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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Sempre, na última quinta-feira do mês, oito da noite, um vizinho toca trompete. Vizinho ou vizinha, não sei, nunca vi. Dizem que faz isso há anos, dá pra ouvir de vários lugares, é bonito de acompanhar. Pelo som, desconfio que more a dois ou três quarteirões de mim. Pelo repertório, desconfio que é meu parente. A pessoa toca todas as músicas da minha infância.

(Devo dizer que não são canções infantis. Cresci ouvindo boleros castelhanos nos aniversários, nos natais, nos velórios, meus tios brindam qualquer coisa cantando. Família galega, dada à choradeiras latinas, relevem).

Algumas vezes segui a música pela rua para encontrar a localização exata, quase encontrei. Fico imaginando uma prima perdida tentando se comunicar comigo, mandando um sinal. Esperando que eu entenda. Esperando que eu interfone qualquer dia. 

Durante a quarentena, com as ruas excepcionalmente silenciosas, a apresentação fica mais bonita. O pessoal do meu condomínio escuta das varandas e alguns até batem palmas. Dessa vez, não vai dar para sair para procurar o endereço, mas comprei um vinho e carreguei as baterias do gravador. Vou registrar o som, o volume, o vento. Sou boa em procurar as coisas. Preciso apenas que continue tocando.

Portanto, não desista. Falta pouco, prima. 

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El día que me quieras – Carlos Gardel

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Hoje, eu estou sem assunto. Digo isso com uma tristeza certamente maior do que a sua, que também deve estar isolado e sem assunto. Por que me dou conta de que não cultivei outras habilidades. Sei que cada pessoa potencializa o que tem de melhor – alguns são belos, outros ricos, outros atletas – e há quem, como eu, não tenha pontuado em nenhum dos gabaritos. Eu aprendi a puxar assunto. Apenas.

Foi uma estratégia típica de qualquer criança gordinha sem maiores atributos para ganhar a afeição dos mais velhos: ser simpática. Eu me equilibrava sobre os silêncios mais constrangedores e podia transformar qualquer diálogo em entretenimento. Cresci sendo convidada para festas de adulto aonde não conhecia ninguém, só para entrar em ação caso o ambiente ficasse chato. Voluntários me levavam para os asilos para alegrar o dia dos residentes. Quando virei professora da faculdade, me chamavam de stand up comedy e ganhei até o crachá de Miss Simpatia no escritório. Se falar bobagem fosse profissão, eu seria presidente do sindicato. Era isso o que eu sabia fazer.

Mas, hoje, eu estou sem assunto.

Sei lá, acho que as notícias terríveis do jornal e a sobrecarga de trabalho andam esvaziando a minha mente. A solidão também. Como assim, meu alecrim dourado? – pode perguntar o leitor confuso, já que eu não fiquei sozinha NEM UM MINUTO em ambiente NENHUM nos últimos anos. Explico. Mentira, não explico. Não sei dizer por que estou me sentindo sozinha. Talvez eu não tenha nada de novo para falar e repetir as mesmas coisas seja o mesmo que ficar calada.

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Estou tendo problemas com isso por que eu vivo de criar conteúdo. Acredite, estou tendo dificuldade até para colocar as crianças para dormir. Faz tempo que eu desisti de ler os clássicos – não sei como explicar como a vovó da Chapeuzinho Vermelho foi arrancada da barriga do lobo vivo sem que tudo pareça sangrento e macabro, a cena dos três porquinhos preparando um caldeirão para escalpelar o lobo também não me parece muito pedagógica – então eu simplesmente contava como foi o meu dia. Contava do meu trabalho, dos meus amigos, contava que eu corri atrás do caminhão de lixo para fazer selfie com os garis, que me emprestaram um patinete para procurar meu carro no estacionamento do shopping. Elas adoravam. Mas acabou. Quando chega a hora da historinha, eu não tenho mais o que falar. Agora eu conto carneirinhos

lentamente

até o número

du

zen

tos. 

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Com algum atraso, estou me dando conta que tinha uma vida até interessante. Repleta de todos os problemas do mundo, menos o tédio. Não há malabarismo cognitivo que preencha uma agenda sem acontecimentos, o que tem para conversar se você não fez nada de doido a semana inteira?

– como vai você?

– bem, e você?

– bem também.

– que bom.

– …

(Silêncio, no hay banda).

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Por fim, o meu diário do confinamento está sendo um fiasco, não passei da décima página, me recuso a ficar narrando que, hoje, fez frio e a roupa do varal não secou. Que eu trabalhei bastante no computador. Que inclusive, hoje, eu até fiz um bolo! 

(Essa parte do bolo foi figurativa. Eu nem sei ligar o forno).

Imagino uma vida paralela, acontecendo em algum lugar. Misturo passado e futuro, um futuro maravilhoso. Inverno de 2023, um dia de chuva em Amã. Uma vida dinâmica, cheia de acontecimentos. As vidraças embaçadas por causa do fumo e da lareira, eu tomando um chá e conversando sobre os mouros, sobre a Greta, sobre a Florbela, ouvindo o moreno narrar sobre Salinger – quem quer flores depois de morto? – sorrindo com 38 dentes brilhantes para mim, todo aquele ambiente de ruas milenares lá fora e uns carros para queimar, por que revoluções não se deflagram sozinhas. Nos jornais, notícias de um mundo melhor acontecendo. Outra xícara de chá, outra pauta despachada. Olha, a chuva parou agora. Pega a mochila. Vamos voltar para a estrada. 

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E, aí, eu faria um bom diário. E trabalharia bastante, solta pelo mundo. Prometo em breve voltar a fazer a única coisa que eu sei fazer. Lamento por hoje, meu amigo, mas eu estou completamente sem assunto.

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A cada convite para lives no Instagram, acho que fica mais evidente essa divisão entre pessoas fitness e pessoas Netflix. Já havia percebido essa rivalidade antes da quarentena e acho que os dois grupos têm muito em comum: eles não saem do lugar e seus progressos são numéricos. Em cima de uma esteira ergométrica ou em cima de um sofá, os dois maratonistas avançam – é possível medir os quilômetros corridos e os capítulos assistido. Mas não vão a lugar nenhum. Não há deslocamento real e os corpos repetem os mesmos movimentos todos os dias numa obediência que deixaria Foucaut comovido.

A verdade é que números tornam a vida administrável. E atividades não numéricas não elegem vencedores. Por exemplo, como obter números que avaliem o êxito de uma experiência de camping? Ou de marcenaria ou de teatro? Só é possível pontuar em atividades que envolvem repetição. E repetições não criam nada.

(Isso não é bem uma crítica. Pode segurar seu squeeze ou seu controle remoto sem constrangimento. Só acho que a gente nunca soube mesmo o que fazer com essa tal liberdade de ir e vir)

 

alexandre pires 2

 

Hoje, me peguei pensando numa quarentena ao contrário. Imaginei o aparecimento de um vírus que, ao invés de nos manter confinados, nos expulsasse de casa. E nos obrigasse a estar em constante movimento. Do trabalho para o shopping, do shopping para o cinema, do cinema para a academia, da academia para a faculdade. Todo mundo dormindo poucas horas por noite, proibido de desacelerar. Do escritório para o restaurante, do restaurante para o banco, do banco para o mercado, do mercado para a festa. Consumindo, teclando, trabalhando, produzindo. Sem descanso. Sem trégua. Não seria um inferno?

Talvez esse vírus também te pareça familiar. A gente já estava doente e não sabia.

 

 

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Décimo segundo dia da quarentena. Ontem ficamos sem energia – sem internet, sem rádio, sem celular – e, hoje, deve faltar água. Mais um dia assim e vão me encontrar conversando com uma bola de vôlei. Tenho feito registros só para marcar este episódio histórico, mas, hoje, esse negócio de escrever sobre os bastidores de uma tragédia pública me pareceu meio macabro, tipo Diário de Anne Frank ou O Paciente Inglês. Dessas narrativas despretensiosas que as pessoas fazem quando acham que tudo vai ficar bem, quando ainda não entenderam que aquele cenário confuso diante delas é apenas. o fim. da linha.

A comida está acabando. Não estoquei nada – empatia social, mores – e não sabia que o mercado levaria sete dias para fazer a entrega, então o jantar de hoje foi gelatina com aveia. As crianças gostaram. Tenho mantido a casa entretida mesmo dentro da calamidade, um perfeito roteiro de A Vida é Bela. Quando fui procurar na dispensa algo para o café de manhã, entre potes de chá, orégano e mais gelatina, encontrei algo que me fez lembrar o ano de 2010. Meu Deus, que fase.

(Caro leitor, se você também viveu alguma coisa bizarra há 10 anos atrás, abrace seu Buda: esse é um ciclo que vai se fechar agora. Diria Bukowski: você só cai de um mesmo cavalo uma vez por década).

Voltemos a 2010. Devo lembrar que, naquela fase do período cretáceo, possuíamos poucas redes sociais, os celulares dispunham de fotos com baixíssima resolução e nenhuma internet móvel. Época horrível. Eu estava vivendo momentos de altos e baixos financeiros que, quando altos, tocavam as nuvens, quando baixos, mergulhavam no magma da Terra. Atribuo esta turbulência monetária ao fato de ter uma personalidade otimista – irresponsavelmente otimista – somada à certa ingenuidade juvenil. Até então, eu desconhecia esse abismo cognitivo que existe entre pessoas com menos de 30 anos e as que possuem mais de 30, esse portal que só se revela depois que você atravessa para o lado de cá e te faz rever os filmes da sua adolescência apenas para descobrir que os pais do mocinho estavam com razão o tempo todo. Eu era muito ingênua. Essa iluminação ainda não havia chegado a mim. Só lembro de, em junho de 2010, estar bem feliz vestida de vermelho na Champs-Elysees, jantando numa esplanada à luz de velas. Em julho, de ter levado um calote memorável. Em agosto, de estar vendendo os meus móveis na feira para pagar o aluguel.

Final trágico para uma bancarrota épica, sim?

na verdade, não. Era só o começo.

Infelizmente, os móveis não valiam tanto e, no fim do verão, fomos despejados. Pensei em desistir de tudo, mas eu estava obstinada por um projeto pessoal importante, era a chance da minha vida. Consegui alugar um porão num prédio histórico caindo aos pedaços, um depósito subterrâneo sem janelas, uma única lâmpada. Eu não sabia como seria o inverno ali. Ter vendido o tapete foi uma decisão errada, por que o piso foi ficando mais gelado a cada dia. A lareira não funcionava, muito mofo. As chuvas foram chegando, as infiltrações inundavam tudo e não dava mais para dormir no chão. Mas eu ainda estava otimista. Irresponsavelmente otimista. Eu achava que ia passar.

Não passou.

Meses depois, fomos despejados de lá também e embarcamos para a África – pela terceira vez – porém a África estava em guerra – de novo – e isso representou problemas ainda piores, mas o episódio que eu quero narrar foi um pouco antes. Foi naquele dia. O momento exato em que eu entendi que não dava mais para ser otimista. Aquilo não ia passar.

Era uma dessas tardes tristíssimas em que eu estava chegando do trabalho. Eu me perguntava o que ia acontecer com a gente naquele inverno. Me curvei para entrar no porão, tranquei a porta, tirei o casaco, acendi o fogareiro e fui ver o que restava na dispensa. Eu administrava as compras e percebi que havia algo errado. Os biscoitos tinham acabado, mas ainda havia arroz e sardinha. Enumerei os itens de novo e me dei conta do que estava acontecendo:

Meu namorado estava, há semanas, ALMOÇANDO BISCOITO DE COCO para que eu tivesse o que comer.

GENTE.

MEU MUNDO CAIU.

Eu estava causando problemas a outra pessoa. Eu fiquei paralisada com essa informação.

Eu não havia percebido antes. Entre todas as aquelas privações, por algum motivo, essa mudou tudo. Por que eu percebi que a culpa era minha. Do meu projeto de vida, da minha obsessão, do meu otimismo. Não falei nada sobre o assunto. Mas este dia marcou uma série de mudanças: eu entendi que precisava fazer algo, que aquela fase ruim não ia, magicamente, passar.

E devo dizer que nunca mais na vida eu comi biscoito de coco. Tomei horror. Arroz com sardinha também passou a me causar aflição. Enfim.

Depois de uma labuta colossal, finalmente, os meus planos deram certo. E tudo se ajeitou. Hoje, seria elegante concluir que todos estes episódios mudaram completamente a minha maneira de ser e que eu me tornei uma pessoa madura e ponderada, que não alimenta quaisquer projetos aventureiros irresponsáveis – mas a quem estamos tentando enganar, não é mesmo??? EU NÃO ME IMPORTO. Provavelmente ainda passarei por perrengues incríveis nesta vida, mas aprendi que não posso arrastar ninguém comigo para o fundo do poço. Meu coraçãozinho é bem Saint-Exupéry: a gente é responsável pelo que cativa.

Final feliz, vejam só. E dez verões e invernos sucederam-se no calendário gregoriano.

Em março deste ano, quando começou a quarentena, eu fui uma cidadã exemplar. Mantive uma calma celestial desde o início, ajudei a todos. Vai parecer louco o que eu vou dizer, mas, ao menos, foi apaziguador estar diante de uma crise que não fui eu quem criou. E não sou eu quem precisa administrar, conduzir, solucionar. Estamos vivendo uma pandemia, é um problema mundial. A dispensa está vazia de novo, mas é um alívio saber que a culpa não é minha.

Então, hoje à noite, em episódio não relacionado, fui resgatar uns alimentos no armário e encontrei algo surpreendente. BISCOITO DE COCO. Socorro! Ninguém sabe de onde veio. Concluí que ele foi trazido pelo Bukowski em pessoa, que levantou da cova catando os próprios pedaços e dirigiu-se pessoalmente à minha cozinha só para me lembrar que uma década já se passou. Que está começando outra. E que eu não posso deixar aquele cavalo me derrubar de novo.

Por absoluta falta de opção, o café de amanhã será esse mesmo, biscoito de coco. No almoço, teremos um cardápio sofisticado composto por salsichas em cubos acompanhadas de milho em lata. No mais, seguirei tocando violino no convés do Titanic, escrevendo diários sobre um futuro melhor. Vendendo otimismo nesta quarentena.

Isso vai passar. É claro que vai.

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Estou do lado de fora da sala de aula. O professor já entrou. Eu perdi na avaliação desta disciplina por que enviei um documento errado. Não bastava estar apanhando miseravelmente da bibliografia em francês, eu mandei o documento errado. Fui reprovada. Todo mundo soube. Eu não quero entrar.

Sei que constrangimento é uma forma de vaidade e fico aqui pensando em um episódio de Machado de Assis, que li há muitos anos. É quando o pai de Capitu, o Sr. Pádua, empregado numa repartição, assume temporariamente o cargo do seu superior. O chefe precisava ir para a Europa e, naquela época, esta era uma odisseia que durava meses. Enquanto administrador interino, ele passou a ganhar o salário do diretor. Comprou carro, roupas, joias, incorporou um novo estilo de vida para a família, passou a ser reconhecido nos lugares. Vinte e dois meses depois, com o retorno no chefe, o Sr. Pádua entra em desespero:

– Não hei de confessar à minha gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o público?

– Que público, Sr. Pádua?

Na época, este diálogo, tão periférico na trama, me fez rir muito. Acho que foi de nervoso.

Houve um dia, ano passado, em que eu acordei num lugar desconhecido. Não conseguia levantar. Apalpando as coisas no escuro, entendi que estava numa maca e que talvez aquilo fosse um ambulatório. Ao invés de chamar alguém e fazer perguntas, eu simplesmente me deixei ficar ali. Era a primeira vez em meses em que eu estava completamente sozinha. Achei inacreditável aquele silêncio.

(Eu tive um problema no cérebro causado por exaustão).

Mais do que nunca, imagino que mudanças importantes desenrolam-se em hiatos. Casulos, cascas de ovo, ritos de passagem que transcorrem nos bastidores. Veja só, pela tradição, o que é um casamento? Os noivos fazem uma celebração, viajam em lua de mel e retornam à sociedade como pessoas casadas. Se alguém que perde o cônjuge, fecha-se em luto e retorna como viúvo. Um casal engravida, tira uma licença e retorna como família. Se até o Divino precisou de 40 dias no deserto para se preparar para uma vida nova, quem sou eu para desmerecer uma fuga? Apenas reservem. Meu lugar. Nesse foguete.

Estou na porta da sala. Cansada e constrangida. Estou lembrando de um filme de James Bond, quando o informam que a cabeça dele estava valendo uma recompensa de um milhão de dólares. Antes de fugir, ele duvida da informação: um milhão? Ninguém vale tudo isso.

Constrangimento é vaidade. Que público, Sr. Pádua? Ninguém vale tudo isso.

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Perdoem os meus pedidos ingênuos, mas é que, hoje, faleceu Nelson Traquina. Eu soube por jornais de três países. Americano, ícone da liberdade de imprensa, denunciou ditaduras e a manipulação da mídia internacional. Escreveu alguns clássicos do Jornalismo. Tornou-se doutor na França e catedrático em Portugal. Há livros em sua homenagem. Uma grande perda.

Traquina foi meu orientador de mestrado, em Lisboa. Fui da sua última turma. Ele preocupava-se com as guerras, com a transparência da informação e com a xenofobia contra imigrantes, como eu – estão te tratando bem, filha?

Dizem que, quando morre um ditador, nasce um artista. Não sei o que acontece quando morre um democrata. Só me ocorre que ele não vai estar mais aqui para defender nossos direitos e que isso será missão de outros. Os outros, veja só, sou eu e você. E eu realmente acho que a gente vai ter que se esforçar mais.

Sou agradecida ao professor Traquina por, hoje, viver na era do Jornalismo Investigativo, da denúncia, da apuração, do direito de resposta: é um privilégio. Você deveria ser grato também.

Às demais pessoas que admiro, peço a cortesia gentil de manterem-se vivas. O mundo anda autoritário, truculento e tivemos essa baixa hoje. É uma década difícil. Meu caros amigos, apenas sigam respirando.

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Ela era uma babá nos anos 50. Nas horas vagas, Vivian Maier saía para fotografar as ruas. Acho o trabalho dela lindo e sofisticado, mas gosto especialmente do fato dela ser a precursora das selfies.

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O trabalho de Vivian me fez notar que as pessoas não registram suas vidas. Fazem fotos de viagens, de festas, de excessões. Este ano, passei a me fotografar nos lugares da minha vida real: no banco, no mercado, no espelho de segurança do estacionamento. Sem o propósito estético das selfies atuais, sem filtro. Também sem o talento nem a Rolleiflex da Vivian. Nem sei o que fazer com essas imagens. Ela também não sabia o que fazer com as dela e deixou tudo num baú trancadíssimo num sótão aleatório de Nova York.

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Pois é, Vivian, acho que esse blog é o meu baú. Mas ele segue aberto. Aqui, num sótão aleatório da internet.

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“A nossa pequena história nada pode dizer aos outros e não ser grande contribuição para a história do destino comum. Mas é a nossa vida. Pedaços da nossa alegria, momentos de desespero, amores, desilusões. Por isso escrevemos poemas, fazemos greves, vamos ao futebol e ao teatro. Alguns têm a rara felicidade de participar em revoluções e sentir aí que o destino é domável. O que procuramos, nós, os seres comuns, não é a grande história, é antes não deixar morrer este anseio libertador. E participamos em novas aventuras, mesmo que seja só passear nas montanhas com os netos. O que nos motiva, no fundo, é saber que alguém precisa de nós.”

(Manuel Monteiro / A Imensa Solidão do Proletariado)

Esse é um trecho de um romance que ainda vai ser publicado. Entrevistei Manuel para um jornal em 2009, comentei aqui na época. Então, depois de ler Cabeça de Calcário – um conto brasileiro sobre a passagem do tempo – inventei Baltazar, um personagem inspirado em Manoel, sua rotina de alfarrabista e duas ou três conversas que tivemos sobre o destino da Europa.

Gosto do Manuel pelo entendimento histórico e fatalista que ele tem sobre a própria vida. Ele tinha um blog e deixou de atualizar em 2011 – sim, eu sou a única pessoa do Atlântico que ainda atualiza um blog. Mas tenho notícias sempre. Sei que ele está preocupado com as ex-colônias, com o mundo. Às vezes, penso em contar sobre a existência de Baltazar e outros textos – ele só leu a matéria do jornal, não sabe do resto. Talvez não precise saber. Achei que soaria assustador ele descobrir que existe alguém que o observa há anos, intercala encontros casuais e escreve sobre a sua vida.

psicopata

Soube que ele estava escrevendo esse livro, quem sabe seja uma autobiografia, achei que seria útil enviar contribuições, sei lá. Talvez ele achasse isso meio pretensioso. Ou apenas psicopata mesmo.

Às vezes, tenho vontade de abrir o jogo e mostrar às pessoas o material que tenho sobre elas. Por hora, vamos seguir no anonimato para evitar a fadiga e a camisa de força. Não quero ninguém atravessando a calçada com medo de mim.

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Tenho uma professora que é muito inteligente. Dessas pessoas que leu muito, escreveu muito, viajou muito. Sempre quis saber como ela conseguia administrar tantas atividades – por que eu não consigo administrar nem a minha geladeira – mas tenho tentado me educar a não fazer perguntas desnecessárias. Sempre que pensava no fato de que ela, na minha idade, já tinha lido dez vezes mais do que eu, ponderava que eu tenho duas crianças pra criar, casa, trabalho e não se pode ter tudo nesta vida.

E esse sensato consolo bastaria a qualquer pessoa que não tenha um baratino maluco por informações supérfluas. Na primeira oportunidade: professora, como você conseguiu?

Ela achou graça e respondeu que bebia muito café. Especialmente depois do parto dos SETE FILHOS e da chegada dos DOZE NETOS, já que administrar a família, PALESTRAR PELO MUNDO, GANHAR PRÊMIOS e ser UMA REFERÊNCIA INTERNACIONAL tornavam a rotina meio cansativa, então uma xícara de café era um santo remédio.

Enfim. Agradeci a resposta.

Eu e as minhas perguntas desnecessárias.

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Eu não tenho ideia de como funciona uma lâmpada. Quer dizer, conheço uma explicação superficial sobre correntes elétricas, mas ligo a luminária todos os dias sem fazer maiores questionamentos. É assim com a torneira, com o forno, com o rádio. Quase tudo que eu faço no meu dia é confiar que as coisas simplesmente vão funcionar.

Não saio de casa refletindo sobre o quanto a minha vida depende do perfeito desempenho do freio do carro, do cabo do elevador, do encanamento de gás. Parto do princípio que os outros – profissionais, técnicos, humanos imperfeitos – fizeram corretamente o seu trabalho. Delego a minha segurança a essas pessoas que eu não conheço nem vou conhecer.

Confio num engenheiro desconhecido cada vez que atravesso uma ponte. Confio num cientista desconhecido cada vez que tomo um remédio. Mas, não sei por quê, nem sempre confio no fluxo do universo.

Acho que a vida humana resume-se em desconhecer o mecanismo dos próprios cotovelos, em aceitar milhares de engrenagens desconhecidas, mas ficar aflito questionando os mecanismos de Deus.

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