a questão do destino”, de João Miguel Fernandes

Lídia

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).”

(Fernando Pessoa / Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio)

Princesa Mégara

(Hércules / Disney)

Perto do Coração

Minha mãe me apresentou uma música chamada Perto do Coração, de Nelson Ayres. Li que a canção seria inspirada no livro de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem. Por sua vez, sei que o título Perto do Coração Selvagem foi inspirado por um trecho de um romance de James Joyce, que até virou epígrafe da obra: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida”. Foi Joyce quem escreveu Ulisses, uma adaptação do poema Odisseia, composta por Homero. E a Odisseia é uma releitura de lendas primitivas relativas à Ítaca, ilha do Mar Jônico. Elas originaram-se da união dos mitos dóricos e micênicos, repletos de criaturas fantásticas.

O que existe em comum entre todas essas obras? Uma certa fusão do humano com o animal. Nesta mitologia ancestral havia uma criatura que era metade humano e metade cavalo: o centauro. Em Homero, o centauro Quiron é sinônimo de força e coragem. O herói Heitor, mesmo não sendo visto com equino nenhum, é chamado “domador de cavalos” e um importante episódio histórico é a Guerra de Troia, onde uma enorme escultura animal surpreende por estar repleta de homens por dentro. Em Joyce, o cavalo é referenciado no azarão que, mesmo fraturado, vence a competição: “As únicas pessoas descentes que vi em locais de corrida eram cavalos”. Em Lispector: “Sentia o cavalo perto de mim, como uma continuação do meu corpo. Ambos respirávamos palpitantes e novos.” (1986, p. 75) Em outra obra da autora – onde o personagem, não por acaso, se chama Ulisses: “Existe um ser que mora dentro de mim, um cavalo preto e lustroso… inteiramente selvagem.” (1988, p.28)

Na História e na Literatura, o centauro representa o religamento do humano com o seu instinto, um retorno ao impulso, à essência, à verdade. É o regresso à Arcádia. Ouço Perto do Coração pensando neste monstro antigo. E lamentando, às vezes, a falta da outra metade.

20180115_095939153830847.png20180115_092948329194083.png20180115_0920351007353625.png20180115_092209504135245.png20180115_0921331892256321.png20180115_0927131167325514.png20180115_0951141583423918.png20180115_093028406954435.png20180115_092422275242404.png20180115_093217320815847.png20180115_0929071364130447.png20180115_0924451307839879.png20180115_0922451239496850.png20180115_093937297067084.png20180115_1006081628372364.jpg20180115_1049191632764316.png20180115_1053481118917568.jpg20180115_094738223391948.png20180115_094712874017360.png20180115_0940191618653487.png20180115_0919371504453532.png20180115_0953052120225645.png20180115_0923311130816321.png20180115_0945362123823568.png20180115_0942401434041765.png20180115_09263166898999.png20180115_094216897761613.png20180115_094841685727975.png20180115_1208371544867532.png20180115_094138305866717.png20180115_095412684069009.png

“Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, após a morte dos seres, após a destruição das coisas, apenas o cheiro e o sabor, mais frágeis mas vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, permanecem ainda por muito tempo, como almas a fazer-se lembradas, à espera sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vacilações sobre a sua gota quase impalpável o edifício imenso da memória.”

(Marcel Proust / Em Busca do Tempo Perdido I – O Caminho de Swann, p.57)

Era um paraíso

“A criança aceita. Para a criança, não existe passado nem futuro. O momento presente é suficiente. A criança existe aqui-agora. Então ela sente uma certa harmonia, como uma melodia. É por isso que mais tarde, quando você fica muito velho, você continua a se recordar da sua infância, vive dizendo que a infância era um paraíso. Por quê? Porque houve muitos momentos em que você aceitava tudo totalmente. No instante em que a criança começa a rejeitar, deixa de ser criança. A infância é perdida, o paraíso é perdido.”

(Osho / A Nova Alquimia)

Feliz 2018!

Privilégio

Todas as vezes em que passei sob os arcos do Terreiro do Paço, eu pensei comigo: pisar aqui é um privilégio. Mesmo passando ali todos os dias. Fosse voltando do trabalho ou indo à padaria, mesmo na mais rasteira e desinteressante das rotinas, quando o inverno era cinza e o pão menos farto e eu me sentia mais sozinha que aquela estátua no meio da praça, eu enxergava a grandeza daquela oportunidade. Eu sabia que ali, naquele momento, eu era uma privilegiada.

O Terreiro do Paço é uma das coisas mais bonitas que eu já vi na vida.

Hoje, meus caminhos são os mais desimportantes da minha cidade. Mas tenho vivido um outro tipo de privilégio, um benefício delicado. De noite, olhando a janela, baixo os olhos, agradecida. Reconheço quando estou vivendo uma grande oportunidade.